quinta-feira, fevereiro 4

Aconselhando livros



- Já leste este livro?
- Não.
- E este?
- Também não.
- E já agora este?
- Não, também não.
- Puxa! és uma rapariga de sorte.
- De sorte!?... Porquê?
- Porque tens a sorte de os ir ler pela primeira vez.

terça-feira, dezembro 15

Pensamento do dia


«Toda a minha vida procurei nos livros respostas para a curiosidade mais profunda. Tenho lido, muito até, mas não sei se tenho lido os livros certos. Parti para a leitura com o espírito aberto, perguntando: Qual é a resposta? Todos os livros fizeram silêncio. 
Vou mudar de paradigma e passar a perguntar: Qual é a pergunta?» 

Livreiro anónimo

As Leituras e as Estações do Ano


Não tenho nenhum estudo científico que sustente a sensação que tenho de que as pessoas lêem mais determinados temas de acordo com as estações do ano. Apenas constato isso através da análise que faço das vendas.

No Inverno: estamos mais predispostos a ler não-ficção, ensaio, poesia ou aquele clássico de quinhentas páginas que estava à espera na mesa-de-cabeceira, desde o Verão passado (para ganhar coragem).

Na Primavera: a ficção “leve” ou light, (como quiserem chamar-lhe) dispara no número das vendas, e todos os livros que falem de paixões, sexo, namorados, amantes ficam de repente na berra. Também os livros de auto-ajuda aumentam significativamente (para os que não conseguem acompanhar o chamamento primaveril da Natureza).

No Verão: a literatura de viagens, desporto, o romance para ler na praia.

No Outono: sem dúvida, os romances históricos são os mais vendidos. Os livros de direito são igualmente muito procurados nesta estação (necessitamos deles para nos tentarmos livrar das alhadas em que nos metemos nas duas estações anteriores).

No Natal: é uma quadra à parte, pois vende-se de tudo, mas não acredito que se leia tudo o que se vende.

Não fui o único a reparar nesta tendência, alguns editores (principalmente as que editam para as grandes massas) já o fizeram antes. É só estarmos com atenção ao tipo de livros que saem em cada estação e olharmos para as capas.

No Inverno: predominam as capas a preto e branco, as cores escuras, as paisagens de montanha com neve e chuva, as lareiras.

Na Primavera: as flores, as cores vivas, as mulheres bonitas, carros desportivos e vedetas de televisão.

No Verão: as praias, areia, corpos bronzeados, conchas e paisagens tropicais.

No Outono: as planícies e paisagens rurais, as árvores com as folhas a caírem, os verdes, castanhos. Monumentos e pinturas com temas históricos (não podemos esquecer que estamos na estação do romance histórico).

No Natal: é fácil – temos o Pai Natal.

Um editor que não tenha em atenção estes pormenores e que edite um romance com uma capa de Verão no Inverno, arrisca-se a só o vender na estação seguinte.
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Jaime Bulhosa

quarta-feira, novembro 25

Lançamento do livro Arte Nua, 27 de Novembro, pelas 18h

Sobre o autor:
Luís Viegas Mendonça nasceu em Lisboa, em 7 de Novembro de 1958. Iniciou-se na fotografia em 1974, como amador, tendo mantido essa atividade até hoje. De 1979 a 1983 trabalhou como fotógrafo profissional no Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto (fotografia médica). Simultâneamente, de 1981 a 1983, foi fotógrafo de moda para as Confecções Pulido e para a cadeia de lojas Chez Elle. Licenciou-se em Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico, em 1983.
Publicações
Tem várias fotografias publicadas em livros, em brochuras publicitárias e em revistas da especialidade. É co-autor dos livros “Olhar a Nú” e “Essência e Memória, Vol. IV – Antologia Luso-Brasileira de Fotografia Contemporânea”, ambos da Chiado Editora. Autor de um calendário para a Fashion World Models.
Distinções nos últimos 5 anos
Fotógrafo do mês, no site Modelos PT, em Agosto de 2010.
“Picture of the Day”, no site Model Mayhem, em 23 de Setembro de 2010.
Portfolio publicado nas revistas Hot Magazine nº 7 e Fashion World Models nº 16.
“Best nude picture of the day”, pelo site Fashion World Models, 32 vezes.
“Best black & white picture of the day”, pelo site Fashion World Models, em 26 de Março de 2015.
“Best hot/sexy shoot of the day”, pelo site Fashion World Models, 3 vezes.
“Best picture of the day”, pelo site Fashion World Models, 4 vezes.
“Daily Featured Member”, pelo site Model Bliss Net, 24 vezes.
“Weekly Featured Member”, pelo site Model Bliss Net, 3 vezes.
“Imagem do Dia”, pelo site Liquid Images, 4 vezes.
Biografia publicada na revista SoWhat Magazine nº 12, em Agosto de 2015.
O autor e a fotografia
Fotografa por paixão e com entusiasmo. Gosta do “preto e branco”, pelo ênfase da emoção e do sentimento alcançado. Considera a Arte Fotográfica como uma forma de expressão artística que provoca emoções e reflexões. As suas imagens são maioritariamente fotografias de nu artístico.

