quinta-feira, maio 16

Educação sexual



Um pai e um filho. O filho não teria mais de doze anos, treze no máximo. O pai aproxima-se do balcão, pousa um livro intitulado «Educação Sexual» e diz para o filho:
- Este livro é para ti.
O filho faz um esgar de desdém, talvez até um pouco envergonhado pelo pai, encolhe os ombros e responde:
- Pai, para quê esse livro?
O pai, resoluto no seu papel de pai, observa:
- Estás na idade. Temos que falar sobre os problemas sexuais.
A resposta foi rápida:
- Ok pai. Vejamos então!... O que é que queres saber? 

terça-feira, maio 14

Está frio nas livrarias




Nos dias que correm parece ser uma fatalidade, em qualquer lado, em vez de ouvir falar, por exemplo, de livros, literatura e lazer, ser obrigado a ouvir falar de crise económica, política e mercado. A contragosto, também eu me vejo a isso forçado.
Começo com uma pergunta: será que as livrarias, tal como as conhecemos hoje, estarão a extinguir-se?
Eu responderia que sim. Porquê? Por causa da crise económica e financeira? Das políticas culturais e baixos índices de leitura? Das novas tecnologias e do livro digital ou, antes disso, uma causa interna ao próprio mercado do livro? Estas são algumas das possíveis questões, às quais vou tentar responder em traços largos.
Nos últimos anos têm-nos chegado notícias preocupantes sobre o encerramento contínuo de livrarias, tanto no estrangeiro como em Portugal. Para dar um exemplo, só nos últimos dois anos, encerraram mais de quinze livrarias independentes, espalhadas pelo país. Infelizmente, é provável que fechem mais, não apenas entre as livrarias independentes, mas também entre as lojas das grandes cadeias - muito à semelhança do que do que vai acontecendo um pouco por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Evidentemente, a crise económica, que já vem desde 2008 e que se agravou em Portugal desde 2010, será a razão principal para o que está a acontecer, ou seja, o golpe que faltava para que as livrarias tradicionais definhassem de vez. Não podemos escamotear que esta é uma crise económica real, de dimensão inesperada e bem perceptível na degradação das condições de vida de milhões de pessoas. Mas não servirá esta crise, como bode expiatório perfeito para todos os males da cadeia do livro?
Deixem-me colocar de lado a crise económica e financeira, para passar a abordar outro tema, outra crise, anterior à crise económica, e que vou apelidar de crise endógena.
Não poderemos compreender o presente, nem perspectivar melhor o futuro, se não olharmos primeiro para o passado. Neste sentido permitam-me partilhar a minha experiência, de 28 anos, a trabalhar com o livro e para o livro.
Quando comecei o ofício de livreiro, o mercado do livro generalista não era um mundo perfeito, nem idílico. Todavia, era mais homogéneo, simbiótico, bastante mais do que é hoje, no sentido em que todos dependiam de todos, como deve ser um mercado que pretende atingir a concorrência perfeita.
Os diversos agentes da cadeia do livro estavam razoavelmente equilibrados, tanto ao nível das dimensões quanto ao número de editoras, livrarias e outros agentes do livro. Era sobretudo composta por pequenas e média empresas. Havia diversidade cultural e partilhavam o mercado, com as suas especificidades, em concorrência saudável.
As regras tácitas estavam estabelecidas e eram quase sempre honradas. Particularmente no que se refere às margens comerciais e prazos de pagamento, concedidas pelos editores aos livreiros. As margens de pequenos, médios e grandes livreiros oscilavam entre 30% e 35% sobre o preço de venda ao público. Mas esta diferença podia facilmente ser anuladas através da diferenciação da qualidade do serviço. Actualmente, a discrepância da margem entre pequenos livreiros e grandes retalhistas varia entre 30% e 60%. O que é manifestamente injusto e incompatível para a manutenção de um mercado de concorrência equilibrada.
Evidentemente que a tiragem do número de livros e títulos editados também era muito menor, mas quantidade não significa qualidade e nem sempre melhores proveitos.
Uns anos mais tarde, por volta do ano de 1998, tudo mudou. Entram em cena os grandes grupos de retalho. Os livros passam a vender-se, um pouco por todo o lado, na FNAC, nos hipermercados, nos CTT, nas Bombas de gasolina, etc. As livrarias independentes, que representavam cerca 50% do mercado, diminuem rapidamente, para menos de 15%. Este factor fez com que estas passassem a ser, por comparação com o grande retalho, ostracizadas pelos editores. Simplesmente porque, individualmente, significavam uma pequeníssima parcela das suas vendas. Portanto, dispensáveis para a viabilidade económica de grande parte das editoras. – A meu ver, isto é incompreensível, tendo gerado grandes prejuízos no passado, e indo ainda gerar outros tantos no futuro, e não me refiro só aos livreiros, mas também a editores e leitores.
Neste novo ambiente, dá-se uma espécie de «bolha especulativa» da edição, do número de livros editados, sem correspondência proporcional com o aumento das vendas – «parece que as pessoas, com o aumento da escolaridade, em vez de quererem ler mais, passam a querer ser lidas» –.
É a chamada democratização do livro e, com ela, a uniformização, que tem infelizmente como resultado a tradução de edições pouco cuidadas e de qualidade literária duvidosa.
