segunda-feira, julho 27

Horário de Agosto

Em Agosto encerramos aos domingos e no feriado, dia 15. 
Boas férias





sexta-feira, julho 24

Os livros, objectos insondáveis



Como as mulheres que andam sempre acompanhadas com as suas malas de mão, cheias de objectos estranhos tão insondáveis como tentar conhecer a razão por que Eva comeu a maçã e que levam os homens a tentar adivinhar para que servem, assim andava eu, enquanto criança, curioso por saber por que razão andava o meu pai sempre com um ou dois livros debaixo do braço. Carregava-os para todo o lado, nos transportes públicos, para o trabalho, para a sala de espera do dentista, para o futebol, para a praia, para a repartição de finanças, para a casa de banho, para a cama, enfim, para todo o lado. Perguntei-lhe a razão. Disse-me: «A qualquer altura do dia pode surgir um momento, uma necessidade, um tempo livre para ler.» E acrescentava: «Quem gosta de se instruir nunca é ocioso. Ler é a melhor forma que conheço para confirmar a primeira e evitar o segundo».

Jaime Bulhosa

quarta-feira, julho 22

O aprendiz de livreiro


Há 40, 50 anos, não é necessário recuar mais no tempo, muitos rapazes e raparigas de 13, 14, 15 anos ainda eram desterrados involuntariamente dos seus lares nas longínquas aldeias da província para virem trabalhar na Grande Lisboa (faço ideia do medo que alguns sentiram). As raparigas iam para casa dos Senhores, servir como criadas internas. Os rapazes não, servir em casa particular era um trabalho para mulheres e muito mal pago, além disso, poderiam pôr em causa as virtudes das filhas dos Senhores. Por isso, vinham trabalhar ao mesmo tempo que aprendiam um ofício de sapateiro, carpinteiro, alfaiate etc. Também acontecia irem trabalhar para livrarias. No entanto, esta profissão normalmente requeria uma maior formação que na sua grande maioria estes rapazes não possuía. A formação posterior que adquiriam era, quase sempre, aquela que os Senhores ou Patrões entendiam oferecer-lhes.
Segue-se um pequeno episódio sobre um desses miúdos que veio nos anos 60 trabalhar para uma Livraria do Chiado:

- És tu o sobrinho do Manel?
- Xou xim, xenhor Armando.
- Como te chamas e que idade é que tens?
- Xico e tenho 14 anos, xenhor Armando.
- O teu tio disse-me que lá na tua terra te tinham ensinado as primeiras letras, é verdade?
- É xim, xenhor. - Disse o Xico vacilando a voz.
- Sabes, para se aprender a ser livreiro é necessário saber de letras.
- Xei xim, xenhor. - Afirma, disfarçando a voz cada vez mais trémula.
- Óptimo! Então tenho aqui um trabalho simples para tu fazeres.
- Tudo o que o xenhor mandar.
- Estás a ver esta estante? É nela que vamos colocar os livros de poesia. Sabes o que é poesia?
- Xei xim, xenhor, é a mesmo coisa que as cantigas, xó que falado.
- Pois é… mais ou menos, mas agora não interessa. Estás a ver estes livros aqui no chão? Vais ter de os arrumar na estante por ordem alfabética do último nome do autor, isto é, pelo apelido. Já agora, qual é o teu apelido?
Xou xó Francisco Zé*.
- Ah!... Mas entendeste o que eu te pedi?
- Xim, xenhor, por ordem alfabética de letra.
- Isso! Quando acabares vai chamar-me para eu ver o que fizeste.
- Xim, xenhor.
Passado um bom par de horas, o Xico, orgulhoso do seu trabalho, chama o senhor Armando.
- Vamos lá ver isto, então. Sim senhor: “A” de Carlos Drummond de Andrade, a seguir temos o “E”!?... Então, Xico, o que é isto!?... Desde quando é que a seguir ao “A” vem o “E”?
Tiritando por todos os lados, o rapaz responde:
- Xim, xenhor, “aeiou”, como me enxinaram.

* Naquele altura não era muito frequente, mas algumas pessoas não tinham apelidos, principalmente os filhos bastardos.

