A música que se ouve na Pó dos livros

Sexta-feira, Novembro 20

Disparates literários


Poderíamos considerar diversos candidatos ao prémio de autor dos maiores disparates da literatura. Como Shakespeare, que assumia que a Boémia, situada onde é hoje a República Checa, tinha uma longa costa marítima, ou Walter Scott, que no seu livro The Antiquary escrevia que o sol se punha a leste, ou Miguel Sousa Tavares, que no seu livro Equador imaginou o governador de S. Tomé a fazer uma visita ao delegado do procurador da República, em Março de 1906, em pleno regime monárquico. A ficção científica também é pródiga, por razões óbvias, em afirmações que mais tarde se vem a verificar serem disparatadas e até engraçadas. Por exemplo: Arthur C. Clarke afirmou em 1966 que as casas voariam por volta do ano 2000: “(…) e virá o tempo em que comunidades inteiras migrarão para o sul no Inverno, ou mudarão para novas terras sempre que sentirem vontade de mudar de cenário.” Dionysius Lardner (1823) escreveu: “As viagens de comboio de alta velocidade não serão possíveis, os passageiros, impedidos de respirar, morrerão por asfixia.” John Langdon-Davies, no seu livro A Short History of the Future (1936), disse: “Por volta de 1960 o trabalho será limitado a três horas por dia” (era bom, não era?). R. Buckminster Fuller (1966) tem uma tirada fabulosa: “No futuro (2000), os políticos simplesmente desaparecerão. Não veremos mais nenhum partido político.” Ou quando alguém acerta (1949): “No futuro, os computadores não pesarão mais do que 1,5 toneladas. Na passagem da literatura para o cinema, também encontramos exemplos. No filme The Third Man, adaptação do livro de Graham Greene (que não tem qualquer responsabilidade sobre o erro), a personagem de Harry Lime faz o seguinte discurso:

A Itália, durante trinta anos sob o poder dos Borgias, ofereceu-nos guerra, terror, assassínios e derramamento de sangue. Mas também nos deu Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. A Suíça tinha amor fraterno, 500 anos de Democracia e paz, para além de ter inventado o relógio de Cuco (...).

O discurso foi composto por Orson Welles quando representava o personagem Harry Lime. Welles escreveu um excelente texto, mas era péssimo em Horologia. O relógio de cuco foi inventado em meados do século XVIII não na Suíça, como ele afirma, mas sim na região do sul da Alemanha, que também nos deu Goethe, Kant, Schiller, Beethoven e Hegel. A mesma região que nos proporcionou, provavelmente, o maior erro e disparate de todos os tempos, e do qual saiu imensa produção literária, Adolf Hitler, Mein Kampf e seu Partido Nacional Socialista.

Jaime Bulhosa

Quinta-feira, Novembro 19

História de Angola


Este livro História de Angola resulta de um incomparável trabalho de investigação e, simultaneamente, de síntese, levado a cabo por dois historiadores do colonialismo africano internacionalmente consagrados.
Num só volume, ficamos a conhecer a composição social do território angolano, a evolução do domínio português e as formas de organização económica e política ainda no tempo da mais dura escravatura, bem como o lentíssimo avanço para formas mais modernas de organização colonial. Ficamos também a compreender a inexorável formação dos inúmeros movimentos nacionalistas angolanos – dos europeus independentistas às tribos associadas em trono de líderes carismáticos -, até à formação de partidos políticos consistentes, disputando o país contra Portugal e entre si próprios. Finalmente, ao desfecho da conquista da independência segue-se um resumo dos violentos anos de guerra civil, rematados pela recente história de relativa acalmia política, com enfoque nas condições socioeconómicas da Angola contemporânea. Neste livro, os leitores podem ainda usufruir de uma extensa bibliografia internacional única em Portugal, com as mais diversas perspectivas sobre Angola.

Edição: tinta-da-china
Autor: Douglas wheeler e René Pélissier
Tradução:Pedro Gaspar Serras Pereira
N.º Pág. 469
Isbn: 9789896710057

Pvp: 24.90 €

Marcas da Lusofonia na Literatura Portuguesa Contemporânea

Realiza-se hoje aqui na Pó dos livros pelas 18h30, conversas à volta do livro Mar em Casablanca, de Francisco José Viegas. Estas conversas terão como tema central as marcas da lusofonia na literatura portuguesa contemporânea. Para além de Francisco José Viegas teremos também como convidados: Mónica Marques e José Eduardo Agualusa.

Quarta-feira, Novembro 18

Querem reinar ao guelas?

Lá na minha rua no bairro social dos Olivais sul, no tempo em que ainda praticamente não havia barreiras nem muros de espécie alguma entre os quintais, nós tínhamos um assobio. Era um assobio personalizado, com uma melodia própria, de forma que fosse facilmente identificado entre os assobios de outros grupos de miúdos, e que usávamos como chamamento para as brincadeiras ou aviso de aproximação de algum perigo. Soava mais ou menos assim: fiiiuuu, fuuuiii, viiuuu (nunca consegui assobiar bem). Na minha rua, os amigos e as brincadeiras estavam divididos hierarquicamente por idades e sexo, e as regras eram feitas, quase à semelhança do livro de William Golding, O Deus das Moscas, na ausência da supervisão dos adultos. Como uma ilha dentro de uma cidade, a rua organizava-se por grupos: o grupo dos miúdos dos cinco aos oito, o dos nove aos doze, o dos treze aos dezasseis e por aí fora. Também como no livro, os mais velhos e fortes ditavam as leis. Mas ditavam também as modas, e as modas eram as brincadeiras. Elas apareciam sazonalmente, por épocas: a época do pião, a dos carrinhos de esferas, a do jogo de berlinde, etc. No Inverno, os jogos de casa: o mikado, o dominó, o monopólio e muitos mais, só o futebol atravessava o ano inteiro.
Se conhecessem o meu assobio, assobiava agora mesmo para vos convidar a «reinar» comigo ao «guelas», ao mikado, ao dominó ou a outro jogo qualquer. É que estes e outros jogos chegaram à Pó dos Livros. Assim que os vi, regressei à minha infância.

Jaime Bulhosa

Terça-feira, Novembro 17

Inspiração literária


Num evento literário, numa conversa de circunstância entre escritoras:

- Há quanto tempo!
- É verdade, há muito.
- O quê… há mais ou menos vinte anos que não nos víamos?
- Ou mais! E tu estás igualzinha.
- Tu também, e o cabelo loiro fica-te muito bem.
- Obrigada. O que é fazes aqui num evento de editora?
-Sou professora e autora de alguns livros. E tu?
Muito orgulhosa responde:
- Eu escrevi um livro, um romance.
- Parabéns. Dizem que para escrever um romance é necessário ter um momento de grande inspiração?
- Sim, não é fácil imaginar uma história que seja apelativa e ao mesmo tempo original, a inspiração não surge constantemente e o processo de escrita pode ser penoso. Algumas ideias deste livro foram retiradas de acontecimentos recentes e verídicos, passados comigo e muito dolorosos.
- Não sabia, mas está tudo bem?
- Sim já passou. E tu, que tipo de livros é que escreves?
- Livros de matemática, mais precisamente exercícios de integrais duplos, triplos, de linha e de superfície e também de cálculo diferencial em IRn.
- Que interessante!... E onde vais buscar a tua inspiração?
Sem saber bem o que responder:
- Também em momentos muito dolorosos; mas neste caso para os meus alunos.

Jaime Bulhosa

Pergunta ao Pó

Chegaram recentemente às livrarias os primeiros títulos publicados pela Ahab Edições. Com sede no Porto, a editora aposta na literatura traduzida e começa com obras de Fante, Solstad e Stuparich. O nome da nova editora Ahab é a personagem central do romance "Moby Dick", de Herman Melville, cuja versão cinematográfica de 1956 contou com Gregory Peck no papel do inflexível capitão. É na obstinada perseguição à baleia que os responsáveis por este novo projecto vão buscar o paralelismo: "Nós embarcamos na editora com essa obstinação, para caçarmos a boa literatura por todas as paragens do Globo", diz Tiago Szabo.


Pergunta ao Pó é a história de Arturo Bandini, um jovem aspirante a escritor recém-chegado à Los Angeles dos anos 30. Lutando pela dura sobrevivência diária enquanto sonha com o sucesso literário, Bandini vai-se deixando fascinar pelo lado sórdido da cidade até se envolver com a esquiva e temperamental Camilla Lopez, uma empregada de bar mexicana. A paixão que a um tempo o arrebata transforma-se, pouco a pouco, numa destrutiva relação de amor-ódio que vai conduzir a um trágico desenlace. Pergunta ao Pó é uma obra marcante de um mestre da ficção americana do século XX e foi adaptado ao cinema por Robert Towne, que o classificou como o melhor romance alguma vez escrito sobre Los Angeles.


Edição: AHAB
Autor: John Fante
Tradução:Rui Pires Cabral
Isbn:9789899634008
Pvp: 17.95

Sábado, Novembro 14

De Espanha...


Minotauro é uma nova chancela das Edições 70, com direcção editorial de António Sáez Delgado, que vem colmatar uma lacuna na edição em Portugal. "O projecto Minotauro visa dar a conhecer ao leitor português textos de autores espanhóis contemporâneos cujas obras se destaquem pelo seu cunho literário e pela universalidade dos seus temas. Inclui obras de autores consagrados, mas pretende também fazer a ponte com a nova geração de escritores, sinal da pujança de um idioma e de uma cultura que nos são próximos, ainda que, por vezes, distantes."

Estes são os quatro primeiros títulos editados:

Título: Crematório
Autor: Rafael Chirbes
Tradução: Miguel Serras Pereira
ISBN: 9789724415482
PVP: 23.00€







Título: Sem Necessidade
Autor: Julián Rodrigues
Tradução: Luís Filipe Sarmento
ISBN: 9789724415574
PVP: 12.00€



Título: Bingo!
Autor: Esther Tusquets
Tradução Luís Filipe Sarmento
ISBN: 9789724414478
PVP: 12.00€


Título: Contra-natura
Autor: Álvaro Pombo
Tradução: Miguel Serras Pereira
ISBN: 9789724414461
PVP: 24.00€
Isabel Nogueira




Quinta-feira, Novembro 12

Leitura colectiva


«Quando uma inteligência e uma sensibilidade lêem um livro, lêem-no com todos os livros que já leram. Este lei projectada na leitura colectiva permite ver quanto tempo leva uma recuperação profunda dos níveis de leitura numa sociedade como por exemplo a portuguesa.»

Manuel Medeiros em Papel de Mais

Papel a Mais


Na sua génese, Papel a Mais estava pensado para ser um livro de poesia, reunindo alguma da produção poética de Resendes Ventura de 1993 até 1998, completando-se com o conjunto «3 Rédea-soltas». Com o adiamento da publicação, sentiu o autor necessidade de se explicar num texto introdutório, «Papeis de um Livreiro – uma Introdução a Papel a Mais», onde, entre elementos biográficos de carácter mais pessoal, R.V. vai discorrendo sobre a sua condição de livreiro desde 1969, num país de grande atraso cultural e fracos índices de leitura, onde tem sido difícil implementar elementos reguladores que permitam um acesso eficaz de todos à leitura.
As reflexões sobre a problemática do livro e da leitura continuam em «Post--Scriptum Redundante a Papel a Mais», no texto «Elogio da Redundância», escrito já em 2009, pouco antes de se iniciar a publicação da obra.
Papel a Mais é claramente um livro de afectos, afectos manifestados de diversas formas. Neste sentido tem especial destaque uma parte do livro designada por «Escrita Amiga»: surgindo entre o núcleo principal da obra e o «Post-Sriptum Redundante», encontramos um conjunto assinalável de textos inéditos de escritores relevantes, amigos do autor. São eles Armando Côrtes-Rodrigues, Avelino de Sousa, Eduíno de Jesus, Fausto Lopo de Carvalho, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Onésimo Teotónio Almeida, Sebastião da Gama, Silva Duarte, Urbano Bettencourt, Urbano Tavares Rodrigues e Teresa Rita Lopes. José Ruy colabora com uma ilustração.
Cada parte do livro separa-se da seguinte através de um desenho da autoria de Resendes Ventura, daqueles que o autor vai deixando espalhados nas páginas dos diversos cadernos que sempre o acompanham, criados entre 2002 e 2008, a fase mais produtiva dos seus «traços a tinta negra».
Conhecedor profundo dos meandros do livro, já que em 2009 completa quarenta anos de actividade livreira, reflectindo, muitas vezes publicamente, sobre as questões do livro em Portugal nas suas diversas dimensões, o autor dá, assim, um precioso contributo para o estudo deste sector, dando a ver/ler a posição e a voz do livreiro, esse agente cultural importantíssimo e, infelizmente entre nós, quase sempre ignorado e votado ao ostracismo pelo poder, pelas instituições e seus decisores.
Papel a Mais é, pois, um livro a ser lido por aqueles que gostam de poesia, mas, acima de tudo, deve ser lido por todos os agentes culturais e institucionais que se movem no meio do livro e da leitura e desejam fazer sobre ela uma reflexão séria: decisores do poder central e local, livreiros, bibliotecários, jornalistas culturais e críticos literários, editores e distribuidores livreiros, investigadores do livro e da leitura, promotores, animadores e mediadores de leitura, professores e educadores, enfim, todos os que se interessam pelo livro, procurando que o número de leitores seja algo em permanente crescimento.
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Edição: Esfera do Caos
Autor: Resendes Ventura

Segunda-feira, Novembro 9

Os livreiros


Fui convidado para fazer parte do júri dos Prémios Edição Ler/Booktailors deste ano. De entre muitas categorias propostas para atribuição de prémios, há uma que me é especialmente cara: a categoria de Livreiro.

Os livreiros?... Quando digo “livreiros” não me refiro às pessoas que casualmente ou temporariamente vão vendendo livros um pouco por toda a parte (sem qualquer tipo de desconsideração para com estas). Os livreiros, e eu conheço alguns, são aqueles que por terem passado tanto tempo manuseando livros se começam a confundir com eles. São como aqueles casais, cujo fácies, após tantos anos de casamento, se assemelha. – Estão a ver?
Um livreiro é praticamente um livro, ou melhor, bocadinhos de muitos livros. Não dos novos, os de quinze minutos de fama, mas daqueles com folhas amareladas, coladas que se abrem com uma lâmina e que fazem comichão no nariz, do pó que levantam. Daqueles que até as traças (mais conhecidos por peixinhos-de-prata, que pertencem à ordem Thysanur) sabem que são melhores para alimento, ou que, como dizia George Orwell, as moscas azuis escolhem para morada eterna. Os livreiros, porque já não se vendem, só raramente se encontram nas prateleiras das livrarias. Porém, quando os encontramos, dificilmente passamos sem os consultar. Se os abrimos a surpresa é grande: cheios de histórias para contar, deles, dos outros e dos livros. Pode ser uma pequena estória, um diálogo que ouviram, um poema que leram, um aforismo muito antigo, lido e repetido em tantos livros que deixou de ter autor e passou a ser deles. Normalmente são cultos, não tanto pelo que lêem, embora leiam muito; mas muito mais pelo que ouvem. - Só provavelmente num confessionário ou num bar se ouve mais. Os livreiros são aqueles que melhor têm a noção da futilidade ou da importância dos livros. Sabem que os livros também são uma mercadoria que se compra e se vende e de que eles próprios, livreiros, fazem parte.

Os livreiros são livreiros porque têm uma dupla finalidade, uma delas é pública, a outra é, muito secretamente, pessoal. A pública é a de vender livros e divulgar a leitura, fazendo-o ao partilhar com os outros as suas próprias leituras. A outra, como dizia um editor meu conhecido, no fim da sua vida: «Eu errei sucessivamente de profissão, o que eu queria era estar junto dos livros para poder ler o que me apetecesse.»