Gosta de fotografar a silhueta humana e a pessoa só. Gosta de acreditar que consegue registar, de forma simples e direta, imagens fotográficas de corpos onde a estética e a sensualidade transparecem.

segunda-feira, novembro 23

Talento


Não haverá nada pior para um “escritor” sem talento, do que ceder ao impulso irresistível da inspiração. É como sentir uma repentina e dolorosa cólica, correr para a privada mais próxima, deixar a imaginação livre e, só depois, aperceber-se de que não há papel para registar a sua obra.

Livreiro anónimo em reflexões autobiográficas.

sexta-feira, novembro 20

Saber enciclopédico


Uma pequena estória do tempo em que o acesso à informação não era tão fácil e rápido como hoje é através da Internet:

- Tem algum livro sobre a Vida?
O velho livreiro, prazenteiro, responde com a sabedoria que só as rugas do seu rosto permitem:
- Ó meu caro rapaz, todos os livros que temos são sobre a vida, mesmo os que são sobre a morte, ah, ah, ah. Lewis Grizzard, por exemplo, dizia que a vida é uma doença terminal sexualmente transmissível, ah, ah, ah. Truman Capote, dizia que a vida é uma peça de teatro, moderadamente boa mas com um péssimo terceiro acto e…
O livreiro é bruscamente interrompido, nas suas citações literárias, pelo cliente mal-humorado.
- Se é isso que tem a dizer sobre a Vida mais valia ter ficado calado.
O livreiro apercebendo-se que o cliente tem sempre razão, mesmo quando não tem, responde:
- Tem razão, sobre a Vida eu não sei nada. Faça-me só o favor de ser um pouco mais específico?
- O que eu quero, se for capaz de realizar o seu trabalho em condições, é apenas que me indique um livro, e não a sua opinião, que me dê uma definição concreta, corpórea, palpável, definitiva, sobre a Vida e nada de citações literárias, mais ou menos vagas, de poetas ou escritores. Não sei se percebeu… ou terei vindo ao sítio errado?
- Não, acertou em cheio, senhor. Deseja uma definição sobre a Vida, tipo enciclopédica?
O cliente, como se tivesse visto a luz, exclama:
- Isso, até que enfim!
- Bem, temos aqui na livraria a Enciclopédia Britânica, melhor não pode haver. Esteja à vontade, a casa é sua.
O cliente pega num dos pesados volumes da enciclopédia, agarra um monte de folhas, abre-o numa das páginas correspondente à letra L, percorre com o dedo indicador as várias entradas, até que encontra a palavra desejada, Life.
Life: «There is no generally accepted definition of life».
(Encyclopedia Britannica)

Jaime Bulhosa

terça-feira, novembro 17

O eterno marido



- Tem o livro, O Eterno Marido, de Dostoiévski?
- Tenho sim. É para oferta?
- É para oferecer ao néscio do meu marido. E vai com dedicatória! Não sei se me faço entender!?... – Diz a senhora, sorrindo maliciosamente.
- Com certeza! – Digo eu, sem fazer mais perguntas.

Nota: para quem não leu o livro o «eterno marido» é aquele tipo de homem que por mais que seja enfeitado é sempre o último a saber.

segunda-feira, novembro 2

Vamos dar cabo da Literatura

Mário de Carvalho é um dos autores mais conceituados da literatura portuguesa contemporânea. Com uma obra vasta e versátil, é contista, dramaturgo, romancista, cronista e ensaísta. Provocante, irónico, tem todas as qualidades necessárias para “dar cabo da literatura” e pôr-nos a pensar nela. Escritor que viveu na pele a ditadura de Salazar, perseguido e exilado, figura incontornável da cultura portuguesa da actualidade, tem histórias para nos contar e encantar. Esta é uma iniciativa que se inscreve nas actividades do PEN Clube Português.
Na Livraria Pó dos livros, dia 4 de Novembro, pelas 18.00, à conversa consigo.

terça-feira, outubro 20

Floresta virgem

Ilustração de A. de Pinho

Nota: Resposta encontrada dentro de um livro escolar antigo de Ciências da Natureza:

Pergunta: O que entende por Floresta Virgem?
Resposta: A Floresta virgem é uma floresta que nunca foi penetrada pelo o homem.
Certo!