Jaime Bulhosa

terça-feira, julho 14

A leitura e o paraíso



Um jovem via que um velho consagrava todas as horas da sua vida à leitura.
Lia sem cessar, dia e noite, e quando lhe perguntavam a razão dessa perseverança, ele respondia:
- Leio para um dia chegar ao paraíso.
Anos mais tarde, depois de o velho ter morrido, o jovem, ele próprio já maduro, iniciou uma grande viagem em busca da verdade. Como era costumeiro neste tipo de viagens, passou por duras penas, por regiões estéreis e espinhosas. Encontrou gatunos de muitas espécies, monstros, precipícios, enigmas e tentações.
Tão forte era o seu desejo de verdade que pôde transpor todos os obstáculos e chegar enfim, mesmo no cimo de uma montanha, a uma gruta onde o esperava a revelação suprema.
Entrou e, com alguma surpresa, encontrou nessa gruta o velho cuja reputação terrena, entretanto, tinha atingido o próprio grau de santidade.
Ora, na gruta o ancião continuava a ler. O outro aproximou-se respeitosamente e perguntou-lhe:
- Então o paraíso é aqui?
- É aqui.
- E continuas a ler?
- Continuo.
Então passaste toda a tua vida terrena a ler para chegares ao paraíso e, realizado o teu voto, continuas a ler?
- Como vês.
Então não lias só por ler?
- Sim – Disse então o velho –. Mas aqui compreendo, finalmente, o que leio e ainda é mais maravilhoso!

quinta-feira, julho 9

Sábado, na Pó dos livros

No próximo Sábado, 11 de Julho, às 16h30, venha à pó dos livros, conhecer o novo livro de poesia de Isabel Aguiar A Língua de Esperanto dos Pássaros, edição Labirinto. Maria João Cantinho fará a apresentação da obra

(clique sobre a imagem para ampliar)

Imbeciclopédia XIV


Entrei numa loja de chineses (um mundo de coisas ao preço da chuva) para comprar um porta-chaves que estava a precisar para juntar umas chaves suplentes que andam espalhadas há que tempos pela livraria. Reparei num expositor de porta-chaves com antigos provérbios escritos em chinês. Não chegavam a custar um euro. De imediato, e aleatoriamente, escolhi um. Por curiosidade perguntei o que aquele provérbio queria dizer. O empregado que não sabia falar bem português resolveu traduzir para inglês:
- Cheap things are not good, good things are not cheap.
Chinise Proverb
Ele riu, eu também.

Jaime Bulhosa

quarta-feira, julho 8

Como irritar um livreiro


Entra e fica especado como uma estátua, olha em redor, da esquerda para direita, de cima para baixo, coça a cabeça e pergunta:
- Isto é uma livraria?
O livreiro, meio atónito, responde:
- Sim, é uma livraria.
- Óptimo! Então queria um maço de tabaco, umas fotocópias e já agora 2 euros no euromilhões.  

terça-feira, junho 30

Os melhores 10 contos

É comum os editores dizerem que os livreiros não gostam de livros de contos e é por isso que os contos não vendem e se editam tão poucos. Não são os livreiros que não gostam de contos, talvez seja o público que não goste de contos. Eu adoro ler contos. Os contos são curtos, directos e sem rendilhados e alguns têm mais conteúdo numa página do que muitos romances em centenas de páginas. Pensei fazer uma lista dos melhores contos que li, num exercício puro de memória, aqueles que ficaram registados na minha cabeça por qualquer motivo que não sei bem explicar porquê. Uma lista dos melhores é sempre subjectiva, muitas vezes inútil e sem interesse, porque o universo de escolha é enorme e ninguém pode vangloriar-se de que leu tudo para seleccionar os melhores. Contudo, é através das referências de outros que vou descobrindo mais e mais contos para ler. Deixo aqui, para quem me quiser dar crédito, a lista dos melhores dez contos que li:

1.º - Bartleby, Herman Melville

2.º - O Capote, Nikolai Gogol

3.º - O Alienista, Machado de Assis

4.º - O Poço e o Pêndulo, Edgar Allan Poe

5.º - A Tortuosa Esperança, Villiers

6.º - O Duelo, Anton Tchekhov

7.º - O Nariz, Nikolai Gogol

8.º - O Ovo de Cristal, H. G. Wells

9.º - Passeio Nocturno, Rubem Fonseca

10.º - O Sacristão, Somerset Maugham

Jaime Bulhosa

segunda-feira, junho 29

Mais vale parecer do que ser.