A dimensão de alguns retalhistas e a convergência da maioria das vendas em poucos operadores levaram à consequente diminuição das margens comerciais dos médios e pequenos editores. O sector editorial, sem capacidade negocial junto do grande retalho, vê-se em apuros. E procura uma saída para a crise nos novos grupos económicos, atraídos ao mercado do livro, que aparentemente consideraram ser um bom negócio. A seguir dá-se a concentração editorial, as pequenas e médias editoras passam de editoras independentes a meras chancelas, propriedade de investidores especulativos. Este novo cenário conduziu a que o mercado do livro se tenha transformado num oligopólio, tanto no sector editorial, como no sector do retalho. Com a especulação, as margens comerciais passam a ser ilógicas, totalmente desiguais, injustas. É como se tivéssemos colocado no mesmo ringue de boxe, sem árbitro, um peso pesado e um peso pluma e depois, de poltrona, ficarmos à espera de um final surpreendente.
A proliferação de feiras e campanhas um pouco por todo o lado, onde a lei do preço fixo é totalmente desrespeitada, cria no leitor a percepção de que o livro é barato, vulgar e que deve ser vendido com respectivo desconto e brinde a custo zero. E, no entanto, pura ilusão. Afinal de contas, não será que as coisas gratuitas nos podem trazer problemas, uma vez que objectos que nunca sonharíamos comprar se tornam tão apelativos, assim que são “gratuitos”? –
A lei da concorrência – não sendo eu jurista – parece não estar a ser aplicada, especificamente em algumas alíneas dos artigos n.º 4 e n.º 7. Na minha perspectiva, há controlo da distribuição, bem como privação temporária das fontes de abastecimento em prazo razoável de concorrência. Acontece, igualmente, fazerem-se edições de livros exclusivos, designadamente para a FNAC, privando o resto dos livreiros de acederem aos mesmos – não é ilegal, mas é no mínimo deselegante e pouco solidário entre parceiros. Para dar outro exemplo, os pequenos livreiros recebem, frequentemente, títulos que encomendaram ao mesmo tempo que os grandes retalhistas, e qual não é espanto quanto recebem os mesmos livros apenas um mês depois. Por vezes nem sequer recebem a primeira edição, mas as segundas ou terceiras edições. Também na grande Feira do Livro de Lisboa se vendem livros abaixo do preço de custo, isto é, um pequeno livreiro encontra nesta feira os livros mais baratos do que se os comprar directamente ao editor. Será esta prática de abastecimento equitativa, adequada a uma concorrência saudável?
Depois da crise endógena e da crise económica, surge, quase ao mesmo tempo, a crise do livro impresso.
O livro, em forma de códice, tal como ainda o concebemos, vem sendo paulatinamente substituído pelo livro digital e pelo acesso fácil a conteúdos na Internet, particularmente no que diz respeito aos livros práticos e técnicos – alguém ainda se lembra da última vez que comprou uma enciclopédia em papel? Talvez sejam excepção os livros que se querem ler na íntegra, como os romances, a poesia, os livros infantis e similares. Todavia, temos recentemente o exemplo do último livro de José Saramago, que saiu primeiro em ebook e só depois em papel. Provavelmente, muitos mais se seguirão. Creio ainda que, através do livro electrónico, a leitura deixará de ser um acto individual, para passar a ser uma leitura social em rede. Não quer isto dizer, necessariamente, que seja uma má notícia para os leitores. No entanto, se o livro impresso deixar de ser financeiramente interessante para as grandes superfícies comerciais, serão estas, também, as primeiras, tão rapidamente como lhes deram importância, a retirar-lhes o espaço merecido.
Quanto ao futuro das livrarias. A vantagem de se falar do futuro é de que ele ainda não aconteceu. E, como tal, tudo o que eu pudesse dizer não estaria errado. Se, por acaso, no futuro se verificasse o contrário, teria boas hipóteses de ninguém se lembrar do que eu disse. Por outro lado, se adivinhasse o futuro, seria considerado um visionário. Mas prefiro não arriscar vaticínios e deixar simplesmente algumas reflexões em jeito de perguntas:
- Será que um sector livreiro que assegure a pluralidade e a diversidade cultural, que divulgue o livro e a leitura, não deve ser protegido em caso de necessidade?
- Será que a variedade que caracteriza o mercado livreiro não é apenas a expressão do desenvolvimento cultural de um país, mas também a de todo um espaço linguístico?
- Por oposição aos supermercados de papel, não é verdade que os livreiros oferecem outros serviços, como o aconselhamento técnico, a selecção e a encomenda de outras obras que não só aquelas do êxito do momento?
- Não é verdade que, por cada livraria de bairro ou de província que tenha de fechar, por ser incapaz de acompanhar os baixos preços das grandes superfícies, representa uma perda para o abastecimento espiritual e cultural daquela zona?
Se o mercado do livro se mantiver como está, persistindo na prática de uma concorrência imperfeita, regulação e fiscalização estatal ineficazes, falta de ética, procura do lucro fácil e alimentando a perspectiva de que o livro é produto para consumidores e não para leitores (no sentido tradicional), correremos o risco de um dia, ao passearmos pelas ruas de algumas das nossas vilas e cidades, ao lado dos nossos já crescidinhos netos, sermos surpreendidos com a pergunta:
- Avô, o que é uma livraria?