segunda-feira, outubro 19

O Princípio Moral e o Interesse Material



Encontram-se, um dia um Princípio Moral  e um Interesse Material, no leito duma ponte tão estreita que só podia dar passagem a uma pessoa de cada vez.
- De rastos, vil criatura! – gritou, tonitruante, o Princípio Moral. – De rastos, para que eu te possa passar por cima.
O Interesse Material limitou-se a fitá-lo bem nos olhos, sem proferir palavra.
- Bem – admitiu o Princípio Moral, num tom hesitante – tiramos à sorte, para sabermos qual de nós dois deve recuar até que o outro haja passado a ponte.
O Interesse Material continuou sem abrir boca e a fitar o seu interlocutor.
- Para se evitar um conflito – parlamentou o Princípio Moral, não sem certo mal-estar – vou estender-me no chão e consentir que o senhor passe por cima de mim.
Foi então, que o Interesse Material tomou a palavra para afirmar:
- Pois eu penso que você não é bom piso para mim. Sou muito exigente quanto ao que calco aos pés. Acho melhor que se atire ao rio.
E assim se fez.   

Ambrose Bierce

quarta-feira, outubro 14

uma em mil



- Bom dia. Tem algum livro daquele filósofo... não me lembro do nome, que escreveu sobre Ética?
- Não leve a mal, mas há dezenas, se não centenas de filósofos que escreveram sobre Ética. Essa é uma pergunta espinhosa.
- É isso mesmo! Espinosa, Bento de Espinosa. 

segunda-feira, outubro 12

Os loucos


A livraria atrai todo o tipo de pessoas, escritores, poetas, crianças e claro… loucos. Num fim de tarde, um louco, com cara de louco, entra na livraria e pergunta:
- Tem livros sobre baratas?
O livreiro desconfiado:
- Baratas!?...
- Deixe que lhe explique. Eu sei que você não vai acreditar e é provável que me ache louco, mas tenho uma barata em casa que fala comigo.
- Pelo contrário, acho até bastante interessante. E digo-lhe mais, ultimamente também tenho falado com uma, até lhe dei o nome de Kafka!
Ainda o livreiro não tinha terminado a frase e já o cliente meio apavorado fugia porta fora...

Jaime Bulhosa

terça-feira, outubro 6

Poesia


«Um dia um poeta francês foi apresentado a um riquíssimo banqueiro. O apatacado e emproado personagem perguntou ao poeta:
- Para que serve a poesia?
E o poeta respondeu-lhe:
- Para o senhor, não serve para nada.»

Anónimo

terça-feira, setembro 29

Paradoxo

- Pai, o que é um Paradoxo?
- Diz-me uma coisa. Gostavas de viver muito tempo?
- Sim, claro que sim.
- E de ficar velho?
- Não!

Jaime Bulhosa

quarta-feira, setembro 23

Uma carta muito anotada, ou um imbróglio esclarecido


A má memória não é senão preguiça mental. Fazendo um pequeno esforço, todas as coisas podem ser recordadas, como se aprende do teor da presente carta.


Senhor José Ramírez.

Querido amigo: Lamento incomodar-te, mas estou a fazer o inventário da minha casa, para me mudar, e notei que me falta um livro que te emprestei. Não me recordo ao certo se era «Gustavo, o estroinas», de Vítor Hugo, ou «A Noiva do Herege», de Plutarco, mas, em suma, era um livro de tese. Agradecer-te-ei muito que mo remetas.

Desejando que te encontres bem de saúde, na companhia dos teu, abraça-te este teu amigo,

Afonso Leguizamo

T./c.: Avenida de Maio, 725 – 6.º andar

P.S. – Estimado José: Rogo que desculpes a minha má memória, mas no momento de fechar esta recordo-me de que o que te emprestei não foi um livro mas sim um globo terrestre, para que mostrasses à tua esposa que a Turquia asiática não ficava na Austrália, como ela dizia, baseando-se em que era professora diplomada. Espero que mo envies em carta registada o mais cedo possível.

Teu,

Ildefonso Leguia

T./c.: Avenida do Trabalho, 527 – 9.º andar

Nota importante: que cabeça a minha, senhor D. Josias Martinez! Dê por não escrito tudo que vai atrás e desculpe-me o tratamento por tu, visto mal ter a honra de conhecê-lo. O caso é que aquilo que tive o prazer de lhe emprestar foi um sobretudo de dupla face, na noite em que V. Senhoria veio a minha casa propor-me um desafio no campo de honra, como representante do doutor Sócrates Ângulo, porque, devido a uma distracção, arrastei a esposa dele uns vinte metros, agarrando-a pelo colar, na crença de que o fazia ao meu cão Tom.