Uma senhora procura na Pó dos Livros um livro muito falado na televisão.
- Esse não tenho. – Diz o livreiro identificando de imediato o livro pretendido –. Mas tenho outro do mesmo autor.
- Do mesmo autor!... – Diz a cliente com ar desconfiada – Está bem, mas não pode ser muito grosso porque eu não gosto de ler. Tenho lá em casa vários livros do Lobo Antunes que não leio porque são muito grossos. Não sei se já lhe disse que não gosto de ler?
- Sim, já me disse, mas não se preocupe que este é bem fino.
- Pode ser esse, então.
Não sei se inquieta com o que o livreiro pensava, a verdade é que a senhora atira com esta antes de se retirar:
- Não julgue que não tenho livros em casa só porque não gosto de ler. Tenho lá uma estante cheia, maior que esta, e com livros dos bons!

sexta-feira, junho 26

leitura e o amor romântico


Não sei se é do sol, se é das férias, a verdade é que nesta altura do ano há um aumento substancial pela procura de livros sobre relações românticas. Ainda há pouco, um rapaz na casa dos vinte anos veio em busca de aconselhamento. Queria um livro que o ajudasse a melhorar a sua relação com a namorada - admirei a sua coragem -. Queixava-se ele que discutiam muito, mas que a culpa não era dele. Ela era, simplesmente, uma grande chata! Não me pareceu um bom princípio, nem que entendesse a extrema complexidade da mente do sexo feminino versus a simplicidade e estímulos visuais para que tudo funcione bem com o sexo masculino. Precisava, de facto, de ajuda, por isso aconselhei-o a ler um livro com um título sugestivo: «Um Amor Para Sempre – Estratégias e conselhos para iniciar, manter e enriquecer a sua relação». Ficou bastante entusiasmado e disse-me que era mesmo disso que precisava, porque a amava muito e queria ficar com ela para sempre. Achei bonito! Depois, perguntou-me se lhe alugávamos o livro. Sem dúvida, pensei eu, um caso grave de falta de leitura. Todavia, senti que o estava a enganar. Para «sempre» é coisa que quase nunca sucede numa relação. Enfim, deixai-o sonhar!
Sugiro, então, se estiver loucamente apaixonado e deseja exaltar o seu amor, leia poesia e literatura, pode ser a Ilíada ou a Odisseia. Está tudo lá, todas as experiências e vivências do amor - se bem que qualquer coisa com mais de três páginas pode ser uma estafa para um louco apaixonado -. Eles deviam saber que o estado intenso de paixão leva os homens e as mulheres aos actos mais insanos, como o suicídio ou a guerra. Basta recordar o exemplo da guerra de Tróia. Estarmos apaixonados é como uma cegueira temporária, uma pedrada de heroína ou cocaína. Na prática estamos completamente, drogados ou bêbados. O pior é que é exactamente neste estado que os amantes decidem casar. Ora, ninguém devia ter permissão para celebrar um contrato completamente alcoolizado. Não acham?
Porém, se o seu ardor se acalmou e quer entender a maneira como evoluiu a sua relação, leia psicologia e biologia, depressa vai entender que a paixão é efémera e que não passa de um pouco mais de que um conjunto de reacções químicas no seu cérebro na busca do sexo, prazer e reprodução. Mas se acabou ou pensa acabar brevemente uma relação e está convencido de que vai passar bem sem amor, deve ler filosofia. Quando os filósofos gregos e romanos se apoderaram do amor romântico, em geral ou acabam por desprezá-lo ou por transformá-lo numa coisa completamente diferente. Não há como ler filosofia ocidental para acabar de vez com um casamento.
Em forma de conclusão é verdade que o apego aos outros e as relações podem provocar muita dor e confusão, como está bem demonstrado na frase de Jean Paul Sartre: «o inferno são os outros», mas também podem ser o céu. Digo eu!?.. 

Jaime Bulhosa

quinta-feira, junho 25

Ignorância



Diz um bom cliente, em tom de desabafo, ao mesmo tempo que coloca no balcão mais uns quantos livros:
- Sabe, quanto mais leio menos convicções tenho.
- Não diga isso...
- Garanto-lhe. Não sei porque compro e leio tantos livros.
- Não diga isso...
- Deixei de ter convicções. Olhe, é como dizia o filosofo: «Apenas tem convicções aquele que nada aprofundou».
- Não diga isso...
- Não só o digo, como afirmo: «Felizes aqueles que são ignorantes».
- Estranho…
- O que tem de estranho?
- Nada… apenas estava a pensar alto na última frase que acabou de me dizer.
- Como assim? Pergunta o cliente curioso.
- Não deve ser nada de importante… No entanto, a ser verdade o que diz, não acha que se veria por aí muito mais gente feliz?

Jaime Bulhosa

terça-feira, junho 23

Não saber o que dizer...