Nota: este texto foi escrito em Outubro de 2011.

Jaime Bulhosa

Promoção Vintage


De 15 de Maio a 10 Junho, na Livraria Pó dos livros, decorre uma promoção Vintage: na compra de um livro usado, a partir de 5.00€, oferecemos-lhe, em qualquer livro novo, um desconto 20% sobre o preço de capa.

Nota: desconto não acumulável com cartão de cliente.

quinta-feira, maio 9

Workshop de Coaching na Livraria Pó dos Livros


IMAGINE SÓ!
Imagine que da próxima vez que falar com o seu filho adolescente chega a um consenso. 
Imagine que da próxima vez que um amigo lhe pedir um conselho escuta-o e ajuda-o. 
Imagine que encontra coisas em comum com a pessoa que menos espera.
Imagine-se o máximo!




(imagem de Jackson Pollock) 

Este é o desafio que a Ana Domingues e Sara Otero, juntamente com a Livraria Pó dos Livros, lançam a todos os que queiram participar no Workshop “Tirar o Pó ao Coaching”, que começa na quarta-feira 22 de Maio e decorrerá durante 4 módulos, uma vez por semana, até 19 de Junho, sempre às 21h00.
“Aproximar o Coaching a todos, para que possam desfrutar de uma relação de ajuda e ajudar outros” é um dos resultados que as duas Coaches presentes neste Workshop desejam alcançar com esta iniciativa inovadora. “Ouvimos falar muito de Coaching, mas muito poucos tiveram acesso a um Coach ou à oportunidade de iniciar um processo de Coaching. Acreditamos que todas as pessoas podem ter acesso ao Coaching e a algumas ferramentas utilizadas por um Coach, de aplicação prática no dia-a-dia, seja em contexto pessoal, familiar ou profissional”, salientam.