Jaime Bulhosa

Sábado, Novembro 7

Ilusão (ou o que quiserem)



Jorge é uma espécie de actor que vive de expedientes (anúncios, dobragens, figuração), à espera da sua oportunidade; o grupo de teatro a que pertence não se entende sobre o próximo projecto. Quando a mulher, uma professora de Português profundamente deprimida, entra em furor pedagógico, abre espaço e põe em marcha uma série de acontecimentos que terão para Jorge a importância de uma única, ténue revelação.

Esta é a história de uma separação, mas também de uma paixão obsessiva, de uma viagem patética, de um projecto que corre bem demais, e de outras peripécias.

Ilusão (ou o que quiserem) é um romance satírico sobre um homem à procura da realidade, no meio de tantos, tantos fantasmas, vozes sem corpo, corpos sem voz, e da multidão de desconhecidos que faz parte da nossa vida de todos os dias.
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Edição: Dom Quixote
Autor: Luísa Costa Gomes
ISBN: 978-972-20-3893-5
Páginas: 192
Dimensões: 15,5 x 23,5 cm
Colecção: Autores de Língua Portuguesa
Encadernação: brochado
Preço : 12.95 €

Atentar Contra Si

Atentar Contra Si é uma reflexão filosófica sobre a morte voluntária sem chegar a ser um ensaio filosófico no sentido mais estrito de um escrito disciplinar. Nele são pensados certos temas que desde os primórdios do pensamento filosófico foram articulados com a reflexão sobre a morte: a relação entre corpo e espírito, a liberdade e responsabilidade intrínsecas à decisão humana, a relação com o Outro. São pensados sem que lhes seja dada uma solução, e não somente pensados, pois Améry debate-se com o que pode ser a decisão de se dar a morte, uma morte livre. O suicídio é enfrentado num plano íntimo e absolutamente pessoal, o que equivale a um ponto de vista anterior a qualquer consideração da psicologia ou da sociologia. Améry descobre o suicídio como um acto paradoxal, mas não absurdo; paradoxal pois contrário à lógica da vida, mas não um sem-sentido. No embate com a morte voluntária, o encontro do paradoxo permite-lhe tentar a conquista do lugar que é o de todos os suicidas, seja qual for a sua situação particular.
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Edição: Assírio & alvin
Autor: Jean Améry
Tradução: Pedro Panarra
Isbn:9789723714067
Pvp:17.00€

Sexta-feira, Novembro 6

O Espectáculo da Vida



A evolução é um facto que não suscita dúvidas razoáveis, dúvidas sérias, dúvidas inteligentes, informadas e saudáveis. Não há dúvida de que a evolução é um facto. As provas da evolução são pelo menos tão fortes como as do Holocausto, mesmo considerando a existência de testemunhas oculares deste último. É uma verdade inquestionável que somos primos dos chimpanzés, primos mais distantes dos macacos, primos ainda mais afastados dos papa-formigas e manatins, primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos… a lista poderia continuar para sempre. Ora isto não tem de ser verdade. Não se trata de uma verdade evidente, tautológica, óbvia e houve tempos em que a maior parte das pessoas, mesmo as instruídas, pensava que não era. Não tem de ser verdade, mas é. Sabemos isso porque uma vaga crescente de provas o confirma. A evolução é um facto e este livro demonstrá-lo-á. Nenhum cientista respeitável o discute e nenhum leitor imparcial concluirá este livro com dúvidas a esse respeito.
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Edição: Casa das Letras
Autor: Richard Dawkins
Tradução: Isabel Mafra
Isbn:9789724619354
Pvp: 19.00€

Quinta-feira, Novembro 5

Sempre em cima acontecimento

Parabéns Trama


Livrarias assim merecem uma visita.
Parabéns à livraria Trama pelo excelente trabalho desenvolvido.

Quarta-feira, Novembro 4

Crise nos livros... qual crise?


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O mais curto poema


Um dos mais vezes encurtados poemas de referência da língua inglesa é a 4.ª secção do poema de T.S.Eliot The Waste Land, o qual foi drasticamente reduzido por Erza Pound no seu poema il miglior fabbro, a dez linhas elípticas. Mas o poema geralmente considerado como o mais curto poema narrativo na língua inglesa é Fleas” (pulgas):

Adam
Had’em

(tradução: Adam tinha-as)

Nota: Autor desconhecido e completamente não canónico.

Ainda sobre Pseudo-editoras

Retirado daqui (vale a pena ler)

Terça-feira, Novembro 3

Comentário ao post anterior "Pseudo-editoras"

Achámos pertinente publicar este comentário, não pelo elogio que nos faz mas pela importância da denúncia.
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«Muito bom post! Fico contente por os próprios livreiros denunciarem a situação destas "pseudo-editoras" que têm proliferado assustadoramente nos últimos anos, graças a Internet e facilidades de impressão digital. Tenho desenvolvido uma certa cruzada contra essas pseudo-editoras, e ainda recentemente encontrei mais um exemplo péssimo vindo do Norte (não sei bem porquê, mas a maioria destas empresas estão sedeadas no Norte) em que se promovia um concurso de conto e poesia com direito a publicação numa "antologia de talentos". Ora foram seleccionados 80 (!!) autores que foram encafuados numa edição péssima, sem revisão, sem paginação digna desse nome. Preço final: 20 euros. Os autores não tinham direito a um exemplar grátis. O pagamento dos direitos equivalia apenas a um desconto de 20% com prazo de validade de 1 mês... É inacreditável a desfaçatez! E a pseudo-editora promoveu uma festinha de lançamento em que à custa de venda de exemplares a autores não só pagaram os eventuais gastos que tenham tido, como ainda meteram €€ no bolso. E quando se pergunta onde anda essa antologia à venda, ninguém sabe responder... E há muitos outros casos. Dói-me ver pessoas que não têm noção de como o mercado de edição funciona a serem completamente roubadas por esses esquemas gananciosos e desonestos. Se algumas não passam dos 250 a 300 euros outras há as que têm assumido uma fachada bem mais sofisticada e cobram valores na ordem dos 1000 euros para cima. Não ajuda o facto de as vantagens do sistema POD estarem constantemente a serem enfiadas no mesmo saco dessas empresas que recorrem a esse tipo de impressão. Uma coisa é o sistema que é bom, outra coisa é o aproveitamento desonesto que se faz desse sistema. Isto tem muito que se lhe diga, mas é urgente lançar o alerta aos leitores e aspirantes a escritores incautos. No estrangeiro, o trabalho de vanity-presses já foi mais do que denunciado, mas em Portugal ainda há muito a fazer.»
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Safaa Dib

Pseudo-editoras


Todos nós sabemos que a Internet, para além das muitas vantagens, traz consigo algumas desvantagens, como a de potenciar crimes e burlas. Na Internet o que não falta são blogues, dos mais diversos assuntos e gostos, mas todos com uma coisa em comum: são escritos por pessoas, as quais podem ser enganadas. Existe um grande número de blogues pessoais que traduzem sobretudo o gosto pela escrita, desde a poesia, os aforismos, pensamentos, contos, etc. A maior parte dos autores dos blogues nesta área terá no seu íntimo, nem que seja secretamente, o desejo de um dia vir a ser escritor, editado e reconhecido. Independentemente de se ter noção da qualidade daquilo que se escreve, quem é que resiste à tentação de responder a um e-mail que elogia a nossa escrita e nos pergunta: «Por acaso nunca pensou em editar em livro o seu magnífico blogue?», ou «Quer editar o seu livro?», «Quer editar os seus poemas?», «Quer editar os seus contos ou romance?»
O que aqui denuncio não sei se pode ser considerado crime, mas é no mínimo desonesto. Não posso revelar os nomes das pseudo-editoras, porque apenas disponho do testemunho de pessoas que vêm à livraria perguntar pelo seu livro. A resposta é invariavelmente a mesma: nunca recebemos esse livro nem sequer temos conhecimento da sua existência. Desiludidas por raramente encontrarem o seu livro numa livraria, estas pessoas acabam por desabafar e contar-nos como se sentem enganadas. O truque consiste no seguinte: as pseudo-editoras, aproveitando-se do desejo, natural, de quem gosta de escrever e tem um blogue, envia um e-mail elogiando a escrita do autor e propondo-se a ajudá-lo a editar os seus esplêndidos textos. Em troca, com o argumento de que ele ainda é um ilustre desconhecido, pedem-lhe uma comparticipação nos custos da edição e distribuição. Os valores em causa não são grandes, na ordem dos 200 ou 250 euros. Se tiver em conta que poderá ver, no futuro, o seu livro editado e distribuído por todo o país, estes valores parecem ainda mais insignificantes. Não resistindo ao apelo, muito boa gente entra no negócio e só mais tarde se apercebe de que pagou esse valor por 20 exemplares, a que necessariamente tem direito como autor. Compra-se um serviço que oferece livros impressos digitalmente, com miseráveis revisões, péssimo papel e capas horrorosas que valem bastante menos do que o dinheiro que o autor adianta. Para além disto, o contrato que estas pessoas assinam não lhes concede direitos de autor, a não ser que exista no futuro uma segunda edição, coisa que nunca sucede, pois é raro as livrarias receberem sequer estes livros. Não sabemos se de facto se editam mais exemplares e se é feita uma posterior distribuição da mesma pelo mercado. Os seus autores não têm nenhum tipo de controlo neste tipo de edição, na maior parte das vezes feito totalmente por e-mail, não havendo nunca um contacto directo e presencial com os pseudo-editores. Fica aqui o alerta.

Jaime Bulhosa

Segunda-feira, Novembro 2

Criação de traças

A Pó dos livros vai começar a fazer criação de traças e se na próxima Feira do Livro lhe poisar uma no seu ombro não se assuste, ela vai estar apenas em missão publicitária.

Bartleby, o Escrivão


No segundo decénio do nosso século, Franz Kafka criou uma forma notável do género fantástico em cujas páginas inesquecíveis o inacreditável assenta mais no comportamento das personagens do que nos factos. Assim, em O Processo (Der Prozess) o protagonista vê-se julgado e executado por um tribunal destituído de qualquer autoridade, cujo rigor aceita sem o mínimo protesto. Melville, mais de meio século antes, cria o estranho caso de O Escrivão Bartleby, que não só age de forma contrária a toda a lógica, como constrange os outros a tornarem-se seus desalentados cúmplices.


Edição: Presença
Autor: Herman Melville
Colecção A Blioteca de Babel dirigida: Jorge Luis Borges
Tradução: Maria João da Rocha Afonso
Isbn: 9789722342414
Pvp: 12.00€

Sexta-feira, Outubro 30

O meu cérebro


Demorei algum tempo a perceber os benefícios e prazeres da leitura. E isso só aconteceu tarde, na pré-adolescência; a leitura regular só mesmo na adolescência, para desespero do meu pai. Muitas vezes, coitado, tentava aconselhar-me alguns livros para ler, conselho que eu de forma determinada e inequívoca recusava. A esta atitude, o meu pai reagia apenas com um simples olhar de desprezo, e isso humilhava-me mais do que qualquer palavra de repreensão. Quando finalmente descobri a «pólvora» e comecei a ler, resolvi a certa altura começar a juntar todos os livros que lia, inclusive os de banda desenhada e os de leitura obrigatória da disciplina de Português, numa estante do meu quarto. Depois poderia exibi-los, quais troféus, ao meu pai. Ao fim de bastante tempo, muito mais do que o meu pai desejava, consegui decorar uma «extensíssima» prateleira com uns escassos dez livros (achava eu naquela época imenso), escolhidos por mim dos muitos postos à minha disposição (o que nunca faltou em minha casa foi livros). Porém, comecei a desconfiar dos efeitos benéficos da leitura, que tantas vezes me foram prometidos. Os resultados na escola eram os mesmos, isto é, medíocres. Os dotes oratórios não tinham melhorado por aí além e quanto aos conhecimentos adquiridos, noventa e nove por cento deles tinha-se pura e simplesmente desvanecido do meu cérebro. Aproveitei, como desculpa, o facto de ter tido uma negativa num teste e fui ter com o meu pai, a fim de lhe provar que a leitura não trazia benefícios evidentes:

– Pai, afinal ler não traz assim tantas vantagens...
- Como assim? Não te deu prazer ler?
- Sim, mas há muitas outras coisas que me dão prazer.
E, antes de conseguir explicar-lhe os resultados maravilhosos no teste de Português, o meu pai adiantou:
- Tens razão e essas coisas também são importantes. Vou tentar explicar-te de uma forma simples como é que o nosso cérebro funciona.
É preciso não esquecer que naquele tempo não havia computadores e, por isso, não era possível fazer essa comparação, como tantas vezes acontece hoje em dia.
- Imagina que o teu cérebro é um funil.
Dei uma gargalhada.
– Um funil, pai!?...
- Sim, um funil de cozinha. Esse funil tem de estar constantemente a ser alimentado com um líquido, que convém que seja o adequado às necessidades. Estás a conseguir visualizar?
Tentei fazer um ar sério e respondi:
– Sim, estou a imaginar. (E ria interiormente.)
- Já reparaste, com certeza, que quando se verte muito devagar um líquido num funil, esse líquido desaparece muito rapidamente?
- Sim.
- É isso que tens feito até agora, tens deitado pouco líquido no teu funil.
Este comentário provocou-me outra gargalhada.
O meu pai mantinha o semblante compenetrado.
- Por outro lado, quando se verte o líquido muito rapidamente, o funil enche depressa.
- Certo, pai!
- Depois, podemos até parar por um pouco e a sensação que temos a seguir é de que ele se esvazia muito devagar.
- Isso até eu sei! Já fiz essa experiência na escola.
- Agora imagina que esse líquido é a informação, o conhecimento adquirido através da leitura, da experiência e do estudo.
- Estou a perceber onde queres chegar… - Disse eu com uma expressão facial de algum desagrado.
- Óptimo… Então entendes que não tens outra alternativa a não ser estar constantemente a alimentá-lo, para que ele esteja sempre cheio. Doutra forma, ele ficará rapidamente vazio e o conhecimento que terás disponível para usares em teu benefício é simplesmente aquele que restou nas paredes húmidas do funil.

Nunca cheguei a mostrar-lhe o teste e, na altura, achei que o meu pai estava a brincar. A verdade é que resultou. Desde aí passei a dar mais importância à leitura e a ter melhores notas. Se ele ainda estivesse vivo, dir-lhe-ia que ainda hoje, depois de tantos anos, continuam a existir pessoas em Portugal que nunca leram um livro na vida, o que o deixaria incrédulo.
Não sei se de propósito, talvez para não me desincentivar, mas o meu pai não me contou toda a história. Faltou um pormenor «insignificante» acerca do processo de aprendizagem: o universo possível de conhecimento vai aumentando conforme se vai tendo noção da dimensão extrema da realidade. Esse universo é imenso e necessita de um enorme «funil» para ser alimentado, ainda que, no meu caso, esteja sempre irritantemente a ser despejado.

Jaime Bulhosa

Quinta-feira, Outubro 29

Where the wild things are


O filme inspirado no livro estreia brevemente nas salas de cinema. Entretanto, o livro (a edição inglesa) repousa na montra da Pó dos livros sem muito descanso, porque várias vezes sai debaixo do braço de alguém. A razão é óbvia, vale mesmo a pena lê-lo, contá-lo e recontá-lo, não é por acaso que é um clássico da literatura infantil. A Carla Maia de Almeida fala dele aqui.
Apesar de a Quetzal ir editar o romance de Dave Eggars (co-autor do guião do filme) escrito a partir da história de Maurice Sendak, tenho muita pena que nenhuma editora portuguesa achasse interessante traduzir e editar o livro original de Maurice Sendak.