Cliente: (Segurando na mão uma cópia de «As Cinquenta Sombras de Grey»); Isto não tem nada de esquisito… pois não?
Livreiro: A senhora quer dizer… sexo?
Cliente: Não!... (sussurrando) – quero dizer Gays?
Livreiro: !?...

quinta-feira, junho 18

Bibliomancia

Desde os tempos mais imemoriais da História da Humanidade que os homens acreditam que o destino está escrito algures. E se está escrito poderá ser lido, e se for lido poderá ser reescrito, principalmente quando o que está escrito não lhes agrada. Foi partindo desta premissa que se desenvolveram as mais variadas técnicas de adivinhação, desde a Aritmancia (através dos números), Cafeomancia (através das borras do café), Capnomancia (através do fumo), Escatomancia (através das fezes), Onicomancia (através das unhas), etc. Enfim, um nunca mais acabar de técnicas adivinhatórias muito interessantes.
Para mim, a Bibliomancia continua a ser a melhor forma de adivinhar. Acredito que é através dos livros que o Homem tem mais hipóteses de prever o seu futuro.
Sobre este assunto, e não só, aconselho a leitura de um livro extraordinário, Disse-me um Adivinho, de Tiziano Terzani, edições tinta-da-china.

Há muitos anos, algures numa livraria da cidade de Lisboa:
- É pá, esteve aqui um cliente que perguntou se nós tínhamos livros sobre Bibliomancia. Como eu não sei o que é, com vergonha, respondi que não tínhamos nada. Sabes o que é Bibliomancia?
- Sei, Bibliomancia é a adivinhação do futuro, através dos livros, nomeadamente dos livros sagrados, como a Bíblia ou o Alcorão, mas pode ser através de outro livro qualquer.
- Ai sim… e como é que isso funciona?
- Imagina que queres saber o que nos vai acontecer quando sairmos da livraria. Pegas num livro qualquer, pode ser este do Cocteau, pões a palma da mão por baixo, abres numa página ao calhas e lês um excerto, como este, interpretando-o:

Um jovem jardineiro pediu ao seu príncipe:
«Salva-me! Esta manhã, encontrei a Morte no jardim, e ela fez-me um gesto ameaçador. Quem me dera estar esta noite, por milagre, muito longe daqui, em Ispahan.»
O Príncipe emprestou-lhe o mais veloz dos seus cavalos. Nessa tarde, ao passear pelo jardim, o príncipe deparou-se com a Morte.
«Porque foi», perguntou-lhe, «que esta manhã fizeste um gesto ameaçador ao meu jardineiro». Respondeu a Morte.«Foi um gesto de surpresa. Espantou-me vê-lo longe de Ispahan, sabendo como sei que logo à noite terei de tomá-lo em Ispahan.»

- Ouve lá, a profecia que acabaste de ler é para mim que a oiço, ou para ti que a lês?
De repente, e ao mesmo tempo, os livreiros rodam a cabeça na direcção da porta, vendo quem entra, um silêncio de Morte instala-se entre os livros.
-
Jaime Bulhosa

segunda-feira, junho 15

No fim...



Esta é uma história contada por Tolstói, mas a sua origem perde-se algures no tempo das histórias contadas oralmente pela Europa Oriental.
Conta-se que um dia um Senhor generoso e grande proprietário disse a um homem pobre, seu servo e que lhe prestava serviços há muitos anos:
- Caminha tanto tempo quanto puderes e toda a terra que os teus passos tiverem circunscrito será tua para sempre.
O homem pôs-se imediatamente a caminho, tendo o cuidado de percorrer primeiro um círculo restrito que foi depois alargando a cada passagem por achar sempre pouco. Caminha dia e noite, cansava-se, mas a ambição tornava-se cada vez maior à medida que aumentava os seus domínios. E continuava cada vez querendo mais e mais, perdia até por vezes a noção do tempo e do espaço, mas não queria parar de caminhar.
No fim, caiu exausto no chão e morreu.
Quem o encontrou abriu uma cova com as dimensões exactas do seu corpo. Era a sua parcela de terra.

quinta-feira, junho 11

Esta é boa


As coisas que lemos:
Um Inglês quando se cruza com uma bonita mulher na rua, vê-a sem olhar para ela, não se volta e continua a vê-la correctamente no seu cérebro; um francês (e a maior parte dos latinos) as mais das vezes, quando se cruza na rua com uma mulher bonita, começa por olhar-lhe para as pernas, compara-as com resto do corpo a ver se tudo está de acordo, depois volta-se para colher uma mais completa impressão de conjunto e então, enventually, reconhece que afinal também tinha de ir para aqueles lados.
Daninos, Pierre, Os Cadernos do major Thompson, Clássica Editora (1957)

terça-feira, junho 9

Imbeciclopédia XI


A espécie mais perigosa de estupidez é uma inteligência aguçada.