Coaching?
O Coaching é uma relação de ajuda orientada para o desenvolvimento do outro, no respeito pela sua vontade. É um processo de acompanhamento cujo objectivo é criar as condições para que o indivíduo, grupo ou organização, possa encontrar as suas soluções para atingir os seus resultados. O Coaching favorece a aprendizagem, encoraja e dá feedback, responsabiliza e cria condições para situações de sucesso e de evolução. É uma parceria entre o coach e o cliente, um processo criativo e introspectivo que o inspira a maximizar o seu potencial.

Programa
- 22 de Maio - Introdução à Non Violent Communication, Exercícios práticos.
- 29 de Maio - Técnicas para comunicar eficazmente: Escuta Activa, Questionamento, Reformulação e Feedback; Exercícios Práticos.
- 5 de Junho -  A construção de Quadros de Referência Comuns; Exercícios Práticos.
- 19 de Junho - Integração, Feedback e Stroke; Bibliografia.

Inscrições e condições de pagamento:

Faça já a sua inscrição através do e-mail: podoslivros@gmail.com ou do telefone: 21 795 39 93

Pagamento 140.00€  - Pode pagar na livraria apenas no início dos 4 módulos.

Perfil Biográfico dos Coaches

Ana Dominguez tem cerca de 20 anos de experiência internacional no acompanhamento da mudança e crescimento individual e organizacional. Concebeu e geriu EAPs (Employee Assistance Programs) em empresas nacionais como a TAP, e junto de organizações internacionais na Europa e em África (ONU / ILO). É responsável por vários programas de Stress management.
Docente no Curso de Coaching CIEO ACTIVISION, no Executive Center NOVAFORUM, e no ISEGI-NOVA, em temas como Liderança, Desenvolvimento Pessoal, Gestão de Carreira, Inteligência Emocional, Comunicação. Domina as metodologias do Team Building e Formação Outdoors.
Formada em Psicologia Clínica pela Universidade de Grenoble, certificada PCC (Professional Certified Coach) pela ICF – International Coach Federation, com formação em Process Communication Coaching.        Bilingue com dupla nacionalidade franco-portuguesa, fluente em Inglês, com noções de Alemão e Espanhol.

Sara Otero tem 12 anos de experiência em comunicação e relações públicas. Formação em Coaching de Indivíduos, Equipas e Organizações: certificação ACTP - Accredited Coach Training Program, pela International Coach Federation
Especialização em Responsabilidade Corporativa e Master em Responsabilidade Corporativa Empresarial, pelo Centro de Investigação de Economia e Sociedade, Universidade Barcelona.
Pós-Graduação em Comunicação Empresarial pela Escola Superior de Comunicação Social, Instituto Politécnico de Lisboa. Especialização em Jornalismo pelo CENJOR – Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas. Licenciada em Engenharia Florestal, pelo Instituto Superior de Agronomia

Sobre a International Coach Federation (ICF)

Fundada em 1995, é a maior associação de coaches do Mundo, com 22 mil membros em mais de 120 países e o maior recurso mundial de informações e pesquisas sobre Coaching para coaches e para organizações ou pessoas que procuram um coach.
Sem fins lucrativos, a sua missão é contribuir para o avanço da arte, ciência e prática do Coaching profissional.
Pautada por um rigoroso Código de Ética, a ICF visa preservar a integridade da profissão de Coaching, estabelecendo elevados padrões de qualidade para certificação de programas independentes de formação em Coaching e para o credenciamento dos associados.

Mais informações contactar:


terça-feira, maio 7

Um comentário

Alguém deixou dentro deste livro em segunda-mão, «Portugal Arquitectura e Sociedade», de Carlos de Almeida, um comentário escrito num guardanapo de papel. O autor do comentário demonstra, desde logo, um enorme respeito pelos livros mesmo por aqueles de que não gosta, ao ter tido o cuidado de não escrever directamente nas páginas do livro.
Reproduzo aqui o comentário para aqueles que não perceberem a caligrafia do nosso estimado anónimo:

O autor deste livro é um autêntico filho da puta. Ataca a Igreja duma maneira indecente e falsa. É comuna primário.
Tinha que ser Almeida!