"Where the Wild Things Are", Maurice Sendak, Red Fox - pvp 10.75 euros.
Adenda - vai sair brevemente a edição portuguesa pela mão da Kalandraka.

Débora Figueiredo

Quarta-feira, Outubro 28

Heresia


Entra um cliente com cara de poucos amigos:
- Posso fazer uma pergunta?
- Sim, com certeza.
- Já leu esse livro do herético que horrorizou os católicos e de que tanto falam por aí?
O facto de o cliente ter usado a palavra herético deixou-me desde logo preocupado. Meio a medo, respondi:
- Sim, já li.
- Então, não acha que o devia retirar da livraria e pô-lo à venda no sítio certo?
Depois desta última pergunta, tive a certeza de que devia ser prudente, não dar a minha opinião e responder com outra pergunta:
- Posso perguntar-lhe porque é que acha isso?
- Porque você está a vendê-lo no sítio errado!
Fiquei ainda mais confuso.
- Como assim, a vendê-lo no sítio errado?
- Não há aqui uma igreja ao pé de si?
Começava a ficar preocupado com a possibilidade de ter à minha frente um fundamentalista religioso, deveras furioso e disposto a partir-me a montra.
- Sim, temos a igreja de NOSSA SENHORA DE FÁTIMA. - Disse eu, em maiúsculas para demonstrar que sabia perfeitamente onde se podia ir rezar e apaziguar a fúria do senhor.
- Pois fique sabendo que é lá que saem que nem hóstias.
-
Jaime Bulhosa

O livreiro é um extraordinário leitor

O ritmo a que chegam títulos novos, nesta época do ano, a uma livraria, faz com que um livreiro seja um extraordinário leitor de facturas, fichas técnicas, isbn, sinopses e colófons.
-
Livreiro anónimo a sentir-se no fim do poço

Invisível


Sinuosamente construído em quatro partes entrecruzadas, o décimo quinto romance de Paul Auster começa em Nova Iorque, na Primavera de 1967, quando o jovem aspirante a poeta Adam Walker conhece Rudolf e Margot, um enigmático casal francês. O perverso triângulo amoroso que rapidamente se forma, conduz a um chocante e inesperado acto de violência cujas consequências serão irreversíveis. Três narradores contam uma história que se desloca no tempo, de 1967 a 2007, e no espaço, à medida que viaja entre Nova Iorque, Paris e uma ilha remota nas Caraíbas. Invisível está imbuído de fúria, de sexualidade desenfreada e de uma busca implacável por justiça. É uma viagem através das fronteiras sombrias entre verdade e memória, criação e identidade. Uma obra inesquecível pela mão de um dos nomes cimeiros da literatura dos nossos dias.

Editor: Edições Asa
Tradução: José Vieira de Lima
n.º Pág. 236
ISBN: 9789892306476
Pvp: 13.00€

Terça-feira, Outubro 27

A primeira causa

Convidei um russo meu amigo, de seu nome Arkady Averchenko, para almoçar comigo. Averchenko é um homem de riso claro e gosta de contar histórias que não trazem a marca incisiva da revolta, como é comum nos compatriotas soviéticos seus contemporâneos. Não perde tempo com exórdios nem preâmbulos e vai direito a um conto que é passado muito antes da queda do Muro.

-Podes dar-me os parabéns – disse-me um jovem meu amigo, com um sorriso feliz a inundar-lhe o semblante rechonchudo – acabo de obter o diploma de advogado.
- Deveras?
- Palavra de honra!
Ficou sério.
-Não se trata de um gracejo? – perguntei-lhe.
A seriedade dele acentuou-se.
-Meu caro – respondeu num tom doutoral - os homens que, como eu, formam a guarda de honra da lei não gracejam. Os defensores do oprimido, os arautos das grandes concepções jurídicas os sacerdotes do templo da justiça, não têm o direito de gracejar.
E após mirar-me uns instantes em silêncio, sem dúvida para ver o efeito em mim produzido por tão graves palavras, acrescentou:
- Necessitas dos serviços de um advogado?
Ia a dizer que não; mas, de súbito, preguei uma palmada na testa.
- Olha, creio que sim! Nós os directores dos jornais, somos com frequência alvo de perseguições… julgar-me-ão, na próxima semana, por causa de uma notícia sobre a violência cometida por um oficial da Polícia.
- Que fez o oficial da Polícia?
Deu com a espada num judeu.
- Não compreendo; se foi o oficial quem agrediu o judeu, por que é que és tu quem vai ser julgado?
Porque é proibido publicar notícias desse género, que segundo parece, rebaixam o prestígio das autoridades. Pelo visto, a espadeirada foi confidencial e não se destinava, de forma nenhuma, à publicidade.
- Bem. Encarrego-me do assunto, embora seja difícil, muito difícil.
-Não contesto. Vais já dizer-me que honorários…
- Os que cobram os outros advogados.
-Agradecer-te-ei que sejas mais explicito.
- Os dez por cento, homem!
- De modo que se me condenarem em três meses de prisão, estarás nove dias metido no calabouço em vez da minha pessoa?... Estou disposto, nesse caso, a atribuir-te cinquenta por cento.
O novo jurisconsulto perguntou, um pouco desconcertado:
- Não reclamarás uma indemnização pecuniária?
- A quem? Ao tribunal? Ao oficial da Polícia? Ao judeu, que, por se ter deixado agredir, foi até certo ponto, o causador do meu processo?
O jovem advogado acabou por se desconcertar de todo:
- Quem me pagará então? Deves compreender que não vou trabalhar de graça. O diploma custou-me os olhos da cara.
- Trata-se de um processo político…
- Nos processos políticos o advogado de defesa não cobra nada?
- Quando é um advogado que se preza, não.
- Ah, sim? Pois bem, não cobrarei um rublo sequer.
Sacrificar-me-ei nas aras da Liberdade!
-Obrigado! Venham de lá esses ossos!

- Desculpe, já viu a lista?
- Perdão, estava distraído. Sim, queria o prato do dia e uma garrafa de água, por favor.
Aproveito aqui a interrupção da história para dizer que Arkady Averchenko não é propriamente meu amigo. Mas acontece que eu gosto de almoçar acompanhado e escolhi-o a ele, quase aleatoriamente, para me fazer companhia durante a refeição. Contudo, as pessoas com quem eu almoço têm para vocês muito pouco interesse quando comparadas com aquilo que Arkady Averchenko tem para contar. Vou procurar não interrompê-lo mais e deixá-lo retomar a narração.

O mancebo expôs-me o seu sistema de defesa.
-Declararás – disse-me ele – que a notícia não foi publicada.
- O quê?! Pois se o número em que saiu a notícia se encontra em poder dos juízes!
- Ah, sim? Que imprudência, a tua!... Então, o melhor será declares que o periódico não é teu.
- Mas se o meu nome figura por baixo do título e à direita da palavra «director»!
- Declara que não sabias isso.
- Não, não pode ser! Ninguém ignora em Petersburgo que sou eu o director do jornal.
- Mas o tribunal não irá convocar, para prestar declarações, Petersburgo inteiro… Acresce que podes dizer que a notícia foi publicada na tua ausência.
- Não me serviria de nada a mentira; o director do periódico é responsável por tudo quanto nele se publica.
- Ah, sim?... Com mil diabos!... E por que publicaste tu essa estúpida notícia?
- Homem!...
-Que necessidade tinhas tu de imiscuir-te num assunto puramente particular entre um oficial da Polícia e um judeu? Vocês, jornalistas, metem o nariz em tudo!
Baixei os olhos, confuso, arrependido da minha leviandade, Ao ver esboçado no meu semblante o remorso, o jovem apressou-se a mudar de tom.
- Enfim, não sou chamado a acusar-te; isso farão os juízes. Sou o teu defensor. E sairás absolvido; que dúvida há?

Ao entrar na sala do tribunal o meu defensor pôs-se tão pálido que, amparando-o, tive de dizer-lhe ao ouvido, receoso de um desmaio:
- Coragem, amigo!
- É assombroso! – murmurou ele, tentando dissimular a perturbação. – A sala está quase vazia. E trata-se de um sensacional processo político!
Efectivamente, apenas se viam nas bancadas destinadas ao público dois estudantes que, sem dúvida, haviam lido na imprensa a notícia do meu julgamento e ali acudiam para me verem condenar. Ou – quem sabe lá? – talvez estivessem resolvidos a executar algum acto heróico para me salvarem.
A expressão deles era extremamente enérgica e lia-se-lhes nos olhos o ódio feroz ao nosso regime político e um amor sem limites à liberdade. Talvez o seu propósito fosse arrebatarem-me da sala, se o veredicto fosse condenatório, e fugirem comigo para as campinas mexicanas, por eles destinadas a teatro de terríveis façanhas minhas.
Ouvi, mal entendendo, a leitura do libelo. A minha atenção absorvia-se quase inteiramente no meu pobre advogado, naquele momento semelhante ao protagonista da obra de Vítor Hugo, «O Último dia de um Condenado à morte».
- Coragem! – repeti-lhe.
- Tem a palavra o advogado de defesa – proferiu com solene entoação o presidente, ao terminar a leitura do libelo. O meu advogado, como se aquilo não lhe interessasse nem pouco nem muito, continuou a folhear na sua papelada.
- O advogado de defesa tem a palavra.
- Começa o discurso! – soprei eu, pregando ao mesmo tempo um muro na cadeira do jovem causídico.
- Quê! Ah, sim! É para já!
E levantou-se. Cambaleava. Este mancebo, pensei, vai despenhar-se em cima de mim.
- Rogo aos senhores juízes – balbuciou – que desviem a sua vista do processo.
-Para quê? – perguntou, espantado, o presidente.
- Para citar testemunhas.
- Com que objectivo?
- Para provar que, quando se publicou a notícia constante dos autos, o condenado…
- O acusado – rectificou o presidente. – ainda não o condenámos.
- Foi um «lapsus», senhor presidente. Para demonstrar que, quando se publicou a notícia dos autos, o condenado, digo o acusado, estava fora.
- Não importa. O director é responsável por tudo quanto sai no periódico.
- Ah! Sim, já me tinha esquecido! Não abstante…
Agarrei nervosamente, pela fralda, a toga do advogado e puxei com todas as minhas forças.
- Não insistas!
O advogado voltou-se para mim. A sua palidez aumentava. As suas mão trémulas, apoiavam-se na mesa.
- Que não insista? Bom… Senhores juízes, senhores jurados…
Novo estenderete.
- Jurados, não. Aqui não há jurados!
- Não importa… devia havê-los, em representação da opinião pública…
Soou a campainha presidencial.
- Peço ao advogado de defesa que se abstenha de manifestações políticas.
- Bem, bem, senhor presidente… O calor da improvisação…
Houve largas pausas. O orador já não estava pálido; estava lívido. De súbito com a brusca resolução do jogador desesperado que arrisca numa carta todo o dinheiro que lhe resta, gritou:
- Senhores juízes, tenho a honra de declarar que no suposto delito do meu constituinte concorrem circunstâncias excepcionais.
Expectativa geral. «Que excepcionais circunstâncias serão?», pensei.
- Exponha-as V. S.ª…
- Vou já fazê-lo, senhor presidente.

- Já terminou? Deseja uma sobremesa e um café, como de costume?
- Sim, bolo de bolacha e o café, se fizer favor.

Faço aqui mais um interregno, para deixar que o advogado, eu próprio e você, leitor, respiremos. É que por esta altura já devem estar tão ansiosos quanto eu para saber como é que esta história vai terminar. Não é à toa que chamam ao meu amigo Arkady Averchenko o «Mark Twain eslavo». Passemos então a palavra ao advogado de defesa.

- Senhores juízes: o meu constituinte está inocente. E, conheço-o a fundo, incapaz de delinquir. O seu moral é elevadíssimo.

O jovem advogado emborcou à pressa um copo de água.
- Palavra de honra, senhores juízes! O meu constituinte, testemunha ocular da agressão do oficial da Polícia…
- Eu?! – prostestei em voz baixa. – Não prossigas por esse caminho!
- Não? Bem… testemunha ocular da agressão do oficial não digo que fosse; mas, senhores juízes, a vida dos nossos jornalistas é um verdadeiro calvário de privações e misérias. Desabam sobre eles multas, confiscações, denúncias… E, com grande frequência, carecem, ah! Senhores! Até de um pedaço de pão para meter na boca! O meu constituinte, jornalista devotado, jornalista daqueles que põem todo o seu entusiasmo no exercício da profissão, achando-se, senhores, numa situação económica desesperada, recebe a visita de um judeu que lhe conta que um oficial da Polícia acaba de o agredir e lhe oferece soma de dinheiro para ele publicar a notícia no jornal. A tentação, senhores juízes era demasiadamente forte, e o meu constituinte…
- Senhor advogado! – interrompeu, cheio de assombro, o presidente.
- Deixe-me V. S.ª continuar! – gritou o meu defensor, num inconcebível arranque de audácia. – O meu constituinte escreveu a notícia para ganhar o pão. Pode isto ser um delito? Declaro, com a mão sobre o coração, que não é. Turgueniev, Tolstoi, Dostoievski escrevem também para ganhar o pão e ninguém os processa. A justiça, senhores juízes deve ser igual para todos. Exijo que Tolstoi, Turguniev, Dostoieveski sejam trazidos perante este tribunal e julgados juntamente com o meu constituinte.

Tossiu, bebeu outro copo de água e, levando a mão ao lado esquerdo do peito, prosseguiu:
- Senhores juízes: juro-lhes que o meu constituinte tem consciência tão límpida como a neve que branqueia os altos cumes dos Alpes. É, simplesmente, uma vítima da carestia de vida, da miséria, da fome. O meu constituinte, senhores juízes, é, acima de tudo, uma grande esperança da nossa literatura, e se o condenares… mas não, não o condenareis, não vos atrevereis a condená-lo… Quarenta séculos vos contemplam!
- Tem a palavra o acusado – disse o presidente, por cuja face coberta de cãs perpassou um leve e discreto sorriso.

- A conta, por favor.
- Com certeza, só um momento.

O tempo que eu tinha disponível para almoçar está a terminar, mas se me perguntarem agora o que acabei de comer não sou capaz de dizer. É o que acontece quando estamos completamente absorvidos pela conversa de alguém que a cada frase nos surpreende com a sua eloquência. Tudo à nossa volta deixa de existir. Neste caso, não se tratou exactamente de uma conversa, mas sim da leitura de um livro. É bem verdade quando se diz que «nunca se está só quando se lê um livro». Poderá até dizer-se que se está mal acompanhado, mas nunca só. Não desesperem… Já darei a voz a Averchenko, mas peço-vos um pouco mais de paciência. Este conto faz parte de um livro que inclui outros cinco contos extraordinários de Arkady Averchenko e cujo título é Maldita Matemática!. Posso acrescentar que pertence à colecção «Mosaico» de uma editora que já não existe há muito tempo, chamada Edição de Fomento. Aqui, na Pó dos livros, e para quem conhece a loja, costumamos ter alguns na primeira mesa, onde se encontram lado a lado com outras relíquias. Pouco sei da vida e obra de Averchenko – nasceu em 1879 e morreu em 1923. Foi considerado por muitos críticos como o rei do humor russo. Voltemos ao conto.