Hugo Hofmannsthal


As coisas que lemos:

Diz-se que é de origem europeia e medieval o diálogo que se segue entre o senhor e o seu servo.

«Certo dia, dirigindo-se os dois, a pé, à feira da vila mais próxima e durante o caminho, ao avistar um monte de esterco, o senhor diz ao seu servo:
- Dou-te uma moeda se comeres aquela bosta.
O servo pensa, o máximo que a fama da sua pouca inteligência conseguia, e imagina tudo que poderia fazer com uma moeda. Sem muito se interrogar sobre o porquê daquela proposta, habituado a sacrifícios, aceita e engole, conforme pode, a bosta. O senhor dá-lhe a moeda e os dois continuam o seu caminho.
Contudo, o senhor reflecte e diz a si próprio que se limitou a perder uma moeda e não lhe pareceu que comer a bosta tenha feito mal ao seu servo. Ao avistar um segundo monte de esterco, o senhor pára e diz ao servo:
- Se eu comer aquela bosta, devolves-me a moeda?
- Está bem, combinado – diz o servo, sem pensar muito no assunto.
O senhor deita mãos à obra e, com grande sacrifício, resmungando, engasgando-se, engole a bosta até ao fim.
Continuaram os dois a andar. Passado uns minutos, o servo pergunta ao senhor:
- Já que vós, senhor, sois tão inteligente, não me podeis dizer a razão pela qual comemos aquela merda toda?»
Não se conhece, até hoje, a resposta do senhor.

segunda-feira, junho 8

Secção de auto-ajuda



Estava com a auto-estima a roçar o chão da livraria e, quase milagrosamente, um livro de auto-ajuda, que se encontrava ali mesmo, captou o meu olhar. O título não podia ser mais sugestivo e a promessa de salvação, irresistível: Melhore a Sua Auto-estima e Seja Feliz. De imediato o abri. Começava mais ou menos assim:

«Dialogue consigo mesmo»

Pensei para comigo:

- Quem?... Com esse idiota?

Jaime Bulhosa

quinta-feira, junho 4

Definições


Um homem que procura coisas num quarto escuro é um cientista. Um homem que procura num quarto escuro coisas que lá não estão é um filósofo. Um homem que procura coisas num quarto escuro e que exclama: «Encontrei!» é um religioso. O que lhe responde: «És capaz de largar o meu pé!» é um ateu. Aquele que por fim acende a luz e põe fim à baderna e perda de tempo é um agnóstico.

Livreiro anónimo agnosticamente confuso.

quarta-feira, junho 3

Está mais alguém aí fora?



Há biliões de anos atrás, no planeta Terra, a primeira molécula reprodutora terá exclamado: «Está mais alguém aí fora?» E assim terá nascido o sexo!
Com o sexo nasceu o amor romântico, a amizade e todos os outros tipos de relações interpessoais.
Não evoluímos muito desde esses tempos primordiais, como bem demonstram as redes sociais. Por exemplo, o sucesso do facebook baseia-se, essencialmente, nessa necessidade primária, incontrolável de nos fazermos ver e ouvir. Esta prosa não é mais do que a minha indigência por atenção. A verdade é que cada vez que publicamos aqui alguma coisa, pode ser apenas uma frase sentimental, uma fotografia ou destilação da raiva e do ódio, não estamos a fazer mais do que a chamarmos a atenção para nós próprios e a dizermos qualquer coisa como isto:
- Vejam como sou inteligente!
- Vejam como eu escrevo bem!
- Vejam como estou feliz!
- Vejam como sou lindo!
- Vejam como estou apaixonado!
- Vejam como os outros são estúpidos!
- Vejam como estou triste!

Depois esperamos que alguém responda. Basta um gosto. Melhor se forem muitos, melhor ainda se for um comentário elogioso ou uma partilha; até uma provocação ou um insulto é preferível à indiferença. Não temos "culpa", somos uns bichinhos sociais. É a biologia a funcionar quando, algures no nosso cérebro, os receptores da recompensa reclamam: «está mais alguém aí fora que me possa fazer feliz?!...»

Jaime Bulhosa