sábado, maio 4

Olhares de Orfeu



À semelhança das suas obras anteriores (Dissonâncias e A Undécima Praga, ainda em catálogo), António Vieira mantém neste seu novo livro de contos, a par da efabulação filosófica e de um estilo narrativo de sugestivo recorte clássico, uma inquietação (ontológica) que ao mergulhar na noite dos mitos que se julgavam inquestionáveis, acaba por revelar, afinal, a sua agónica absurdez. A sombra de Kafka pairará por aqui, talvez geminada com a de Dostoievski. Mas a agudeza crítica, essa, é por inteiro de António Vieira, escritor sério demais para andar por aí aos salamaleques. 

título: Olhares de Orfeu
autor: António Vieira
tradução: ---
n.º pág.: 90
formato: 15.5 x 17.5cm
capa: Luís Manuel Gaspar
isbn: 9789898150424
pvp: 15.00€

quarta-feira, maio 1

Poesia na Pó dos livros

No próximo Sábado, 4 de Maio, às 17h30, será apresentado na Pó dos livros o novo livro de poesia de Victor Oliveira Mateus GENTE DOIS REINOS, edição LabirintoA apresentação estará a cargo da poeta Maria João Cantinho e da romancista Ana Cristina Silva. A poeta Gisela Ramos Rosa fará a leitura de alguns poemas.

(clique para ampliar)


terça-feira, abril 23

Dia Mundial do Livro



Hoje é Dia Mundial do Livro e… desculpem-me, mas não consigo festejar. Porque, ao mesmo tempo, em muitos anos, não se vai realizar a Feira do Livro do Porto. Porque, ao mesmo tempo, livrarias com décadas de existência estão a ser despejadas por causa de uma nova lei das rendas que é completamente cega. Porque, ao mesmo tempo, muitas livrarias tradicionais estão a fechar portas ou a caminho disso, contribuindo para a desertificação dos bairros, das cidades e para o empobrecimento do abastecimento espiritual e cultural daquelas zonas. Porque, ao mesmo tempo, existem centenas de jovens arquitectos desempregados e sem perspectiva de futuro profissional a não ser a de emigrar, apesar de existirem centenas de prédios vazios, com fachadas centenárias, lindas, a cair, literalmente, de podres. Porque, ao mesmo tempo, vejo jovens licenciados em Direito sem trabalho e uma justiça para ricos e outra para pobres. Porque, ao mesmo tempo, vejo os meus amigos, primos e irmãos ficarem desempregados aos cinquenta anos. Porque, ao mesmo tempo, vejo crianças que não têm em casa um único livro, mas pior do que isso, não têm uma refeição decente a não ser aquela que a escola lhes dá. Porque, ao mesmo tempo, vejo famílias inteiras a ser despejadas, separadas e a viver de favor em casa dos outros. Porque, ao mesmo tempo, vejo velhos e doentes sem dinheiro para se tratarem. Porque, ao mesmo tempo, vejo os políticos especularem com o dinheiro público, perderem-no aos milhões e não serem responsabilizados. Porque, ao mesmo tempo, vejo cada vez mais gente a mendigar nas ruas. Por isto, e muito mais, não posso celebrar o Dia Mundial do Livro, que é, ou deveria ser, um símbolo de liberdade, da liberdade de opinião, do veículo das ideias, da materialização das palavras. Porque é através das palavras que as revoluções se fazem. Porque é através das palavras que as mentalidades mudam. Porque é através das palavras que os direitos são conquistados, porque é através das palavras que nos devemos entender.

Jaime Bulhosa

sexta-feira, abril 19

Cursos de Literatura na Pó dos Livros

(clique na imagem para aumentar)




Curso de Literaturas Americanas

3.ªs feiras de Maio 2013 (4 sessões), 21.00h

Literatura Sul Americana

Literatura Norte Americana

Inscrição 45€

inscrições: podoslivros@gmail.com
  

Este curso apresenta uma visão transversal da literatura norte-americana e sul-americana em dois momentos distintos. Apesar de se localizarem no mesmo continente estas duas literaturas mostram realidades completamente distintas e têm em comum o facto de retratarem a cultura e a sociedade dos seus países, mostrando como as fronteiras tanto se esbatem em zonas delimitadas como é a América do Sul e do Norte como depois são tão marcadas quando saltamos do Norte para o Sul mostrando que muitas vezes a questão dos continentes é meramente geográfica.