Ergui-me, pronunciando o seguinte discurso:
- Senhores juízes: Permitam-me algumas palavras em defesa do meu advogado. Acaba de receber o seu diploma. Que sabe ele da vida? Que lhe ensinaram na Universidade? Umas tantas habilidades jurídicas e quatro ou cinco frases retumbantes. Do restante ignora tudo. Com tão científica bagagem, que cabe toda dentro da ponta de um lenço, começa hoje a viver. Não o julguem severamente, senhores juízes! Tenham piedade do pobre moço e não considerem um crime o que só é ignorância e candura. Além de juízes sois cristãos! Invoco os vossos sentimentos cristãos e rogo-lhes que lhe perdoem.
«Tem a vida adiante dele e corrigir-se-á com o tempo. Estou certo, senhores juízes, de que, obedecendo ao impulso dos vossos nobres corações, absolvereis o meu advogado, em nome da verdadeira Justiça, em nome do verdadeiro Direito». O meu discurso impressionou muito os juízes. O meu advogado levou várias vezes o lenço aos olhos. Quando os juízes acabaram de deliberar ocuparam de novo os seus assentos, e o presidente declarou:
- O acusado foi absolvido.
Pouco amigo das coisas ambíguas, apressei-me a perguntar:
- Qual acusado?
- Os dois. O senhor e o seu defensor.
O meu advogado de defesa foi felicitadíssimo. Os dois estudantes pareciam um pouco desapontados; teriam preferido, sem dúvida, que eu fosse vítima das injustiças sociais. Saímos juntos, eu e o meu advogado, do tribunal, e dirigimo-nos logo ao telégrafo, onde o jovem causídico expediu um telegrama que dizia assim:

Querida mamã: acabo de iniciar a minha carreira de advogado defendendo um réu político. Absolveram-me – NICOLAS.
-
Jaime Bulhosa

Sexta-feira, Outubro 23

Pobre poeta


Esta história não se passou na Pó dos Livros, mas podia perfeitamente ter-se passado. Tanto os nomes das pessoas como o título do livro são ficcionados.

Entra um homem de meia-idade com um semblante que nós, livreiros, de imediato identificamos como o estereótipo do Poeta.

- Bom-dia.
- Bom-dia. Em que posso ser-lhe útil?
- Eu sou autor de um livro e aqui há uns meses deixei uns exemplares em consignação nesta livraria. Gostaria de saber quantos exemplares se venderam?
- Como se chama?
- João Trindade
- Não, referia-me ao título do livro.
- Sentimento Inescrutável.
- Deixe-me adivinhar: é poesia?
- Sim, é uma dedicatória ao amor.

O livreiro pesquisa no computador.
- Ora aqui está! Infelizmente não se vendeu nenhum e mantêm-se os seis exemplares que deixou.
- Deve haver algum equívoco! Eu apenas deixei cinco exemplares!…
- Vamos confirmar.
O livreiro, voltando-se para o colega, pergunta:
- António! Vê aí por favor, na secção de poesia, quantos exemplares existem do livro Sentimento Inescrutável, de João Trindade?

Passado uns segundos:
- Seis exemplares.
- Confirma-se.

O autor, incrédulo.
- Não pode ser! Eu tenho a certeza de que só deixei cinco exemplares.
- Desculpe, não leve a mal, mas provavelmente alguém veio aqui deixá-lo ou trocá-lo por outro, quem sabe?...

Do fundo da livraria o, António diz:
- Há um que tem uma dedicatória.

Ao mesmo tempo o livreiro e o poeta:
- E o que diz?
- Para a minha esposa com todo o amor, porque sem ela não teria sido possível escrever este livro (...).

Jaime Bulhosa

Novas Crónicas do RAP


«Um livro no qual a mais fina ironia e o humor requintado se juntam e resolvem não entrar.»

100 crónicas de Ricardo Araújo Pereira, 100 ilustrações de João fazenda e ainda a crónica do Ikea a cores para montar!

Nota: À venda em todas as livrarias na próxima semana.

Quinta-feira, Outubro 22

Literatura de Deus e do Diabo


Consta que anda por aí uma polémica sobre se determinados livros foram escritos por Deus ou pelo Diabo. Desta polémica, a única coisa que sei é que ambos fazem milagres – só não sei como se distinguem. Há quem diga que é pela doutrina: se a doutrina for boa, os milagres são de Deus, se a doutrina for má, os milagres são do Diabo. Agora, quem me diz a mim, pobre livreiro ignorante, dos livros que li, quais os que foram escritos pelo fazedor de milagres de boa ou má doutrina? Tenho como compensação o facto de saber que em ambos os casos se trata de obras-primas.

Livreiro anónimo a partir das reflexões de Dom Louis-Bernard La Taste (1682-1754)

Quarta-feira, Outubro 21

Já li o livro do José Saramago


Já li o livro do José Saramago. É muito bom. Agora percebo porque é que falam tanto do livro. É mesmo extraordinário, fabuloso, não consegui parar de o ler. Finalmente entendo porque é que lhe deram o Prémio Nobel. Adorei, é tudo o que posso dizer sobre o Memorial do Convento.
-
Jaime Bulhosa

O que gosta de ler sr.dr.Isaltino?


Todos nós sem excepção (ou pelo menos quase todos, pronto…, ou pelo menos os mais curiosos, como eu), quando estamos apanhar seca numa sala de espera de consultório, somos incapazes de resistir a dar uma vista de olhos nas chamadas revistas de sociedade. Para dizer a verdade, ou melhor, para ser totalmente sincero, não resisto aos lead’s das primeiras páginas, como por exemplo: «Alexandra Lencastre está gorda que nem um…». Olhei para uma revista chamada, se não me engano, Flash e reparo que tinha uma entrevista com Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, já depois das eleições autárquicas. Evidentemente, só por isso abri a revista – o facto de poder encontrar lá dentro a Claúdia Vieira ou a Soraia Chaves não me dizia absolutamente nada. Li a entrevista com toda a atenção e, a páginas tantas, a jornalista da dita publicação resolve fazer uma pergunta de âmbito cultural, que fica sempre bem.

- Sr. Isaltino, o que gosta de ler?
- Gosto de ler, quando estou na casa de banho, os livros da Reader’s Digest.
-
Jaime Bulhosa

70 anos da Segunda Grande Guerra


Assinalou-se, no passado dia 1 de Setembro deste ano, os 70 anos do início da Segunda Grande Guerra Mundial. A Pó dos livros tem à sua disposição uma mesa temática de livros sobre o acontecimento histórico mais importante do século passado. Ficam aqui alguns exemplos:


- Eu Fui o Capitão do Exodus, de Ike Aronowich, Sextante
- 1939 Contagem Decrescente Para Guerra, de Richard Overy, Livros D’Hoje
- O Tambor de Lata, de Günter Grass, Dom Quixote
- As Benevolentes, Jonatham Littell, Dom Quixote
- Testemunhas da Guerra, de Nicholas Stargardt, tinta-da-china
- The Storm of War, de Andrew Roberts, Allen Lane
- Those Who Marched Away, de Irene & Alan Taylor, Canongate
- Masters and Commanders, de Andrew Roberts, Penguin
-The Third Reich AT War, de Richar S.Evans, allen lane
- Entrevistas de Nuremberga, Leon Goldensohn, tinta-da-china

Dia 22 pelas 18h30


Terça-feira, Outubro 20

Vencedores das piores capas de livros de sempre

Depois de uma concorrida participação para a eleição das 3 piores capas de livros de sempre da edição em Portugal, apresentamos aqui os vencedores:

- Em 1.º lugar com 201 votos O Falo Perdido, de Eurico Cebolo, edição de autor.

- Em 2.º lugar com 194 votos A Religiosa, de Denis Diderot, edição Europa-América

- Em 3.º lugar com 148 votos Exercícios de Estilo, de Luiz Pacheco, edição Editorial Estampa.


Nota: Agradecemos a todos os nossos leitores a participação e divulgação desta iniciativa.

O Mar em Casablanca

O novo romance de Francisco José Viegas, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2005, com a obra Longe de Manaus. O que une um cadáver encontrado nos bosques que rodeiam o belo Palace do Vidago e um homicídio no cenário deslumbrante do Douro? O que une ambos os crimes às recordações tumultuosas dos acontecimentos de Maio de 1977 em Angola? Jaime Ramos, o detective dos anteriores romances de Francisco José Viegas, regressa para uma nova investigação onde reencontra a sua própria biografia, as recordações do seu passado na guerra colonial - e uma personagem que o persegue como uma sombra, um português repartido por todos os continentes e cuja identidade se mistura com o da memória portuguesa do último século. História de uma melancolia e de uma perdição, O Mar em Casablanca retoma o modelo das histórias policiais para nos inquietar com uma das personagens mais emblemáticas do romance português de hoje.

Páginas: 240
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04287-3
Colecção: MARCA D'ÁGUA
Pvp: 15.50€

Segunda-feira, Outubro 19

Brainstorming de frases de incentivo à leitura

Criar uma boa frase publicitária não é uma tarefa fácil. Para que uma frase ou um slogan comunique com o público-alvo e atinja os efeitos desejados e não o contrário, como muitas vezes acontece, é necessário respeitar uma série de regras. Os publicitários alertam-nos para os perigos e dificuldades de aplicação dessas regras: «(...) elas são bem mais complexas do que à primeira vista podem parecer. A ideia que se tem de que, para resultar, basta uma frase conter um benefício-chave, ter um trocadilho ou ser de fácil memorização não é suficiente.» No entanto, apesar disso, as empresas, sobretudo as mais pequenas, caem facilmente na tentação de fazer estas coisas com a prata da casa. Numa empresa onde trabalhei, foi pedido a alguns funcionários, em jeito de brainstorming, que pensassem numa ou várias frases de incentivo à leitura, para depois algumas serem usadas em cartazes publicitários de livraria. As frases que se seguem são algumas das que resultaram desse brainstorming, tendo sido recusadas, por razões óbvias, pela gerência. Contudo, guardei-as por achá-las engraçadas e nonsense. Não resisto a publicá-las, agora devidamente organizadas por fonte de inspiração.


AS DOMÉSTICAS
«Se até a bruta da tua sogra lê...»
«Ou lês ou comes a sopa.»

AS DE ÍNDOLE SEXUAL
«Finalmente só! Eu e o meu livro.»
«À noite dói-lhe a cabeça?... Faça como ela, leia!»
«Tocas num livro, tocas num homem.»

AS DE SUPERIORIDADE INTELECTUAL
«Samos cada bêz menos anal-fabetos, ler acaba con nôs.»
«Os verdadeiros analfabetos são aqueles que não lêem.»
«Ler não evita a estupidez, mas disfarça-a muito.»

AS MISÓGINAS, HOMOFÓBICAS E MACHISTAS
«Não ler é coisa de gaja, deixa de ser larilas!»
«Uma mulher que não lê, não é uma mulher, é um homem.»
«Não pintes o teu cabelo loiro, lê!»

AS PSEUDO-FILOSÓFICAS
«Ler é um modo engenhoso de não pensar.»
«A leitura engrandece a alma e o corpo.»

AS POLÍTICAS OU JURÍDICAS
«Ler é um vício legal!»
«Em terra de cegos, quem lê é rei.»
«O povo que lê jamais será vencido.»

Jaime Bulhosa

Ricardo Araújo Pereira fala da sua colecção de literatura de humor

Interpretation of dreams

(clique nas imagens para aumentar)

Sexta-feira, Outubro 16

Os novos livreiros


O grupo Leya escolheu as estações de Sete Rios e de Santa Apolónia, em Lisboa, para instalar as suas primeiras máquinas de venda automática de livros da colecção BIS. Fomos saber como se têm comportado estes novos livreiros.

- Por favor, podia dizer-me se a tradução de A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoy, é feita directamente da língua russa?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- É a 1.ª edição?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- Já leu? E gostou?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- O livro é para oferta, podia embrulhar-mo?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

- Se a pessoa a quem eu vou oferecer o livro já tiver, posso trocar?

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.

-Ah, não responde! Então, queria o livro de reclamações, por favor.

- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.


Nota: Agora sem brincadeiras, até acho uma ideia engraçada.

Jaime Bulhosa

Entrevistas da Paris Review


Em meados dos anos cinquenta, um grupo de jovens intelectuais americanos criou uma revista chamada The paris Review. Os seus autores dificilmente terão tido a percepção de que estavam a fazer nascer uma abordagem nova à literatura e à arte da escrita e de que, por outro lado, se constituiria a partir dali o mais extraordinário arquivo do fascínio que uma entrevista literária pode alcançar.
Entre a entrevista a E.M. Foster, a primeira deste volume, e a entrevista a Jack Kerouac, a última, decorrem quinze anos. O tempo que corresponde a uma mudança social drástica que a literatura soube espelhar. E que estas peças também revelam por inteiro: do aprumo formal de Foster à conversa com anfetaminas em casa de Kerouac.
Sem a Paris Review, teríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges – para citar apenas três dos dez autores que estão neste livro – mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária no século xx.

E.M. Foster
Graham Greene
William Faulkner
Trumam Capote
Ernest Hemingway
Lawrence Durrell
Boris Pasternak
Saul Bellow
Jorge Luis Borges
Jack Kerouac

Edição: tinta-da-china
Selecção e Tradução: Carlos Vaz Marques
N.º de Pág. 343
Isbn:9789896710149
pvp:19.90€

Quinta-feira, Outubro 15

Entrada directa para o Top


Esta semana com apenas um post de sucesso (As piores capas de livros de sempre) o blogue da Pó dos livros entrou directamente para o Top dos blogues mais vistos do Blogómetro. É uma honra para nós colocar os livros no lugar onde eles realmente merecem estar e ter como companhia, de muito perto, blogues afamados como:

- Sexo Portugal
- Beijo na Boca
- Rosa Cueca
- Vídeos Eróticos
- A Maçã de Eva
E o não menos conhecido Irmão Lúcia.

Obrigado

Segunda-feira, Outubro 12

Escolha as 3 piores capas de livros de sempre em Portugal

A ideia partiu deste post com a eleição das 10 piores capas de sempre nos Estados Unidos. A Pó dos Livros propôs-se fazer o mesmo, mas com capas de livros editados em Portugal. Para a concretização desta eleição pedimos ajuda aos nossos leitores, para que nos enviassem imagens de capas de livros de acordo com os seguintes critérios:

1.º Mau gosto,
2.º Pior grafismo,
3.º Incongruência com o tema
4.º Um tiro ao lado em relação ao público-alvo.

Após três meses e algumas dezenas de capas enviadas, a Pó dos Livros seleccionou as 10 que considerou piores. Propomos-lhe agora que nos ajude a eleger as três piores de sempre, votando no inquérito, criado para o efeito, no canto superior direito do nosso blogue.

Nota: Esta eleição, pela dificuldade de recolha de imagens, não representa, de todo, o universo possível de capas que poderiam ter ido a concurso. Por isso, para quem não se sente representado nesta votação e de alguma forma se sente lesado por considerar ter conseguido fazer muito pior, pedimos desde já as nossas desculpas.

n.º1



n.º2

n.º3

n.º4

n.º5

n.º6


n.º7


n.º8


n.º9


n.º10

Sábado, Outubro 10

Que saudades do tempo em que um livro não era um artigo


- Está sim… é do serviço de apoio ao cliente da ****?
- É sim.
- Estou a ligar-vos porque tenho uma dúvida acerca do preço de um livro que acabei de receber.
- Qual o número de cliente?
- É o ****.
- Só um momento… Qual é número da factura?
- É o ****.
- Só um momento… Qual é o artigo?
- O título do livro é ****.
- Não! Diga-me antes o número do artigo?
-O Isbn do livro?
-Sim.
- É o ***.
- Só mais um momento… O artigo em causa é o último da factura?
- É sim.
- Diga-me então, por favor, o que é que se passa de errado com este artigo?
- Com o livro, quer você dizer?...
- Sim… com o artigo!
- Bem, passemos adiante… O que se passa é que acabo de receber um livro que está facturado com o preço de 4.75 euros, o que me parece uma impossibilidade, tendo em conta que é uma novidade, 1.ª edição e ainda para mais tratando-se de uma tradução.
Evidentemente do outro lado os termos: “novidade”, “1.ª edição” e “tradução” não têm qualquer significado.
- Não estou a perceber qual o problema com este artigo, não é esse o preço que está na factura?
- Sim!?...
- Então qual é o problema?
- O problema é exactamente esse… Fui confirmar o preço do livro e verifiquei que existe um engano, da vossa parte, a nosso favor. O preço correcto do livro é de 13 euros.
- Ah!... Como é que sabe o preço deste artigo?
Obviamente estamos a falar com um(a) funcionário(a) de telemarketing que para além de não estar familiarizado(a) com a linguagem dos seus clientes, nunca ouviu falar na Internet.
- Fui ver na Internet.
- Talvez seja melhor eu verificar?
- Se calhar é melhor.

