
Convidei um russo meu amigo, de seu nome Arkady Averchenko, para almoçar comigo. Averchenko é um homem de riso claro e gosta de contar histórias que não trazem a marca incisiva da revolta, como é comum nos compatriotas soviéticos seus contemporâneos. Não perde tempo com exórdios nem preâmbulos e vai direito a um conto que é passado muito antes da queda do Muro.
-Podes dar-me os parabéns – disse-me um jovem meu amigo, com um sorriso feliz a inundar-lhe o semblante rechonchudo – acabo de obter o diploma de advogado.
- Deveras?
- Palavra de honra!
Ficou sério.
-Não se trata de um gracejo? – perguntei-lhe.
A seriedade dele acentuou-se.
-Meu caro – respondeu num tom doutoral - os homens que, como eu, formam a guarda de honra da lei não gracejam. Os defensores do oprimido, os arautos das grandes concepções jurídicas os sacerdotes do templo da justiça, não têm o direito de gracejar.
E após mirar-me uns instantes em silêncio, sem dúvida para ver o efeito em mim produzido por tão graves palavras, acrescentou:
- Necessitas dos serviços de um advogado?
Ia a dizer que não; mas, de súbito, preguei uma palmada na testa.
- Olha, creio que sim! Nós os directores dos jornais, somos com frequência alvo de perseguições… julgar-me-ão, na próxima semana, por causa de uma notícia sobre a violência cometida por um oficial da Polícia.
- Que fez o oficial da Polícia?
Deu com a espada num judeu.
- Não compreendo; se foi o oficial quem agrediu o judeu, por que é que és tu quem vai ser julgado?
Porque é proibido publicar notícias desse género, que segundo parece, rebaixam o prestígio das autoridades. Pelo visto, a espadeirada foi confidencial e não se destinava, de forma nenhuma, à publicidade.
- Bem. Encarrego-me do assunto, embora seja difícil, muito difícil.
-Não contesto. Vais já dizer-me que honorários…
- Os que cobram os outros advogados.
-Agradecer-te-ei que sejas mais explicito.
- Os dez por cento, homem!
- De modo que se me condenarem em três meses de prisão, estarás nove dias metido no calabouço em vez da minha pessoa?... Estou disposto, nesse caso, a atribuir-te cinquenta por cento.
O novo jurisconsulto perguntou, um pouco desconcertado:
- Não reclamarás uma indemnização pecuniária?
- A quem? Ao tribunal? Ao oficial da Polícia? Ao judeu, que, por se ter deixado agredir, foi até certo ponto, o causador do meu processo?
O jovem advogado acabou por se desconcertar de todo:
- Quem me pagará então? Deves compreender que não vou trabalhar de graça. O diploma custou-me os olhos da cara.
- Trata-se de um processo político…
- Nos processos políticos o advogado de defesa não cobra nada?
- Quando é um advogado que se preza, não.
- Ah, sim? Pois bem, não cobrarei um rublo sequer.
Sacrificar-me-ei nas aras da Liberdade!
-Obrigado! Venham de lá esses ossos!
- Desculpe, já viu a lista?
- Perdão, estava distraído. Sim, queria o prato do dia e uma garrafa de água, por favor.
Aproveito aqui a interrupção da história para dizer que Arkady Averchenko não é propriamente meu amigo. Mas acontece que eu gosto de almoçar acompanhado e escolhi-o a ele, quase aleatoriamente, para me fazer companhia durante a refeição. Contudo, as pessoas com quem eu almoço têm para vocês muito pouco interesse quando comparadas com aquilo que Arkady Averchenko tem para contar. Vou procurar não interrompê-lo mais e deixá-lo retomar a narração.
O mancebo expôs-me o seu sistema de defesa.
-Declararás – disse-me ele – que a notícia não foi publicada.
- O quê?! Pois se o número em que saiu a notícia se encontra em poder dos juízes!
- Ah, sim? Que imprudência, a tua!... Então, o melhor será declares que o periódico não é teu.
- Mas se o meu nome figura por baixo do título e à direita da palavra «director»!
- Declara que não sabias isso.
- Não, não pode ser! Ninguém ignora em Petersburgo que sou eu o director do jornal.
- Mas o tribunal não irá convocar, para prestar declarações, Petersburgo inteiro… Acresce que podes dizer que a notícia foi publicada na tua ausência.
- Não me serviria de nada a mentira; o director do periódico é responsável por tudo quanto nele se publica.
- Ah, sim?... Com mil diabos!... E por que publicaste tu essa estúpida notícia?
- Homem!...
-Que necessidade tinhas tu de imiscuir-te num assunto puramente particular entre um oficial da Polícia e um judeu? Vocês, jornalistas, metem o nariz em tudo!
Baixei os olhos, confuso, arrependido da minha leviandade, Ao ver esboçado no meu semblante o remorso, o jovem apressou-se a mudar de tom.