Com Rosa Azevedo: nasceu em 1982 em Lisboa. Terminou em 2004 a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, maior em variante de estudos portugueses, franceses e menor em Literaturas do Mundo, em 2008 o mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e dos novos autores portugueses. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte. Foi livreira e hoje é produtora, formadora, revisora e dinamizadora e divulgadora da área dos livros.

E João Silveira: biografia em breve, deste nosso estreante na Pó dos Livros mas não nestas andanças.

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Contemporaneidades na Literatura Portuguesa - Da sociedade aos livros

4.ªs feiras de Maio 2013 (4 sessões), 21.00h 

Livraria Pó dos Livros, Lisboa

Inscrição 45€ 

inscrições: podoslivros@gmail.com

Com rosa azevedo 

Quem são os novos autores portugueses? O que os une e o que os separa? Em que nome escrevem e em que nome surgem em público? Numa época de novas tecnologias, novas formas de aparecer em público, crise económica, intelectual e ideológica, o que é preciso para se ser um escritor? 
O século XXI trouxe novos paradigmas à literatura. A passagem de século é uma passagem temporal como outra qualquer mas a verdade é que foi neste início de século até aos nossos dias que assistimos à explosão da Internet com as redes socias, blogs e meios de divulgação. Com isto os escritores saem do desconhecido para se tornarem figuras públicas facilmente reconhecidas na rua e cuja vida privada acaba por ser conhecida e confundida com a sua obra de forma mais perversa do que antes porque o meio é, arrisco dizer, mais selvagem. Mas há excepções. E há diferentes tipos de leitores e, no limite, são os leitores que fazem uma grande parte do que um escritor é.
Depois podemos ainda reflectir sobre a razão da escrita. O que faz um escritor? Que tipos de escritores existem? O que nos confere autoridade para avaliar as intenções de um escritor? De que forma as intenções de um escritor alteram a forma como recebemos o texto e como o lemos?
Em Portugal proliferam novos escritores. Sofrem em bloco da “angústia da influência” procurando, acima de tudo, a originalidade. A que custo? Em que nome escrevem eles?

sexta-feira, abril 12

Último suspiro




Estava em frente da porta da livraria a fumar um cigarro, a fazer um intervalo entre o vazio de clientes e a azafama de pessoas que passam e pedem esmola. Como não dá para dar moedas a todos, porque são muitos, opto, em vez disso, por dar uns cigarros. Enquanto observava o dia bonito de primavera, com as árvores timidamente a mostrarem as suas novas folhas, pensava no contraste que o dia fazia com o semblante triste da gente que passava. Nisto surge no passeio um rosto vagamente conhecido, mas mais velho e gasto desde a última vez que o vira. Cumprimentei-o e perguntei, só por perguntar, se estava tudo bem. Mas em vez de ter a resposta de circunstância: «Sim, está tudo bem» obtive um: «Não, estou desempregado». Sem saber bem o que dizer, não por ter ficado surpreendido, porque o que nos acontece mais hoje em dia é encontrar alguém que está desempregado, saiu-me da boca, e sem reflectir no que dizia, um: «e agora, como vais viver?»
Digo-vos, não me vou esquecer da resposta que obtive, foi tirada de dentro das entranhas, real, efectiva, amarga, mas ao mesmo tempo, verdadeiramente, poética: «e agora, perguntas tu... quando já não tiver o que comer, engolirei o meu último suspiro».

Jaime Bulhosa

terça-feira, abril 9

Já escolheu a sua Livraria preferida de Lisboa?


Qual a sua Livraria Preferida? - Votação

Durante o mês de abril está a decorrer uma votação, na APEL, para eleger a Livraria Preferida de Lisboa, no âmbito da iniciativa “Ler em Todo o Lado”.
Se a sua livraria preferida de Lisboa é a Pó dos livros, vote aqui. Se não for vote também.