Até hoje a factura não foi corrigida, fazendo com que a honestidade da minha colega não tenha servido para nada. Felizmente desta vez quem ganhou fomos nós.

Nota: Não divulgo o nome do(a) funcionário(a), porque não me parece ser o(a) principal culpado(a), nem o nome da empresa por razões óbvias.
-
Jaime Bulhosa

Sexta-feira, Outubro 9

A sabedoria


«A sabedoria encontra-se nos grandes livros e está à venda no mercado aberto, onde ninguém os quer comprar. »

Livreiro anónimo a partir de uma frase de William Blake

Dirigismo cultural


No outro dia reparei que o meu filho do meio lia um livro que me pareceu estranho - era qualquer coisa asiática ou ligada à manga. Perguntei-lhe se estava a ler manga, ao que ele me respondeu:
– Mais ou menos, mas é bastante mais à frente.
Imediatamente e com um ar reprovador, disse-lhe:
- Com tanta coisa boa cá em casa para leres…
Sem me deixar acabar, respondeu:
- Não fazes ideia do que é isto, pois não, pai?
A resposta fez-me pensar se eu não estaria a ser ignorante na forma de dirigir as leituras do meu filho. Lembrei-me desta história:

Entra uma senhora que vem com uma missão específica.
- A minha filha está fora do país e pediu-me que lhe levasse esta lista de livros. Diz ela que fazem parte de uma colecção de clássicos gregos.
- Com certeza, minha senhora, só um momento... Aqui tem: Ilíada e a Odisseia, de Homero, a Apologia de Sócrates, de Platão, e a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Todos os títulos que a sua filha pediu.
Após uns minutos de espera:
- Sabe, estive a dar-lhes uma vista de olhos e verifiquei que estes livros são todos mais velhos do que Cristo. Estou a pensar em fazer-lhe uma surpresa, coitadinha... Olhe, em vez destes vou levar-lhe dos de agora, que são tão bonitos.


Jaime Bulhosa

Quem ama, odeia


Quando o doutor Humberto Huberman chega a um afastado hotel de Bosque del Mar para um merecido repouso, está longe, muito longe, de imaginar o que o aguarda. Em vez da desejada deliciosa e fecunda solidão que procura, vê-se envolvido nas complexas e estranhas relações que os hóspedes do hotel foram gradualmente urdindo e assiste, intrigado e perplexo, ao assassinato de um hóspede e ao desaparecimento de outro.Isolados durante quatro dias por uma tempestade de vento e areia e sob a ameaça dos caranguejos do sapal e do mar, as já muito frágeis relações entre as personagens vão piorando. A novela transforma-se então numa fascinante viagem pelo mundo das paixões, do amor, da inveja, da vingança e do ódio, ganhando, então, o carácter das personalidades extrema importância: os fantasmas e os desejos de cada um, esses mundos imaginários e recônditos, integram o mistério que se irá revelando ao longo da obra.Narrativa de grande subtileza, escrita sem mácula e extremamente fascinante, Quem Ama, Odeia é uma obra obrigatória em qualquer biblioteca.

Edição: Oficina do Livro
Tradução: Jorge Fallorca
N.ºpág: 154
Isbn:9789895554737
Pvp: 12.00€

lançamento Caderno Afegão

(clique na imagem para aumentar)

Quinta-feira, Outubro 8

O Pantagruel já era

É de alguma forma contrariado que divulgo este novo e excelente serviço gastronómico do chef Frederico Carvalho (já tinha falado nele, mas de outra forma, aqui), porque há coisas que gostamos de guardar só para nós, como se fossem um segredo que de vez em quando partilhamos apenas com alguém muito especial. Mas, para além de meu amigo, ele é tão bom cozinheiro que eu não podia deixar de o fazer. Não abusem e deixem um bocadinho para mim.

Jaime Bulhosa

E o vencedor é...

2009 - Herta Müller

Obras traduzidas:
O Homem é um Grande Faisão, Cotovia
A Terra das Ameixas Verdes, Difel

2008 – Le clézio
2007 – Doris Lessing

2006 – Orhan Pamuk
2005 – Harold Pinter
2004 – Elfriede Jelinek
2003 – J. M. Coetzee
2002 – Imre Kertész
2001 – V. S. Naipaul
2000 – Gao Xingjian
1999 – Günter Grass
1998 – José Saramago
1997 – Dario Fo
1996 – Wislawa Szymborska
1995 – Seamus Heaney
1994 – Kenzaburo Oe
1993 – Toni Morrison
1992 – Derek Walcott
1991 – Nadine Gordimer
1990 – Octavio Paz
1989 – Camilo José Cela
1988 – Naguib Mahfouz
1987 – Joseph Brodsky
1986 – Wole Soyinka
1985 – Claude Simon
1984 – Jaroslav Seifert
1983 – William Golding
1982 – Gabriel García Márquez
1981 – Elias Canetti
1980 – Czeslaw Milosz
1979 – Odysseus Elytis
1978 – Isaac Bashevis Singer
1977 – Vicente Aleixandre
1976 – Saul Bellow
1975 – Eugenio Montale
1974 – Eyvind Johnson, Harry Martinson
1973 – Patrick White
1972 – Heinrich Böll
1971 – Pablo Neruda
1970 – Alexandr Solzhenitsyn
1969 – Samuel Beckett
1968 – Yasunari Kawabata
1967 – Miguel Angel Asturias
1966 – Shmuel Agnon, Nelly Sachs
1965 – Mikhail Sholokhov
1964 – Jean-Paul Sartre
1963 – Giorgos Seferis
1962 – John Steinbeck
1961 – Ivo Andric
1960 – Saint-John Perse
1959 – Salvatore Quasimodo
1958 – Boris Pasternak
1957 – Albert Camus
1956 – Juan Ramón Jiménez
1955 – Halldór Laxness
1954 – Ernest Hemingway
1953 – Winston Churchill
1952 – François Mauriac
1951 – Pär Lagerkvist
1950 – Bertrand Russell
1949 – William Faulkner
1948 – T.S. Eliot
1947 – André Gide
1946 – Hermann Hesse
1945 – Gabriela Mistral
1944 – Johannes V. Jensen
1939 – Frans Eemil Sillanpää
1938 – Pearl Buck
1937 – Roger Martin du Gard
1936 – Eugene O’Neill
1934 – Luigi Pirandello
1933 – Ivan Bunin
1932 – John Galsworthy
1931 – Erik Axel Karlfeldt
1930 – Sinclair Lewis
1929 – Thomas Mann
1928 – Sigrid Undset
1927 – Henri Bergson
1926 – Grazia Deledda
1925 – George Bernard Shaw
1924 – Wladyslaw Reymont
1923 – William Butler Yeats
1922 – Jacinto Benavente
1921 – Anatole France
1920 – Knut Hamsun
1919 – Carl Spitteler
1917 – Karl Gjellerup, Henrik Pontoppidan
1916 – Verner von Heidenstam
1915 – Romain Rolland
1913 – Rabindranath Tagore
1912 – Gerhart Hauptmann
1911 – Maurice Maeterlinck
1910 – Paul Heyse
1909 – Selma Lagerlöf
1908 – Rudolf Eucken
1907 – Rudyard Kipling
1906 – Giosuè Carducci
1905 – Henryk Sienkiewicz
1904 – Frédéric Mistral, José Echegaray
1903 – Bjørnstjerne Bjørnson
1902 – Theodor Mommsen
1901 – Sully Prudhomme

É hoje

(clique sobre a imagem para ampliar)

Quarta-feira, Outubro 7

Morriñas


Peguei num livro com mais de trinta anos, desses que temos nas estantes de casa e nunca lhes tocamos, nem sequer sabemos que os temos ou então, se sabemos, não lhes prestamos atenção. O livro tem como título La Guerra Civil Española 1936/1939. Abri-o e reparei que tinha uma dedicatória. Era uma dedicatória do meu pai, escrita para mim no ano de 1979. Tinha eu apenas quinze anos. O meu pai tinha por hábito escrever dedicatórias sem que necessariamente depois as desse a ler ou oferecesse o livro de imediato. Dizia que era uma forma de ir fazendo partilhas sem querelas daquilo que tinha para deixar com maior valor. Eu desconfio de que era uma forma de relatar a sua vida, espalhada por muitos livros, devidamente contextualizados, e que como um puzzle espera ser reconstruída. A dedicatória dizia mais ou menos isto, digo mais ou menos, porque a letra do meu pai é difícil de decifrar:

«Para o meu filho Jaime Manuel, na esperança de que um dia leias a história de uma das guerras mais sangrentas, sem sentido e perpetradas entre irmãos: a Guerra Civil de Espanha. Para ti esta guerra é longínqua e faz parte do passado, mas para mim ela foi determinante no rumo da minha vida. Conto-te um pequeno episódio que me liga a ela, muitas outras histórias na família haveria para contar. Como sabes, fui criado sozinho pela minha avó materna, entre os anos de 1923 e 1936, numa aldeia que dá pelo nome de Pousa. Enquanto criança, gosto de dizer: fui pastor de vacas nas montanhas onde havia lobos e cavalos selvagens, lá onde nasce a cordilheira Cantábrica, numa província de Espanha chamada Galiza. A minha terra era uma terra muito pobre e mais ficou depois da guerra civil. Muito por culpa de um homem que se esqueceu da sua terra. - Já deves ter ouvido falar, chamado Francisco Franco. - Sou de um lugar de onde os homens partem e as mulheres sentem morriñas*.
Em 1936, com o início da guerra civil, contrariado e a mando dos meus pais, imigrados em Portugal, com apenas treze anos de idade, fugi da guerra e viajei sozinho para Lisboa. Viagem que nunca mais esqueci e que naquele tempo levava uma eternidade a fazer-se. Cheguei a esta cidade de Lisboa, que passou a ser a minha cidade, quando se deu um dos momentos mais marcantes que alguém pode viver. Conhecer seu pai e sua mãe em carne e osso. Não penses que os meus pais não queriam saber de mim, como eu também cheguei a pensar. Naquele tempo era assim, e a muitos outros como eu, devido à extrema pobreza, aconteceu-lhes o mesmo. Só depois de dois longos anos consegui voltar à minha terra, apesar dos avisos dos meus pais para não o fazer, pois estávamos em plena guerra civil e seria perigoso. Mas eu não aguentava de saudades da minha avó e, sem ouvir ninguém, parti. Acto que me valeu um dos maiores sustos da minha vida. Com apenas quinze anos de idade, fui compulsivamente alistado nas fileiras nacionalistas do Generalíssimo Franco. Felizmente para mim e para ti, consegui fugir antes de ser integrado, numa madrugada nos finais de Agosto de 1938, com a ajuda de alguns portugueses, amigos de meu pai, que se dedicavam ao contrabando. Passei a fronteira de noite, pelo Rio Minho, num pequeno bote, perto de uma terra chamada Troporiz. Depois de alguns quilómetros a pé, montámos a cavalo e dirigimo-nos para Valença do Minho. De lá apanhei o comboio e só parei quando cheguei são e salvo a Lisboa. Não voltei a viver na minha terra, como é sonho de tantos imigrantes.

Do teu pai com todo o carinho,

Gonzalo Bulhosa»

De pastor de uma aldeia galega a editor em Lisboa, o meu pai, nacionalista galego, morreu num estúpido acidente em 1990, com apenas sessenta e sete anos de idade. Encontra-se sepultado, como era de sua vontade, na sua terra, a Galiza.

*Morriñas: Palavra galega que significa «saudades» e que, ao contrário do que é hábito dizer-se, não existe apenas na língua portuguesa.

Terça-feira, Outubro 6

Ricardo Araújo Pereira fala da sua colecção de literatura de humor

Aqui temos o vídeo de apresentação da nova colecção de literatura de humor dirigida por RAP para a tinta-da-china.

Na hora de virar a última página

«Tal como na vida, em relação a um bom livro, na hora de virar a última página, é indiferente que se tenha lido mil ou apenas uma. É sempre escasso.»

Livreiro anónimo, a partir de uma frase de Voltaire

Sexta-feira, Outubro 2

Já chegaram as obras de arte, perdão literárias


Os Cadernos de Pickwick
«Antes de mais, deve registar-se o primeiro adjectivo que qualifica o Sr. Pickwick: imortal. Segundo nos diz o título completo do livro, os papéis que documentam a sua vida são póstumos – mas, o que é curioso, ele é imortal logo desde a primeira linha. Dickens está, claro, a ser irónico, mas a ironia contida naquele "imortal" dura apenas umas dezenas de páginas – e de dias: muito rapidamente, o Sr. Pickwick tornou-se imortal a sério, quer no livro, quer fora dele. "Os Cadernos de Pickwick" foram publicados em fascículos entre 1836 e 1837. Em Outubro de 1837, o crítico da "Quarterly Review" registava que "menos de seis meses após a publicação do primeiro número, todo o público leitor falava" das aventuras do Sr. Pickwick. Sobretudo depois do aparecimento de Sam Weller na narrativa, as vendas dos fascículos dispararam, deram origem a "merchandising" (polainas Pickwick, bengalas Pickwick, chapéus Pickwick, charutos Pickwick) e à formação de clubes Pickwick (que ainda hoje existem) em que cada membro adoptava o nome de uma das personagens do romance. Um leitor rebentou um vaso sanguíneo, de tanto rir, e os amigos lamentaram a sua sorte quando o médico o proibiu de prosseguir a leitura. Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, o ouviu suspirar: "Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Cadernos de Pickwick, graças a Deus." (...) "Os Cadernos de Pickwick" são, então, um romance heterogéneo a ponto de não ser considerado um romance, povoado de personagens que, apesar de tudo, não são exactamente personagens. À primeira vista, trata-se de uma escolha pouco feliz para inaugurar uma colecção de literatura de humor. No entanto, "Os Cadernos de Pickwick" foram e são um clássico instantâneo, uma referência na comédia de situação, de linguagem e de personagem, cuja influência se percebe em obras de todos os tipos – não apenas nas estritamente humorísticas. É um livro inocente sobre a inocência, em que tanto o protagonista como o autor vão, a pouco e pouco, deixando de ser inocentes. O eterno Sr. Pickwick, que começa por ser um pateta pomposo e ridículo, é, no final do livro, um homem bondoso e puro – e, no entanto, temos a sensação de que não foi ele quem mudou. As personagens mudam pouco ou nada, ao longo do romance (o Sr. Pickwick continua a ser um ingénuo bem-intencionado, o Sr. Snodgrass um péssimo poeta, o Sr. Winkle um desportista desastrado, o Sr. Tupman um pinga-amor celibatário), mas o autor e o leitor mudam. O sarcasmo de Dickens, e o nosso, transforma-se em admiração, embora o Sr. Pickwick se mantenha igual – como os deuses. Como diz Chesterton, "Dickens não escreveu exactamente literatura; escreveu mitologia".»