- Enfim, não sou chamado a acusar-te; isso farão os juízes. Sou o teu defensor. E sairás absolvido; que dúvida há?
Ao entrar na sala do tribunal o meu defensor pôs-se tão pálido que, amparando-o, tive de dizer-lhe ao ouvido, receoso de um desmaio:
- Coragem, amigo!
- É assombroso! – murmurou ele, tentando dissimular a perturbação. – A sala está quase vazia. E trata-se de um sensacional processo político!
Efectivamente, apenas se viam nas bancadas destinadas ao público dois estudantes que, sem dúvida, haviam lido na imprensa a notícia do meu julgamento e ali acudiam para me verem condenar. Ou – quem sabe lá? – talvez estivessem resolvidos a executar algum acto heróico para me salvarem.
A expressão deles era extremamente enérgica e lia-se-lhes nos olhos o ódio feroz ao nosso regime político e um amor sem limites à liberdade. Talvez o seu propósito fosse arrebatarem-me da sala, se o veredicto fosse condenatório, e fugirem comigo para as campinas mexicanas, por eles destinadas a teatro de terríveis façanhas minhas.
Ouvi, mal entendendo, a leitura do libelo. A minha atenção absorvia-se quase inteiramente no meu pobre advogado, naquele momento semelhante ao protagonista da obra de Vítor Hugo, «O Último dia de um Condenado à morte».
- Coragem! – repeti-lhe.
- Tem a palavra o advogado de defesa – proferiu com solene entoação o presidente, ao terminar a leitura do libelo. O meu advogado, como se aquilo não lhe interessasse nem pouco nem muito, continuou a folhear na sua papelada.
- O advogado de defesa tem a palavra.
- Começa o discurso! – soprei eu, pregando ao mesmo tempo um muro na cadeira do jovem causídico.
- Quê! Ah, sim! É para já!
E levantou-se. Cambaleava. Este mancebo, pensei, vai despenhar-se em cima de mim.
- Rogo aos senhores juízes – balbuciou – que desviem a sua vista do processo.
-Para quê? – perguntou, espantado, o presidente.
- Para citar testemunhas.
- Com que objectivo?
- Para provar que, quando se publicou a notícia constante dos autos, o condenado…
- O acusado – rectificou o presidente. – ainda não o condenámos.
- Foi um «lapsus», senhor presidente. Para demonstrar que, quando se publicou a notícia dos autos, o condenado, digo o acusado, estava fora.
- Não importa. O director é responsável por tudo quanto sai no periódico.
- Ah! Sim, já me tinha esquecido! Não abstante…
Agarrei nervosamente, pela fralda, a toga do advogado e puxei com todas as minhas forças.
- Não insistas!
O advogado voltou-se para mim. A sua palidez aumentava. As suas mão trémulas, apoiavam-se na mesa.
- Que não insista? Bom… Senhores juízes, senhores jurados…
Novo estenderete.
- Jurados, não. Aqui não há jurados!
- Não importa… devia havê-los, em representação da opinião pública…
Soou a campainha presidencial.
- Peço ao advogado de defesa que se abstenha de manifestações políticas.
- Bem, bem, senhor presidente… O calor da improvisação…
Houve largas pausas. O orador já não estava pálido; estava lívido. De súbito com a brusca resolução do jogador desesperado que arrisca numa carta todo o dinheiro que lhe resta, gritou:
- Senhores juízes, tenho a honra de declarar que no suposto delito do meu constituinte concorrem circunstâncias excepcionais.
Expectativa geral. «Que excepcionais circunstâncias serão?», pensei.
- Exponha-as V. S.ª…
- Vou já fazê-lo, senhor presidente.
- Já terminou? Deseja uma sobremesa e um café, como de costume?
- Sim, bolo de bolacha e o café, se fizer favor.
Faço aqui mais um interregno, para deixar que o advogado, eu próprio e você, leitor, respiremos. É que por esta altura já devem estar tão ansiosos quanto eu para saber como é que esta história vai terminar. Não é à toa que chamam ao meu amigo Arkady Averchenko o «Mark Twain eslavo». Passemos então a palavra ao advogado de defesa.
- Senhores juízes: o meu constituinte está inocente. E, conheço-o a fundo, incapaz de delinquir. O seu moral é elevadíssimo.
O jovem advogado emborcou à pressa um copo de água.
- Palavra de honra, senhores juízes! O meu constituinte, testemunha ocular da agressão do oficial da Polícia…
- Eu?! – prostestei em voz baixa. – Não prossigas por esse caminho!