Queira perdoar, cavalheiro, e mande-me o sobretudo porque faz falta agora que estão a apertar os calores.

S.S.S.

Afonso Leguizamón

S./c.: Avenida Marginal, 6 – 725.º andar

P.S. – Graças a Deus, tenho muito boa memória, pois de contrário não entenderias a minha carta. A verdade é que, quanto ao isqueiro, podes ficar com ele, pois a minha mulher ofereceu-me outro melhor e não como esse é, que não acende nunca. O que farás o grande favor de devolver-me é o pau de bandeira que te emprestei por ocasião da vinda cá do Príncipe de Gales ou do Getúlio Roosevelt, não estou agora bem recordado. Estas falhas de memória são devidas ao facto de andar muito preocupado com pensamentos relativos ao enlace que vou contrair com a que há-de ser a minha eterna companheira.

Não vivo na Avenida Roque Sánez Peña, como te dizia na minha anterior, mas na Avenida Quintana. O número sim que é o mesmo: 275, morada 6.

Teu amigo de sempre,

Afonso Leguizamón

Nota indispensável: Distinto senhor D. Jesualdo Ramos: Rogo-lhe que rasgue esta carta sem a ler, pois deslizaram-me nela algumas «gaffes» sem importância mas que poderiam criar desagradáveis mal-entendidos entre nós. As coisas passaram-se assim: Veio aqui o senhor pedir-me que lhe emprestasse trezentos «pesos», por motivo do falecimento de sua esposa, e vi-me na necessidade de recusar-lho pela simples razão de o senhor ser tão solteiro como eu. Por isso, se de facto o senhor pensou em restituir-mos no prazo estipulado, apresso-me a dizer-lhe que o não faça, porque estamos quites.

Saúda-o atentamente,

L. Alfonso

S./c.: Avenida das Constituintes, 572

P.S. – No momento de deitar esta carta na caixa reparo em que omiti um facto de certa importância, meu querido Pepe: os trezentos «pesos» eram só trinta, e emprestaste-mos tu quando a minha senhora teve um terçol. Se tos não restitui mais cedo foi porque me não recordei antes. Tão-pouco tos mando agora por razões que exigiam contos largos. Todavia, isto não empanará a nossa boa amizade e podes retê-los em teu poder até que isso te convenha.

Teu,

A. Leguina

T./c.: Avenida Alvear, 6 – aposento 275

P.S. – Caro Pedro: O que são as coisas da vida! Eu a reclamar-te o guarda-chuva, por culpa da minha má memória, e tu a dizeres: De que guarda-chuva se trata? Claro está que não se trata de guarda-chuva nenhum. Para mais, estava já muito velho e deixava passar água. Rogo-te que me desculpes e me devolvas a seringa de injecções que levaste na noite em que a senhora sua sogra teve aquele faniquito. Noutras circunstâncias não ta pediria, mas tenho uma éguazinha que, tenciono fazer correr em La Plata.

Teu amigo,

Aldonzo Leguineche

T./c.: Avenida, 9.º andar

P.S. – Agora reparo em que há aqui o que os ingleses chamam um «quiproquó». Bastarão duas palavras, senhor Jonas Ramalho, para pôr as coisas a claro. Não foi o senhor, precisamente, mas sim a um tal sr. Nepomuceno Barrenechea, a quem facilitei essa quantia na roleta de Mar del Plata, e tão-pouco foi a 16 de Fevereiro de 1932 mas sim em 15 de Janeiro de outro ano, creio que de 1937, data que tenho bem presente, por ser o dia em que completei quarenta anos de idade.

Como se trata de uma importância tão insignificante, creio que não verá inconveniente em restituir-ma, pois trata-se de uma recordação de família que muito estimo.

Saúda-o cordialmente o

Nepomuceno Barrenechea

S./c.: 725, 6.ª moradia andar 7.º

Nota: - Acabo de ler detidamente esta carta, estimado José, e verifico claramente, pelo que se esclarece no segundo e no quinto post-scriptum, que não é a ti que eu devo remetê-la pela simples razão de que o que me receitou a teriaga, vem a ser cunhado de um sr. Ramalho, também José por tal sinal, e, em consequência, está claro que foi o dito cavalheiro que levou o cão para lhe fazer companhia, por se lhe ter feito tarde e ele temer algum assalto no caminho. Se bem que eu não consiga compreender para que queria ele o cão tendo revólver e sendo uma dama tão distinta que só pela sua presença impõe respeito.

Contudo, mando-te a carta, e se não és tu que tens a maleta de couro de porco, agradecer-te-ei que me digas a quem a emprestei, para reclamar na volta do correio. Teu amigo constante,

Ildefonso Leguizamo

T./c.: Avenida Gral. Huergo


(Conrado Nalé Roxlo)