Ricardo Araújo Pereira, «Prefácio»

tema: Literatura de Humor,Ficção Humor
tradução: Margarida Vale de Gato
ilustração: Robert Seymour e Hablot Knight Browne
prefácio: Ricardo Araújo Pereira
coordenação: Ricardo Araújo Pereira
1.ª edição: Setembro de 2009
n.º de páginas: 936
formato: 14x21 cm
isbn: 9789796710095
pvp: 32.9 euros

Jacques o Fatalista
«(...) Que é que impede a estabilização da verdade? Acima de tudo, o prazer de falar. Esse prazer pode ser uma verdadeira paixão. E tem uma característica – não olha a obstáculos: “Não há gente que mais goste de falar que os gagos, não há gente que mais goste de andar que os coxos.” Falar, conversar. Porque a conversa tem uma característica absolutamente extraordinária: ao mesmo tempo que reúne tudo, dispersa tudo. A conversa dispara em todas as direcções, a gente atravessa-a com o fio de uma ideia, mas a ideia vai-se disseminando no decurso da travessia. E a dada altura, como se explica logo nas primeiras linhas deste livro, ninguém sabe para onde vai nem donde vem, nem em que ponto é que está. (...) Trata-se de amar as palavras naquilo que elas têm de desajustamento em relação à realidade, e de compreender que essa realidade se transforma à medida que nós usamos as palavras em configurações diferentes. Trata-se de perceber que as palavras não servem apenas para referenciar a realidade, mas também, e sobretudo, para gerir distâncias (é essa a verdadeira definição da retórica) e para aproximar ou afastar as pessoas. Trata-se ainda de não pretender privilegiar apenas o que é útil, mas de ver até que ponto o inútil é tão útil como o útil (ou, se preferirem, o útil é tão inútil como o inútil). E é tudo isto que nos prende apaixonadamente à longa digressão que é este livro. Sentido de perder tempo, evidentemente. Mas sentido também de ir ao encontro do prazer do tempo perdido. (...) Em “Jacques, o Fatalista”, Diderot fala, conversa, dança com as palavras, traça figuras de uma coreografia arrebatadora. Diderot não nos deixa repousar um minuto: as personagens saltam, desaparecem, morrem, amam, enganam-se, agridem, ressuscitam, e tudo se processa numa agilidade e desenvoltura absolutamente surpreendentes. (...) O essencial não está, portanto, na estabilização, mas num valor precisamente oposto: na velocidade com que o jogo continua a ser jogado.»

Eduardo Prado Coelho, «Prefácio»
tema: Literatura de Humor, Ficção Humor
tradução: Pedro Tamen
prefácio: Eduardo Prado Coelho
coordenação: Ricardo Araújo Pereira
1.ª edição: Setembro de 2009
n.º de páginas: 296
formato: 14x21 cm
isbn: 9789896710101
pvp: 19.9 euros

Aprende-se mais com 1 destes que 10 dos outros


- Dom Casmurro, de Machado de Assis
- Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski
- Pastoral Americana, de Philip Roth
- A Corja, de Camilo Castelo Branco
- O Estrangeiro, Albert Camus
- 2666, de Roberto Bolaño
- A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares
- A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis
- Zadig ou do Destino, Voltaire
- O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima

Nota: Para além de todas as outras vantagens evidentes, a leitura destes 10 livros em vez de 100 dos outros representa uma poupança na ordem dos 1350 euros e evita muitos meses de tempo perdido.

Débora Figueiredo, Carlos Loureiro, Jaime Bulhosa

A Sombra do Que Fomos


Luis Sepúlveda regressa ao romance com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores. Num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile, três sexagenários esperam impacientes pela chegada de um quarto homem. Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia, antigos militantes de esquerda derrotados pelo golpe de estado de Pinochet e condenados ao exílio, voltam a reunir-se trinta e cinco anos depois, convocados por Pedro Nolasco, um antigo camarada sob cujas ordens vão executar uma arrojada acção revolucionária. Mas quando Nolasco se dirige para o local do encontro é vítima de um golpe cego do destino e morre atingido por um gira-discos que insolitamente é lançado por uma janela, na sequência de uma desavença conjugal.

Prémio Primavera de Romance 2009, A Sombra do que Fomos é um virtuoso exercício literário posto ao serviço de uma história carregada de memórias do exílio, de sonhos desfeitos e de ideais destruídos. Um romance escrito com o coração e o estômago, que comove o leitor, lhe arranca sorrisos e até gargalhadas, levando-o no fim a uma reflexão profunda sobre a vida.


Edição: Porto editora
Autor: Luis Sepúlveda
Tradução: Helena Pitta
N.º Pág. 159
Isbn: 9789720040763
Pvp: 14.40€

Quinta-feira, Outubro 1

Os Dias de Saturno


No dia 7 de Novembro de 1699, reúnem-se no Convento de Cristo dois grandes amigos alquimistas: Domingos Rodrigues, cozinheiro do rei D. Pedro II e autor do primeiro livro de cozinha publicado em Portugal; e o médico da Casa Real João Curvo Semedo, um dos mais conceituados do seu tempo. Ambos vêm para assistir do terraço do convento a um eclipse do Sol — fenómeno misterioso que dificilmente voltarão a presenciar durante as suas vidas. Na tarde desse mesmo dia, nas cercanias da vila de Tomar, a escuridão que se abate de repente sobre o mundo precipitará o parto de uma jovem a caminho de casa, cujo filho nasce com uma estranha marca no peito, vista imediatamente como castigo divino e maldição eterna. Mas será, curiosamente, esse sinal raro que aproximará a vida do recém-nascido da dos dois alquimistas e coserá para sempre os seus destinos. Mesmo que o rapaz só o venha a saber muitos anos depois. Quiçá tarde de mais. Passado numa época de grandes transformações sociais, fausto, riqueza e avanço científico e intelectual, Os Dias de Saturno – do autor do aplaudido A Demanda de D. Fuas Bragatela – é um romance fascinante sobre o amor e a sua impossibilidade, com doses iguais de humor e dramatismo, escrito numa linguagem que torna a sua leitura irresistível. A não perder.


PAULO MOREIRAS nasceu em 1969 em Lourenço Marques, Moçambique. Veio para Portugal em 1974. Viveu em Finzes (Cinfães), Laranjeiro (Almada) e vive actualmente em Meirinhas (Pombal). Desejou fazer cinema de animação e enamorou-se pela banda desenhada. Após algumas experiências com fanzines, começou a publicar poesia em edições artesanais. Apaixonou-se pela literatura picaresca e publicou o seu primeiro romance A Demanda de D. Fuas Bragatela (2002), seguindo-se um livro de poesia Do Obscuro Ofício (2004) e o Elogio da Ginja (2006). Entre outras coisas, escreveu também o BI da Cereja e da Ginja (2007), o BI do Palito (2007) e o BI do Tremoço (2008).

Nota: O lançamento de Os Dias de Saturno, realizar-se-á na Pó dos Livros dia 22 de Outubro pelas 18h30. A apresentação de Maria Lúcia Lepecki.

Edição: QuidNovi
Autor: Paulo Moreiras
N.º Pág. 208
Isbn: 9789896281502
Pvp: 14.95€

Quarta-feira, Setembro 30

O sentido de todas as coisas


Para os jovens que procuram entender o mundo que os rodeia e buscam sabedoria, conhecimento ou, em resumo, o sentido de todas as coisas, uma das melhores maneiras de o poderem fazer é através da leitura. Ora, aqui começa a dúvida: ler o quê? Há quem afirme, como Italo Calvino ou Harold Bloom, entre outros, que devemos ler «os livros de onde vêm todos os outros livros» (pelo menos os da cultura ocidental). Isto é, os livros de sempre. Alguns dos nomes citados são os seguintes: Homero, Virgílio, Ovídio, Platão, Santo Agostinho, Dante, Chaucer, Camões, Shakespeare, Milton, Voltaire, Pascal, Racine, Dickens, Flaubert, Twain, Goethe, Tolstoi, Kafka, Borges, etc.
Esta ideia só tem um problema: rapidamente vamos constatar que, para entendermos na totalidade alguns dos livros que estes senhores escreveram, vamos ter de ler coisas que se escreveram sobre eles e, depois disso, relê-los. Meu Deus, mas isso leva uma vida inteira!, exclamamos nós. Ninguém disse que era fácil a demanda do sentido de todas as coisas. Como disse Calvino: «Não se lêem os clássicos por dever ou por respeito, mas só por amor. Salvo na escola.» Acrescento que não devemos tentar lê-los a todos, porque como, disse um dia um filósofo, «toda a experiência humana é um imenso livro do qual apenas temos tempo de ler alguns capítulos».
Perante isto, pensamos nós, bom mesmo, para nos facilitar a vida, era alguém ter sido capaz de escrever um livro possível de ler e onde estivesse escrito o sentido de todas a coisas. Houve até em tempos alguém que o fez - não, não é a Bíblia. Esta história está descrita num texto de Voltaire chamado Micromegas (vale a pena ler, até porque a dimensão da obra não é grande e, no entanto, o seu conteúdo é imenso). Este livro relata-nos a história de «um jovem de espírito de oito léguas de altura: entenda-se, por oito léguas, vinte mil passos geométricos de cinco pés cada um, que vivia num desses planetas que giram em volta da estrela de Sírio» e que, por mero acaso, veio parar ao minúsculo planeta Terra. Depois de algumas reflexões e muitas peripécias, que poderão apreciar quando lerem o livro, o jovem de espírito e de sabedoria gigante propôs-se escrever um livro em letra muito miúda, de maneira que os seres microscópicos chamados homens pudessem lê-lo, e onde estaria contido o sentido de todas as coisas. Este texto seria escrito para oferecer àqueles homens da Terra que achavam que sabiam o segredo de tudo e que tudo era feito unicamente para o homem. Feito isto, o livro O Sentido de Todas as Coisas foi levado como um tesouro para ser aberto apenas pelo secretário da Academia das Ciências de Paris. Qual não foi a surpresa quando este o abriu e viu apenas um livro em branco. «Ah! Bem que eu desconfiava…», disse ele.


Jaime Bulhosa

Indignação


Indignação é o vigésimo sétimo livro de Philip Roth, conta a história da educação do jovem Marcus Messner nas circunstâncias assustadoras e nas obstruções anómalas que a vida acarreta. É uma história de inexperiência, loucura, resistência intelectual, descoberta sexual, coragem e erro contada com toda a energia criativa e todo o engenho de que Roth é possuidor. É simultaneamente uma ruptura inesperada com as narrativas obsidiantes da velhice e suas experiências que são os seus livros mais recentes e um poderoso aditamento às investigações do autor sobre o impacto da história da América na vida do indivíduo vulnerável.
Edição: Dom Quixote
Autor: Philip Roth
Tradução: Francisco Agarez
Isbn:9789722038232
Pvp: 16.50€

Terça-feira, Setembro 29

Bestsellers religiosos


Bestsellers religiosos (livros onde figuram Cristo ou os seus apóstolos) têm estado, intermitentemente, no top de vendas dos Estados Unidos e alguns países da Europa, mas nunca no Irão, vá-se lá saber porquê.

Bem Hur (1880), Lew Wallace
Quo Vadis (1896), Henryk Sienkiewicz
In His Steps (1897), Charles M. Sheldon
The Big Fisherman (1942), Lloyd C. Douglas
The Robe (1943), Lloyd C. Douglas
Kingdom Come (2007), Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins

Os Meus Livros


A revista Os Meus Livros já está na blogosfera. A partir de agora, o Guia da Leitura marca também presença em http://oml.com.pt/blogs/

Na perspectiva do livreiro

Felizmente sou pai de três rapazes e muito provavelmente este livro não me aparecerá em casa. Mesmo que aparecesse, não seria morte de homem...
A Professora de Piano, de Janice Y.K. Lee, que eu não faço ideia de quem seja (pode até ser um pseudónimo de um escritor ou escritora famosa que necessita como os outros de vender para viver), é a última novidade da chancela Livros D’Hoje. Não vou tecer críticas à obra em causa, porque não a consigo ler, uma vez que o livro se encontra selado e, como se costuma dizer, «gostos não se discutem». Acontece que este livro vem envolto num plástico transparente que guarda uma preciosa oferta, uma flor para o cabelo (com ganchinho e tudo), como anuncia bem explícito um autocolante cor-de-rosa colado no dito plástico. Sob a perspectiva de livreiro, este tipo de produto de marketing (produto que se vende por todos os motivos e mais alguns excepto pela sua verdadeira finalidade) é óptimo, a não ser pelo facto de não o podermos aconselhar aos nossos clientes, uma vez que não o podemos folhear. Também não dá muito jeito para o expor nas mesas, porque a bem-dita flor não permite o seu empilhamento. Pouco mais posso dizer sobre este romance, salvo aquilo que o texto da contracapa permite deduzir: «Will Truesdale, um inglês recém-chegado a Hong Kong, mergulha numa relação apaixonada com Trudy Liang, uma bela socialite euro-asiática [tal e qual como a rapariga da capa].» Para quem tem filhas adolescentes: já sabe como pode conseguir uma flor de plástico para o cabelo por apenas 13.99 €.
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Jaime Bulhosa

Segunda-feira, Setembro 28

Lançamento


O Poder da Música


Daniel Barenboim descreve de forma luminosa e vibrante uma vida dedicada à busca do conhecimento e da compreensão não apenas da música e da vida mas de uma atrvés da outra.
A orquestra do Divã Ocidental-Oriental, um dos projectos mais aclamados e inovadores de Barenboim, é um testemunho eloquente do poder que a música pode exercer sobre as nossas vidas. E revela de que modo a compreensão e a prática da música entre os jovens israelitas, palestinianos e árabes de outros países, no âmbito da orquestra, pode contribuir para fomentar a interdependência entre eles e, em última análise, para promover a paz entre todos os seres humanos.
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«Este livro não é para músicos nem para não músicos; é para espíritos curiosos que tenham o desejo de descobrir os paralelos entre a música e a vida [...] O poder da música assenta na sua capacidade de falar a todos os aspectos do ser humano. em suma, a música ensina-nos que está tudo ligado.»
Daniel Barenboim
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Título: Está tudo Ligado
Autor: Daniel Barenboim
Tradução: Francisco Agarez
Revisão: Sandra Pereira
Ediçâo: Bizâncio, 2009
ISBN:9789725304341
PVP: 15,00€
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Daniel Barenboim nasceu em Buenos Aires em 1942; em 1952, mudou-se com a família para Israel. Debutou como pianista aos 7 anos e desde então tem tocado com, e dirigido, as principais orquestras do mundo.(...)
Tem sido distinguido em todo o mundo pelo seu trabalho em prol da paz no Médio Oriente. Em 1999, com o intelectual e académico palestiniano Edward Said, fundou a orquestra do Divã Ocidental-Oriental, que reúne jovens músicos de Israel e de países árabes, com o objectivo de fomentar o diálogo entre as várias culturas do Médio Oriente. em 2007, foi nomeado mensageiro da paz da ONU e recebeu a medalha de ouro da Royal Philhamonic Society, um dos galardões mais prestigiados da música clássica. (...)

Sexta-feira, Setembro 25

Finalmente depois de esperar 2666 dias


O mais longo poema


Parcelles D’espoir à L’echo de Ce Monde é supostamente o mais longo poema manuscrito moderno do mundo. Iniciado a 4 de Agosto de 2006, pelo seu autor o notário público francês Patrick Huet. É composto por 7547 versos e tem quase 1 km de comprimento, mais precisamente 994,1m. O poema assume a forma de um acróstico em que a iniciais de cada linha colectivamente formam os 30 artigos da Declaração dos Direitos do Homem de 1948.