Amor à primeira vista




Foi amor à primeira vista. As formas arredondadas do corte, as cores vivas que o vestem, a marca distintiva de um exemplar único e a vontade incontrolável de o conhecer a fundo marcaram-me indelevelmente. Não é sempre que a paixão surge e, hoje em dia, é cada vez mais raro. Não importa que seja um pouco campestre ou juvenil, o que importa é que se transforme num amor ardente. Acaricie-o muitas vezes, fiquei muito tempo a olhar para ele, de tal maneira, que não me consegui controlar e tive que o possuir.
«Os Idílios Difíceis», de Italo Calvino, editado pela Arcádia em 1964, capa de Sebastião Rodrigues, é um daqueles livros que faz com que um livreiro, que gosta de livros, se amaldiçoe por ser livreiro. O suposto é um livreiro vender livros, não ficar com eles. Contudo, penso que me entendem... Não é belo este livro de contos? 

Jaime Bulhosa

quarta-feira, abril 3

Um Presidente benevolente





Um Grande Presidente de um pequeno país andava de cá para lá e da lá para cá, silencioso, taciturno, no seu palácio, tanto que não fazia mais do que gastar o erário público e o pavimento, à semelhança de D. Afonso VI. Até que um dia se lembrou de mandar chamar o seu Primeiro-Ministro para lhe dizer:
- O senhor não deve, não pode continuar a ignorar os clamores de reprovação que os meus súbditos... perdão, que os meus concidadãos soltam contra si. Consideram-no um grande e refinado patife.
- Creia, Excelência, que se trata de uma infame calúnia - respondeu o Primeiro-Ministro.
- Agrada-me muito ouvir essa afirmação - declarou o Grande Presidente.
Dito isto, levantou-se, para indicar que a audiência havia terminado. Mas vendo que o seu interlocutor se mantinha imóvel, como era seu costume, prosseguiu:
- Tem ainda alguma coisa a acrescentar?
- Sim, Excelência. Quero pedir a minha demissão; o clamor público é deveras falso, quando diz que sou um grande patife. Todavia, nada é grande ou pequeno senão através das comparações e conheço outros com quem eu e sua Excelência nos poderíamos comparar. Porém, deixemos isso. Mas o protesto não é injusto: eu na verdade e feitas as devidas comparações não passo de grande imbecil.
Aqui o Presidente consentiu em sorrir, para declarar, cheio de benevolência:
- Meu bom amigo, vá retomar as suas funções, nesse ponto, pareço-me muito consigo.


(Fábulas de Esopo emendadas)

terça-feira, abril 2

IV Encontro Livreiro




No próximo dia 7 de Abril, pelas 15 horas, a livraria Culsete, em Setúbal, recebe a IV edição do Encontro Livreiro.

O Encontro Livreiro é um espaço de debate e troca de ideias povoado por gentes do livro, de livreiros a editores, passando por escritores, revisores, tradutores e várias outras profissões directamente relacionadas com o universo do livro. É, sobretudo, um espaço povoado por leitores, condição transversal a quem trabalha no sector editorial e livreiro e a quem, não trabalhando, se reconhece na familiaridade que a partilha de livros e leituras oferece a quem neles se reconhece. (para mais informações aqui.)

quinta-feira, março 28

A língua portuguesa é tramada




Na zona infantil da livraria uma senhora muito simpática pede, de forma prolixa, ajuda:
- Necessito do seu conselho. É para oferecer à minha neta. Tem que ser alguma coisa ligeira, um livro fino, uma boa aventura, com romance e personagens, bem escrito, mas curto. Não sei se está a perceber? É que agora os miúdos não gostam de ler, não é como no meu tempo em que não havia televisão e se lia muito. Quero iniciar a miúda na leitura, é que se nota algumas lacunas na sua ignorância, está a entender?
O livreiro não interrompe, mas fica a pensar nas lacunas-da-ignorância. A cliente continua:
- Enfim, queria que me indicasse alguns livros que uma menina de treze anos consiga ler de olhos fechados. 

segunda-feira, março 25

Como tornar-se um leitor em 10 passos.


1.º – Escolha uma data para começar a ler e respeite-a.

2.º – Evite começar por livros considerados literatura light, pois embora o nome seja encorajador não reflecte de todo a realidade e pode destruir a melhor das intenções.