- Não? Bem… testemunha ocular da agressão do oficial não digo que fosse; mas, senhores juízes, a vida dos nossos jornalistas é um verdadeiro calvário de privações e misérias. Desabam sobre eles multas, confiscações, denúncias… E, com grande frequência, carecem, ah! Senhores! Até de um pedaço de pão para meter na boca! O meu constituinte, jornalista devotado, jornalista daqueles que põem todo o seu entusiasmo no exercício da profissão, achando-se, senhores, numa situação económica desesperada, recebe a visita de um judeu que lhe conta que um oficial da Polícia acaba de o agredir e lhe oferece soma de dinheiro para ele publicar a notícia no jornal. A tentação, senhores juízes era demasiadamente forte, e o meu constituinte…
- Senhor advogado! – interrompeu, cheio de assombro, o presidente.
- Deixe-me V. S.ª continuar! – gritou o meu defensor, num inconcebível arranque de audácia. – O meu constituinte escreveu a notícia para ganhar o pão. Pode isto ser um delito? Declaro, com a mão sobre o coração, que não é. Turgueniev, Tolstoi, Dostoievski escrevem também para ganhar o pão e ninguém os processa. A justiça, senhores juízes deve ser igual para todos. Exijo que Tolstoi, Turguniev, Dostoieveski sejam trazidos perante este tribunal e julgados juntamente com o meu constituinte.
Tossiu, bebeu outro copo de água e, levando a mão ao lado esquerdo do peito, prosseguiu:
- Senhores juízes: juro-lhes que o meu constituinte tem consciência tão límpida como a neve que branqueia os altos cumes dos Alpes. É, simplesmente, uma vítima da carestia de vida, da miséria, da fome. O meu constituinte, senhores juízes, é, acima de tudo, uma grande esperança da nossa literatura, e se o condenares… mas não, não o condenareis, não vos atrevereis a condená-lo… Quarenta séculos vos contemplam!
- Tem a palavra o acusado – disse o presidente, por cuja face coberta de cãs perpassou um leve e discreto sorriso.
- A conta, por favor.
- Com certeza, só um momento.
O tempo que eu tinha disponível para almoçar está a terminar, mas se me perguntarem agora o que acabei de comer não sou capaz de dizer. É o que acontece quando estamos completamente absorvidos pela conversa de alguém que a cada frase nos surpreende com a sua eloquência. Tudo à nossa volta deixa de existir. Neste caso, não se tratou exactamente de uma conversa, mas sim da leitura de um livro. É bem verdade quando se diz que «nunca se está só quando se lê um livro». Poderá até dizer-se que se está mal acompanhado, mas nunca só. Não desesperem… Já darei a voz a Averchenko, mas peço-vos um pouco mais de paciência. Este conto faz parte de um livro que inclui outros cinco contos extraordinários de Arkady Averchenko e cujo título é
Maldita Matemática!. Posso acrescentar que pertence à colecção «Mosaico» de uma editora que já não existe há muito tempo, chamada Edição de Fomento. Aqui, na Pó dos livros, e para quem conhece a loja, costumamos ter alguns na primeira mesa, onde se encontram lado a lado com outras relíquias. Pouco sei da vida e obra de Averchenko – nasceu em 1879 e morreu em 1923. Foi considerado por muitos críticos como o rei do humor russo. Voltemos ao conto.
Ergui-me, pronunciando o seguinte discurso:
- Senhores juízes: Permitam-me algumas palavras em defesa do meu advogado. Acaba de receber o seu diploma. Que sabe ele da vida? Que lhe ensinaram na Universidade? Umas tantas habilidades jurídicas e quatro ou cinco frases retumbantes. Do restante ignora tudo. Com tão científica bagagem, que cabe toda dentro da ponta de um lenço, começa hoje a viver. Não o julguem severamente, senhores juízes! Tenham piedade do pobre moço e não considerem um crime o que só é ignorância e candura. Além de juízes sois cristãos! Invoco os vossos sentimentos cristãos e rogo-lhes que lhe perdoem.
«Tem a vida adiante dele e corrigir-se-á com o tempo. Estou certo, senhores juízes, de que, obedecendo ao impulso dos vossos nobres corações, absolvereis o meu advogado, em nome da verdadeira Justiça, em nome do verdadeiro Direito». O meu discurso impressionou muito os juízes. O meu advogado levou várias vezes o lenço aos olhos. Quando os juízes acabaram de deliberar ocuparam de novo os seus assentos, e o presidente declarou:
- O acusado foi absolvido.
Pouco amigo das coisas ambíguas, apressei-me a perguntar:
- Qual acusado?
- Os dois. O senhor e o seu defensor.
O meu advogado de defesa foi felicitadíssimo. Os dois estudantes pareciam um pouco desapontados; teriam preferido, sem dúvida, que eu fosse vítima das injustiças sociais. Saímos juntos, eu e o meu advogado, do tribunal, e dirigimo-nos logo ao telégrafo, onde o jovem causídico expediu um telegrama que dizia assim:
Querida mamã: acabo de iniciar a minha carreira de advogado defendendo um réu político. Absolveram-me – NICOLAS.