Capítulos Soltos

Abriu uma nova livraria independente a Capítulos Soltos. Se viver em Braga ou passar por lá não esqueça de lhes fazer uma visita. Podem saber mais e ver fotografias da loja aqui.

Boa sorte.

Quinta-feira, Setembro 24

Borboletras


Chegaram finalmente os livros da colecção Borboletras da Caminho.
Esvoaçaram um bocadinho em frente à montra e lá resolveram entrar. Nós gostámos de os receber e agora passeiam escada acima, escada abaixo entre as estantes do infantil e a montra. O Aldo e a menina andam atrás das catatuas do Professor Baltazar, o Pinguim e o ursinho quase que adormeceram a contar peixes coloridos do "Viva O peixinho!" e a Handa foi com o bebé apanhar mais frutas para encher o cesto.
Entretanto e como as "borboletras" não são de grandes segredos, já nos contaram que vêm mais a caminho da Pó dos livros. Cá as esperamos.


Débora Figueiredo

No domingo vou votar, só não sei em que círculo



A Divina Comédia («Comédia» não porque tenha qualquer tipo de graça, mas porque termina bem, no Paraíso, e naquela época o termo usava-se em oposição à Tragédia) de Dante Alighieri é constituída por três partes: «O Inferno», «O Purgatório» e «O Paraíso». Deixemos as últimas duas partes e centremo-nos na primeira: O Inferno de Dante é constituído por Nove Círculos, onde se encontram Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas. Essa organização foi baseada na teoria medieval de que o universo é formado por círculos concêntricos. Dante descreve-nos o Inferno como um cone invertido, localizado no interior da Terra. Os seus nove círculos estão dispostos uns sobre os outros de acordo com uma hierarquia de pecados, onde no início se encontram os pecadores menos graves e no fim, ou cada vez mais nas profundezas da terra, os pecadores mais graves. À medida que o poeta Virgílio acompanha Dante na descida pelos infernos, desde o primeiro círculo, O Limbo (círculo onde se encontram aqueles que nasceram antes de Cristo e os que não foram baptizados e que não são propriamente pecadores, mas também não podem ir para o Céu, pois não tiveram fé em Cristo), até ao nono e último círculo, onde se encontra Lúcifer; nós, leitores, vamos tomando consciência da diversidade e gravidade dos pecados e pecadores possíveis de encontrar.
O que é que isto tem que ver com o facto de eu ir votar no próximo domingo: nada, até porque não acredito no inferno de Dante. Contudo, não pude deixar de fazer algumas associações entre as almas condenadas de Dante e os nossos políticos do passado e do presente. Pondo de parte qualquer hipótese de eles poderem concorrer pelo Purgatório e muito menos pelo Paraíso, concluo que no domingo vou votar para um círculo do Inferno. Qual? Isso eu não sei.

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Jaime Bulhosa

O Relatório de Brodeck


De regresso à sua aldeia, Brodeck retoma o seu antigo trabalho de escrivão. Um dia, um estrangeiro vai viver para a povoação, mas os seus modos e hábitos estranhos levantam suspeitas; o seu discurso é formal, faz longas e solitárias caminhadas e, apesar de ser extremamente cordial e educado, nada revela sobre si próprio. Quando o estrangeiro começa a retratar a aldeia e os seus habitantes em quadros pouco lisonjeiros mas perspicazes, os aldeãos matam-no. As autoridades, que assistiram impávidas ao linchamento, ordenam a Brodeck que escreva um relatório que branqueie o incidente. À medida que escreve o relatório oficial, Brodeck passa também para o papel a sua própria versão da verdade numa narrativa paralela. Numa prova ponderada e evocativa, ele entrelaça a história do estrangeiro na sua própria e dolorosa história e nos segredos sombrios que os habitantes da aldeia cuidadosamente escondem. Passado num tempo e lugar não definidos, O Relatório de Brodeck mistura o familiar com o desconhecido, mito e história, num romance poderoso e inesquecível.
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Edição: ASA
Autor: Philippe Claudel
Tradução: Isabel ST. Aubyn
N.ºPág. 255
Isbn:9789892305783
Pvp: 14.50€

Quarta-feira, Setembro 23

Faz o que eu te digo, não faças o que eu faço.



Dez regras essenciais para ser um livreiro de sucesso:

1– Que as tuas despesas não sejam superiores a 15% das receitas.
2- Não tentes orientar a leitura dos teus clientes, deixa andar.
3- Quem compra um livro, compra dois.
4– Os bons livros são aqueles que se vendem.
5– Os livros devem apenas ser folheados e não lidos. Todo o conhecimento estorva a missão essencial da vida que é ganhar dinheiro.
6- Nunca contes o enredo de um livro a um cliente ou perdes uma venda.
7- Quando quiseres afastar alguém empresta-lhe dinheiro ou aconselha-lhe um bom livro
8- Não fies aos escritores e aos outros também não.
9– Um livro fica sempre bem em qualquer móvel.
10- Aos ladrões e aos santos todos os temas lhes interessam.


Héctor Yánover em Memorias de un Librero

Em tempo de eleições


- Queria um livro de Kafka?

- Qual é o título que deseja?

- Pode ser um qualquer, é só para perceber porque é que dizem que este país é Kafkiano.

Os Gropes

Desde a sua fundação no século XII por Awgard, o Pálido, um viking não excessivamente viril, o clã dos Gropes viveu governado, com proveito e mão de ferro, pelas mulheres. E eis que no início do terceiro milénio tudo muda, numa história sangrenta que envolve dinamite numa velha mina, matadouros faça-você-mesmo, vendedores dúbios de carros semi-novos, uma viagem de Londres a Barcelona via Riga, na Letónia, uma mãe particularmente extremosa, touros, porcos e até mesmo um Doppelganger…


Edição: Teorema
Autor: Tom Sharpe
Tradução:Luís Ruivo domingos
N.ºPág. 219
Isbn:9789726958727
Pvp:15.00€

Terça-feira, Setembro 22

Como é que passaste dos quarenta sem ter lido?...

Sou capaz de nomear, sem qualquer tipo de ajuda, centenas de nomes de livros importantes do século vinte. Do século dezanove, provavelmente, algumas dezenas. Do século dezoito, a coisa começa a ficar mais difícil e, assim de repente, lembro-me do Cândido, de Voltaire, de Jacques o Fatalista, de Diderot, A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e de mais uns tantos, se me esforçar um pouco. A partir daqui, começo a abrir buracos temporais e lembro-me da Fedra de Racine, do Paraíso Perdido, de Milton, Dom Quixote, de Cervantes, Os Lusíadas, de Camões e Hamlet, de Shakespeare. Depois começo a saltar séculos: A Divina Comédia, de Dante, Confissões, de Santo Agostinho, a Eneida, de Virgílio, a Odisseia e a Ilíada, atribuídas a Homero. Dos milhões de livros que se escreveram desde a antiguidade clássica, apenas alguns ficaram na memória da história. O tempo é um filtro inexorável no que toca a seleccionar as obras de referência. Se pudesse viajar na máquina do tempo e saltar de repente para o século vinte e três, gostaria de poder perguntar a um homem comum títulos de livros importantes do século vinte. Aposto que ele não enumeraria mais do que dois ou três. Desafio a que me digam quais os livros importantes do século vinte, aqueles que ficarão na memória das sociedades futuras. Com um bocado de sorte até já os li e não necessitarei mais de ouvir: «Como é que passaste dos quarenta sem ter lido?…»
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Jaime Bulhosa


Segunda-feira, Setembro 21

Jovens Corações

Michael Davenport e Lucy Blaine são um casal jovem e atraente. Michael formou-se em Harvard e tem a ambição de uma carreira literária; Lucy é bonita, discreta, culta e muito rica.
Recém-casados, mudam-se para Nova Iorque no início dos anos 1950. Michael trabalha no seu primeiro livro de poemas, enquanto sustenta a família com um medíocre emprego diurno - paradoxalmente, em nome da sua liberdade criativa, recusa-se a tocar no dinheiro da mulher. Nesses anos, em que a contracultura Beat começa a dar os primeiros sinais, Michael e Lucy descobrem, por acidente, a nova boémia artística nova-iorquina. Embora deslocados e inseguros face à sofisticação e licenciosidade deste leque de fascinantes possibilidades sociais, sabem que encontraram o que procuravam. Porém, o curso dos acontecimentos e das relações (incluindo a deles, Michael e Lucy Davvenport) deixá-los-á sempre algo aquém das suas expectativas.
Jovens Corações em Lágrimas demostra mais uma vez a inegualável mestria de Richard Yates, o grande cronista do sonho Americano e das suas depressões.



Título: Jovens Corações em Lágrimas
Autor: Richard Yates
Tradução: Miguel de Castro Henriques
Revisão: Carlos Pinheiro
Capa: Rui Rodrigues, a partir de Hotel Room de Edward Hopper
Edição: Quetzal Editores, 2009
ISBN: 978925648155
PVP: 25,95€

Sexta-feira, Setembro 18

Como não começar um romance


Quem sabe destas coisas (não é o meu caso) diz que para se escrever um livro, principalmente um romance, é necessário respeitar uma série de regras básicas que não podem nunca ser menosprezadas (também convém ter algum talento). Essas regras variam um pouco conforme os autores. No entanto, uma delas está sempre presente: o primeiro parágrafo ou frase de arranque do livro é essencial para o seu sucesso. Um mau começo pode afastar, desde logo, os leitores. Para terem uma ideia, deixo-vos alguns exemplos reais de inícios de livros no mínimo duvidosos:

«Ele cheirava a carne de porco. A carne de porco podre, de facto, muito.»

«A sua flatulência levantava-o como um garanhão orgulhoso.»

«Desde que me conheço como gente que tenho hemorróidas.»

«Embora flanqueada por dois soldados espadaúdos e morenos, Paula desviou o seu olhar para o saxofonista gordinho.»

«Robert era novo nestas coisas da prisão, e sentiu-se assustado, confuso. Mas no momento em que ele pôs os olhos em 472825994, tornou-se um prisioneiro do amor.»

«Nicole deixou cair dos seus ombros a blusa de seda que envolveu a perna esquerda de James, que, habilmente, cortou um pedaço de queijo.»

«O cabelo de Scarlet era vermelho como as minhas persistentes feridas gangrenadas.»

«As ondas pesadas no vasto oceano de tinta preta enviaram um borrifo salgado sobre a proa do navio de três mastros, deixando gotas de água sobre a pele de alabastro, exposta acima do corpete da mulher alta. Reven ficou chorando no convés as suas lágrimas salgadas, misturando-as com a tempestade do mar.»

«Sim, ela era uma mulher que tinha sido homem, mas ela ainda sabia como piscar as suas pestanas.»

«Ele agarrou o meu sutiã como um Concord que levanta voo, mas eu não estava preparada para o amor.»


Jaime Bulhosa

Os Grandes Livros

A Odisseia, a Divina Comédia, os Lusíadas - a grande literatura pode ser lida por todos nós, com uma pequena ajuda. Numa viagem fascinante ao longo de 2500 anos, Anthony O’Hear mostra-nos o caminho, na companhia de livros tão poderosos, emocionantes e cheios de erotismo como qualquer best-seller moderno.Começamos por Homero, o pai da literatura ocidental. Depois, a tragédia grega, Platão, a Eneida de Virgílio e as Metamorfoses de Ovídio, fonte inesgotável de inspiração para a literatura e as artes plásticas europeias.Através de Santo Agostinho passamos à Divina Comédia de Dante, um desvio ao mesmo tempo tenebroso e sublime pelo Inferno e pelo Purgatório, terminando na sua arrebatada visão do Paraíso. Chaucer, Camões, Shakespeare, Cervantes, Milton, Pascal, Racine e Goethe completam a tábua das personagens desta história fabulosa. Em qualquer dos casos, O’Hear traça um esboço paciente dos seus temas, aborda passagens cruciais e explica a importância imorredoura destas obras.Mais do que uma grande obra de referência, esta é também uma história narrativa contada com um profundo amor pela literatura - e uma crença inabalável na sua capacidade de inspirar e enriquecer os nossos mundos.

Edição: Aletheia
Autor: Anthony O’Hear
Tradução: Maria José Figueiredo
N.º Pág. 517
Isbn:9789896221737
Pvp: 19.00 €


Quinta-feira, Setembro 17

Ufa!


Entra uma senhora já com alguma idade:
- Qual é a parvoíce que você me vai aconselhar para ler desta vez?
- (Atrapalhado) Desculpe, qual foi mesmo o livro que eu lhe aconselhei?
- O Sexus do Henry Miller.
- E não gostou?
- Eu não disse isso.
Jaime Bulhosa

Página web Caderno Afegão

Fotografias, sinopse da obra e biografia da autora, disponíveis no website promovido pela editora. Caderno Afegão é o mais recente título da colecção de viagens da Tinta-da-China, coordenada por Carlos Vaz Marques

A melhor frase sobre sexo na literatura

«Sexual intercourse began in nineteen sixty three.»
(which was rather late for me)

Philip Larkin in Annus Mirabilis

Quarta-feira, Setembro 16

Um filho adolescente

- Filho, agora que estás de férias passas o dia a fazer o quê?
- Passo o dia a ler.
- Boa! Não sabia que tinhas ganho o gosto pela leitura de livros?
- Não pai! Passo o dia a ler menssagens de texto (sms).
- Ah!
-
Livreiro anónimo pai desesperado

Nick Cave e David Byrne

Nick Cave – A Morte de Bunny Munro

«Depois do suicídio da mulher, Bunny Munro, caixeiro-viajante, parte com o filho numa viagem pela costa sul de Inglaterra e cedo descobre que tem os dias contados. Mais do que para vender cosméticos, Bunny viaja em busca da sua alma.»

Edição: Alfaguara
Autor: Nick Cave
N.º Pág. 290
Isbn: 9789896720063
Pvp:16.50 €



David Byrne – Bicycle Diaries

«Desde do início da década de 80, David Byrne elegeu a bicicleta como o seu principal meio de transporte na cidade de Nova Iorque. Duas décadas depois descobre a bicicleta articulada e começa a levá-la com ele em tournée. Neste livro David Byrne descreve-nos, através da sua bicicleta, as várias cidades do mundo por onde passou. Com uma mistura muito pessoal de humor e curiosidade, David Byrne regista os seus pensamentos sobre a globalização, world Music, planeamento urbano, moda, política, arquitectura e desenvolvimento cultural.»

Edição: faber and faber
Autor: David Byrne
N.º Pág. 297
Isbn:9780571241026
Pvp: 15.00 €

Terça-feira, Setembro 15

Caderno Afegão




«Este livro é um acto de coragem. É um acto de optimismo, também. Paul Theroux explica na introdução a "O Velho Expresso da Patagónia" que "os viajantes são essencialmente optimistas, ou então nunca iriam a lado nenhum". É esse optimismo que permite a Alexandra Lucas Coelho afastar quaisquer receios com uma espécie de fatalismo paradoxalmente empreendedor: "não há nada a fazer". Mesmo quando por instantes se lhe infiltra na mente a dúvida acerca do desconhecido que a certa altura a transporta, sabe-se lá para onde, numa terra onde "um estrangeiro é um acepipe". "Não há nada a fazer." E a viagem continua. Vamos com ela aos jardins de Babur. Descobrimos com ela – num país masculino, onde até na morgue há frigoríficos distintos para os cadáveres de homens e mulheres – a herança da extraordinária rainha Gowar Shad. Mergulhamos o olhar no azul intenso de Band-e-Amir, um milagre atribuído a Ali, primo e genro do Profeta, que continua a proporcionar a quem o visita os bens mais escassos num país em guerra: tranquilidade e alegria.Aquilo que aqui, a ocidente, a milhares de quilómetros de distância, é apenas um borrão sem nome, uma massa de ideias vagas e de lugares-comuns, geopolítica e geoestratégia, toma a forma de gente concreta, ganha contornos, espessura, rosto. O facto de Alexandra Lucas Coelho escrever tão bem faz o resto. É o meio de transporte em que viajamos por um lugar aonde, é quase certo, nunca iríamos de outro modo.»