3.º – Livre-se de todos os telemóveis, ipad,  playstation, dvd e afins que tenha por perto.

4.º – Depois de começar a ler não pode parar sem, pelo menos, chegar ao fim do primeiro capítulo; deixá-lo a meio aumenta consideravelmente o risco de desistir antes mesmo de ter começado.

5.º – Para se auto-motivar, pense, muitas vezes, em todos os benefícios da leitura.

6.º – Evite a proximidade de pessoas que estão a bocejar e deitadas no sofá a ver os programas de televisão que passam em horário nobre.

7.º – Peça ajuda a um profissional - pode ser um livreiro, um editor, um professor, etc. – ou participe em fóruns e blogues da especialidade. Estas comunidades de leitores ajudá-lo-ão a integrar-se mais facilmente na sua nova realidade.

8.º – Mude de hábitos, a fim de evitar locais onde possa conviver com pessoas completamente desinteressantes.

9.º – Não faça pausas muito grandes e complemente-as com a leitura de um jornal, revista, de banda desenhada ou de uma história infantil.

10.º – Parabéns. Se chegou até aqui é porque já é quase um leitor. No entanto, evite os entusiasmos exagerados, como, por exemplo, passar a considerar-se um intelectual.
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Boas leituras

quinta-feira, março 21

Imbeciclopédia XXIX



Dentro de um livro antigo encontramos um teste de Ciências da Natureza de um aluno do ensino secundário. O aluno respondia assim a uma das perguntas do professor sobre a utilidade económica da vaca:

A vaca 

A vaca é um mamífero cujas pernas chegam ao chão. A vaca produz carne, mas não põe ovos como as galinhas.
Na cabeça da vaca, crescem cerca de dois olhos e compridas orelhas de burro. Dos lados tem dois ossos curvos que parecem cornos. Atrás do dorso tem outra coisa: a cauda, cuja extremidade serve para sacudir as moscas. Comemos o interior da vaca, mas do seu exterior os sapateiros fazem coiro. Aos filhos das vacas chamam viste-lo porque é muito raro.
A vaca não come muito, mas aquilo que come mastiga-o duas vezes e assim fica satisfeita. Quando tem fome, muge e quando está calada é porque o seu interior está cheio de erva.
Debaixo da vaca, há o leite e ela está equipada para a poderem ordenhar. Antes de o fazer, as leiteiras lavam as mãos, as tetas e o balde.
Para evitar que entrem os micróbios, é preciso fechar as portas dos estábulos.
Os lavradores têm perdas porque os bois da lavoura fatigam-se e dão menos leite.
A vitela é um vitelo que ainda não é vaca.
A vaca tem um vitelo cada ano, graças ao toiro que é uma vaca sem tetas. Os vitelos mais apreciados são provenientes do acasalamento dum pai preto e duma vaca branca o que dá uma vaca malhada.
Na inseminação artificial, é o veterinário que faz de boi.

quarta-feira, março 20

Poesia na Pó dos livros

Hoje, 21 de Março, dia mundial da poesia, às 18h30, será apresentada na Pó dos livros, a antologia poética Cintilações de Sombra, edição Labirinto e Núcleo de Artes e Letras de Fafe. A apresentação estará a cargo de Cristina Carvalho, Maria João Cantinho e Victor de Oliveira Mateus.
(clique para ampliar)

Pó no jardim do Palácio Galveias

Amanhã, para assinalar o dia mundial da poesia, no jardim do palácio Galveias, no Campo Pequeno haverá um Mercado de Livros Usados, um Círculo de Leitura aberto a quem quiser participar, coisas a acontecer na Biblioteca e outras coisas, não menos extraordinárias, para comer e beber no  Quiosque e, claro, a Pó dos livros também vai lá estar.


quinta-feira, março 14

Hoje na Pó dos livros

Hoje, 14 de Março, às 18h00,  na Pó dos livros, será apresentado o livro de João Baía SAAL e Autoconstrução em Coimbra - Memórias dos Moradores do Bairo da Relvinha 1954-1976, edição 100 Luz e Instituto de Literatura Tradicional. A apresentação estará a cargo da historiadora Luísa Trigo e do realizador João Dias.

(clique para ampliar)