Carlos Vaz Marques

Edição: tinta-da-china
Autor: alexandra Lucas Coelho
Tema: Literatura de Viagens
Prefácio: Carlos Vaz Marques
Coordenação: Carlos Vaz Marques
1.ª edição: Setembro de 2009
N.º de páginas: 336
Formato: 14.5x20 cm
Isbn: 9789896710071
pvp: 17.90 €

Sábado, Setembro 12

Especialistas

Um dos maiores receios que tenho, enquanto estou, no exercício da minha actividade de livreiro é a possibilidade, constante, de ser confrontado com a minha ignorância. Em todas as actividades existem especialistas: aqueles que conhecem o que mais ninguém conhece. Nas livrarias aparecem três tipos de especialistas: os que procuram os livros raros, os que procuram os livros extremamente raros e os que procuram os livros não publicados. É precisamente este último tipo de especialista que mais me assusta. Os outros dois tipos, por mais complicados que sejam os seus pedidos, necessariamente, acabarei por ter uma resposta.

- Queria Viagens na Minha Terra, de Eça de Queirós.
- Queria os Contos Completos. – De quem? - Há mais do que um com o mesmo título?
- Queria a Antologia. - Antologia do quê? - Há muitas é?...
- Queria a Bíblia Anarquista.
- Queria a Bíblia Não Ficcionada.
- Queria o livro escrito por Jesus Cristo. - Será a Bíblia? - não, é qualquer coisa como: Este Jesus Cristo Que Vos Fala, de Alexandra Solnado.
- Queria um livro que me explique porque é que o meu filho me odeia.
- Queria um livro que me explique porque que é que o meu marido se apaixonou pela secretária.
- Queria o livro Como Ganhar o Euromilhões.
- Queria A Mente do Poder. - Não será O Poder da Mente? - Não, esse eu já tenho.
- Queria Os Pássaros Fritos, - não será Os Pássaros Feridos?
- Queria o Jerusalém, de Mia Couto. - Não será o Jesusalém?
- Queria o livro Não Sei – Não sabe o quê? - Não Sei! - Isso, já sei que não sabe! - Não sei é o título do livro!?... - Eu sei lá!?... - Isso mesmo!
- Queria O Gato Marado e a Andorinha Sei Lá - Não será O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado?
- Queria um livro sobre imitações. – Como de imitações? – Sim, para aprender a imitar passarinhos… e essas coisas.
- Queria um livro das Origens. – Origens do quê? - Das minhas origens.

Jaime Bulhosa

Sexta-feira, Setembro 11

Porque ler é muito importante

- Filho tens que ler mais, ler é muito importante.

- Pai! Se ler é assim tão importante, porque é que nunca vejo ninguém na televisão a fazê-lo?


Livreiro anónimo pai.

Quinta-feira, Setembro 10

Hoje a Pó dos livros está...


Obrigado a todos

Para verdadeiros cinéfilos.

Existem milhões e milhões de livros escritos e a grande maioria foi escrita apenas nos últimos 150 anos da história da humanidade. É verdade que muitos também se perderam para todo o sempre e alguns não fizeram falta nenhuma. Talvez não exista nenhuma área do conhecimento humano sobre a qual não haja pelo menos um livro escrito. Tanto assim é que há quem se dedique a escrever livros sobre assuntos obscuros e bizarros (podem ver aqui neste post alguns exemplos). Por este facto, por mais que conheça livros, há sempre mais um que me consegue supreender. O último é um livro para verdadeiros cinéfilos:

CLUCK!: The True Story of Chickens in The Cinema, de Jon-Stephen Fink, Virgin Books, 1981. Finalmente, para todos os cinéfilos, uma completa filmografia ilustrada de todos os filmes onde as galinhas vivas, mortas ou cozinhadas aparecem (incluindo todos os filmes onde a palavra “galinha”, assada, frita ou guisada, é mencionada).
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Jaime Bulhosa

Uma ideia optimista

OS SERES HUMANOS SÃO DIFERENTES DAS SUAS ESPÉCIES ANTEPASSADAS

Agora que nos afastámos do nosso caminho as falsas noções de “Deus”, enfrentamos a questão da qual ele nos protegia: Se os seres humanos não são a “espécie escolhida”, seremos pelo menos capazes de transcender a natureza da qual emergimos?
A nossa inclinação mais natural deveria ser a de nos matarmos uns aos outros de uma forma ou de outra. Desde o plâncton até aos paquidermes, o mito da natureza como uma colaboração sustentável e afectuosa é tão absurdo como o mito de um Criador.
A menos que nos revelemos diferentes de todas as outras espécies, continuaremos a competir com os outros habitantes do planeta por uma parcela desproporcionada dos seus recursos – e a competir entre nós pelos despojos desta guerra em curso. É assim a vida.
Acredito que os seres humanos podem ser diferentes das espécies antepassadas e as infindáveis comparações entre o comportamento humano e o comportamento das outras espécies são, em última análise, enganadoras. E espero que o facto de as colónias de esponjas fazerem guerras intermináveis com as colónias de outra cor não signifique que os humanos estejam condenados a fazer o mesmo.
Estou optimista porque acredito que, tendo-se libertado do mito do significado intrínseco, os seres humanos conseguirão alcançar a capacidade de gerar sentido, e que esta capacidade única nos dê a oportunidade de desobedecermos às ordens da biologia.

Douglas Rushkoff, analista de media, guionista de documentários e autor de Get Back in the Box: Innovation fom the Inside Out.
Ideias Optimistas, Coordenação John Brockman uma edição tinta-da-china

O Tambor de Lata

O dia do seu terceiro aniversário é uma data decisiva na vida de Oskar, o pequeno que não queria crescer. Não só é o dia em que toma a decisão de deixar de crescer, mas é também quando recebe o seu primeiro tambor de lata, objecto que se converterá num companheiro inseparável num percurso em que ecoam os compassos da história alemã antes e depois da II Guerra Mundial. A crítica mordaz, a ironia desapiedada, o humor corrosivo e a liberdade criadora com que Günter Grass constrói esta obra-prima tornam O Tambor de Lata num dos livros mais importantes da história da literatura.
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Edição: Dom Quixote
Autor: Günter Grass
N.º Pág. 696
ISBN: 9789722032223
PVP: 22.99€

Quarta-feira, Setembro 9

Os Dabney - Coord. Maria Filomena Mónica


Em 1806, a família Dabney desembarcou nos Açores, mais especificamente na ilha do Faial, onde o patriarca desempenharia a função de cônsul. A actividade diplomática andou a par dos negócios e do comércio, da filantropia também, e os Dabney integraram-se rapidamente na comunidade açoriana, abandonando o arquipélago apenas em 1892. No período de um século, esta família protestante foi o eixo de um dinamismo cultural que envolveu o convívio e a correspondência com diversas personalidades da época. A testemunhá-lo, o riquíssimo espólio de cartas, diários e outros documentos coligidos por Roxana Dabney. A presente antologia reúne textos que hoje se revestem do maior interesse e eloquência, constituindo a visão estrangeira e esclarecida a partir da qual Maria Filomena Mónica traça um retrato da sociedade insular no século XIX.
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Edição: tinta da china
Coordenação: Maria Filomena Mónica
N.º Pág. 541 - Encadernado
ISBN: 9789896710064
Pvp: 23.90 €

Terça-feira, Setembro 8

Os cinco maiores romances de sempre


Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust – 3.000.000 de palavras
Atlas Shrugged, Ayn Rand – 645.000 palavras
Guerra e Paz, Lev Tolstoy – 560.000 palavras
Infinite Jest, David Wallace – 479.198 palavras
O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas – 464.234 palavras
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Jaime Bulhosa

Segunda-feira, Setembro 7

A Música da Fome


Ethel Brun é filha de um casal de exilados, formado por Justine e Alexandre, um homem afável e irrequieto que muito jovem deixou a ilha Maurícia e que, na alegre Paris dos anos 20 e 30, se dedica a delapidar a herança em negócios pouco recomendáveis. Na infância, o único prazer de Ethel é passear pela cidade com o seu tio-avô, o excêntrico Samuel Soliman, que sonha ir viver para o pavilhão da Índia Francesa construído para a Exposição Colonial. E, na adolescência, Ethel conhecerá algo parecido com a amizade pela mão de Xenia, uma colega de escola, vítima da Revolução Russa e que vive quase na miséria.
O bem-estar de Ethel começa a resvalar quando, nas refeições que o seu pai oferece a parentes e conhecidos, se repete cada vez mais o nome de Hitler. Serão os primeiros sinais do que ameaça a família Brun: a ruína, a guerra, mas, sobretudo, a fome. Ela marcará o despertar da jovem Ethel para a dor e o vazio, mas também para o amor, num romance em torno das origens perdidas, durante uma época que culminou com um apocalipse anunciado.


Editor: Dom Quixote
Autor: Le Clézio
Título: A Música da Fome
ISBN: 978-972-20-3825-6
Páginas: 192
Dimensões: 15,5 x 23,5 cm
Colecção: Ficção Universal
PVP: 15.00€

Sábado, Setembro 5

Nós temos os melhores livros


Quinta-feira, Setembro 3

Pedra de afiar livros


Numa manhã bem cedo do ano de 1985.

– Mandaram-me vir ter com o senhor.
– Ah! És tu o novato? Ainda bem. Estava mesmo a necessitar de alguém que me fosse buscar uma encomenda de livros de Direito à livraria Petrony.
– Livraria Petrony?
- Sim, uma livraria e editora de livros de Direito que fica ali em baixo, na Rua da Assunção. Vais ter com senhor Augusto Petrony e dizes que vais levantar, da minha parte, uma encomenda de livros.
- Com certeza.
- Rapaz! É verdade, já agora, traz-me uma pedra de afiar livros.
- Uma pedra de afiar livros?
- Sim, homem… Vai lá e despacha-te!
- Com certeza.
Lá fui eu a pé, descendo a Rua Garrett, virei à esquerda pela Rua do Carmo, cortei à direita pelo elevador de Santa Justa, desci as escadarias, cheguei à Rua do Ouro, andei mais cinquenta metros e, junto à esquina da Rua dos Sapateiros, lá estava a Livraria Petrony.
- Por favor, o senhor Petrony?

O senhor Petrony (editor e livreiro emblemático de publicações de Direito, fundador em 1955 da livraria/editora com o mesmo nome) era uma personalidade impressionante. Mas o que mais me marcou na primeira vez que o vi foi o seu aspecto físico. Tanto que até hoje, muitos anos depois de o senhor ter falecido, ainda me recordo do seu tamanho, da sua voz rouca que parecia saída de um instrumento de sopro. Provavelmente, de excesso de tabaco. Era um homem grande, não em altura, mas em volume. Tudo nele era grande, os braços largos, as pernas gordas, os olhos enormes, muito saídos das órbitas oculares, que davam a sensação de que a qualquer momento explodiriam.
- É o próprio. O que deseja?
- Venho levantar uma encomenda de livros que está em nome do senhor Braga.

Poucos minutos depois, entregam-me dois enormes embrulhos de livros, atados com corda de sisal. Cada um devia pesar no mínimo quinze quilos. Só de imaginar que teria de carregar aqueles dois pesadíssimos pacotes de livros pela Rua do Carmo e Garrett acima, doeram-me as mãos.
- Deseja mais alguma coisa?
Envergonhado, acrescentei:
- Queria também uma pedra de afiar livros.
- Embrulhem-me aí uma pedra de afiar. - Gritou para dentro da loja o senhor Petrony.

Vejam o meu azar: para além dos dois pacotes de livros, teria também de carregar um objecto imensamente pesado em forma de paralelepípedo (facto que não dava jeito nenhum, pois temos apenas duas mãos). Imaginem o peso dos livros, mais aquele objecto estranho que se deslocava de um lado para o outro, batendo constantemente contra os meus joelhos, as cordas de sisal que me cortavam literalmente as mãos, ao ponto de ficar com elas em sangue, fizeram com que um trajecto que se faz normalmente em dez minutos, demorasse 45 minutos, tantas vezes fui obrigado a parar por causa das dores. A suar em bica com as mãos e joelhos feitos num oito, lá cheguei.
- Demoraste...
- Sabe, isto é muito pesado.
- Trouxeste a pedra de afiar livros?
- Sim.
- Então deita-a no lixo.
Ouve-se uma gargalhada geral.

A pedra de afiar livros não passava de uma pedra de calçada enorme e fazia parte da praxe de iniciação do livreiro. Assim começou o meu primeiro dia de trabalho.


Jaime Bulhosa

É tudo ficção

O livreiro novato para o livreiro mais antigo:

- Mestre, como posso distinguir os temas dos livros e saber onde os arrumar?

- Os livros com textos antigos vão para a filosofia. Os livros com textos curtinhos e, às vezes com rima, vão para a poesia. Os livros com diálogos e didascálias vão para o teatro.

- Didas… quê?

- Didascálias.

- Ah!... E o resto?

- O resto?!… Embora, muitas vezes não pareça, é tudo ficção.

Quarta-feira, Setembro 2

Livros abandonados...

De acordo com um inquérito realizado por uma revista Inglesa de consultório de dentista (não me perguntem o nome da revista, porque tirei nota de tudo menos do nome da bendita), vinha uma lista dos dez livros que mais vezes terão sido abandonados a meio da leitura:

1- Harry Potter and the Goblet of Fire, J.K. Rowling
2- Ulysses, James Joyce
3- Vernon God Litle, D.B.C. Pierre
4- Captain Corelli’s Mandolin, Louis de Bernière
5- Cloud Atlas, David Mitchell
6- The Satanic Verses, Salman Rushdie
7- The Alchemist, Paulo Coelho
8- War and Peace, Lev Tolstoy
9- The god of Small Things, Arundhati Roy
10- Crime and Punishment, Fyodor Dostoievsky

Nota: A maior parte destes livros são frequentemente citados como sendo dos melhores e mais lidos de sempre.
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Jaime Bulhosa

Uma História da Guerra

Mais um livro de referência em edição de bolso:
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«Eloquente e enciclopédico, John Keegan percorre a história dos conflitos da humanidade, caracterizando diferentes épocas e sociedades. Desde os rituais de combate da Idade da Pedra até à destruição em massa dos tempos modernos, passando pela organização das legiões romanas, pelo ideal de luta do Islão ou pela incontida violência dos cavaleiros das estepes, Keegan revela-nos os diversos modelos da prática de guerra, a par das grandes inovações da tecnologia militar: a descoberta do bronze e do ferro, a domesticação do cavalo, o carro de guerra e a arte da cavalaria, a introdução da pólvora e as armas de destruição maciça.»
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Edição: tinta-da-china
Título: Uma História da Guerra
Autor: John Keegan
ISBN: 9789896710088
PVP: 12.90€

Terça-feira, Setembro 1

Cinco livros para levar para outro planeta


- Dicionário Português-Inglês

- O Príncipe de Nicolau Maquievel

- Jacques o Fatalista de Denis Diderot

- O Ninho de Víboras de François Mauriac

- How to Start Your Own Country de Erwin S. Strauss


Jaime Bulhosa