Realiza-se, hoje, na Pó dos livros a primeira sessão de "um livro para...", com o tema "Os medos", coordenação de Andreia Brites. Mais informação aqui.
Ainda há vagas, apareça.
Segunda-feira, Janeiro 30
Hoje na Pó dos livros
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cursos,
incentivo à leitura,
infantil
Quinta-feira, Janeiro 26
Os livros malditos
A
Pó dos Livros desafia os seus leitores a elegerem, da lista que se segue, o Livro
Maldito por excelência. Qual o livro que tem implícito mais preconceito, mentira, racismo, etc? Qual o livro
que originou mais ideias perigosas? Em nome de que livro se praticaram as maiores
atrocidades? Muitas listas de livros malditos poderiam ser feitas. As
escolhas são sempre subjectivas. O nosso critério é tão subjectivo quanto
outros. Tentámos escolher dez livros marcantes que abrangessem vários temas
como religião, política, história, ciência, filosofia, educação, actualidade,
etc. O mal poderá não estar nos livros em si, mas no uso ou interpretação que
deles são feitos. Como se costuma dizer: «o perigo não vem de ler muitos livros,
mas de ler apenas um.»
Nota: vote
no seu(s) Livro Maldito «preferido», na coluna do lado direito do blogue.
Divirta-se!
1
- «Para os judeus (O Antigo Testamento)
e para os cristãos A Bíblia Sagrada
contém na íntegra a palavra de Deus.»
3 - «Este livro pode ser um poderoso antídoto para os que nunca leram nada que
não fosse mainstream; pode ser uma inspiração para os que procuram o caminho do
poder, do controlo, e de outras emoções que geralmente são reprimidas.»
4 - «Um
dos livros sobre política mais vendidos em todo o mundo. Um dos livros mais
terríveis alguma vez escritos. Com doze milhões de exemplares impressos na
Alemanha e centenas de milhar em mais de vinte países antes de 1945, Mein Kampf é vendido ainda hoje no mundo inteiro.»
5 - «Os comunistas rejeitam dissimular as suas perspectivas e propósitos.
Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrube
violento de toda a ordem social até aqui. Podem as classes dominantes tremer
ante uma revolução comunista! Nela os proletários nada têm a perder a não ser
as suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países,
uni-vos!»
6 - «Ao longo da sua carreira Maquiavel procurou
estabelecer um Estado capaz de resistir às ameaças exteriores. Os seus escritos
denotam a preocupação de criar princípios segundo os quais o Estado assenta e
os meios pelos quais ele possa ser indubitavelmente implementado e mantido. No
seu trabalho mais conhecido e famoso, O Príncipe, o autor descreve o método
pelo qual um príncipe pode adquirir e manter o poder político. Esta postura,
por vezes confundida como uma defesa do despotismo e tirania, é baseada nas
crenças de Maquiavel de que um governante não se rege pelas tradicionais normas
éticas.»
7 - «É apenas a minha autobiografia política. [...] falo sobre o que se passou comigo, a minha própria acção,
episódios em que participei, as minhas convicções e atitudes, como vi os
problemas, quais os sentimentos que me atravessaram»
Cavaco Silva
8 - «Charles Robert Darwin nasceu em 1809. O seu grande livro, Sobre a Origem das
Espécies por Meio de Selecção Natural, ou a Preservação das Variedades
Favorecidas na Luta pela Existência foi publicado em 1859, quando o autor tinha
cinquenta anos de idade. Considerado por
muitos religiosos fundamentalistas como um livro maldito.»
10 – «O maior
best-seller nesta área, Meu Filho Meu Tesouro tem sido e continua a ser um
livro fundamental para muitas gerações de pais. Aqui se incluem temas de grande «actualidade» como o papel do pai durante a gravidez e parto, os cuidados a ter
com o bebé, a amamentação, o divórcio, a custódia da criança, o problema das mães
solteiras, etc.»
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Passatempos
Quarta-feira, Janeiro 25
O eterno marido
- Tem o livro, O Eterno Marido, de Dostoiévski?
- Tenho sim. É para oferta?
- É para oferecer ao néscio do meu marido. E vai com dedicatória! Não sei se me faço entender!?... – Diz a senhora, sorrindo maliciosamente.
- Com certeza! – Digo eu, sem fazer mais perguntas.
Nota: para quem não leu o livro o «eterno marido» é aquele tipo de homem que por mais que seja enfeitado é sempre o último a saber.
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore
Nota: agradecemos à Ana Teresa Tavares o envio deste vídeo.
uma em mil II
- Queria o livro…
-
Sim…
- Não
Sei…
- Não sabe o quê?
- Não Sei!...
- Isso já eu sei que não sabe!
- Não, «Não Sei» é parte do título do livro!... Mas será que
o senhor sabe?
- Sei
lá!...
- Isso mesmo! Sei lá! de Margarida Rebelo Pinto.
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Pequenas estórias
Terça-feira, Janeiro 24
Um livreiro carente
- Dê-me um abraço.
- Não seja por isso… chegue p’ra cá as costelas.
- Oh, homem! Você está doido!?... Eu quero o Abraço do José Luís Peixoto.
- Porquê, o meu não serve?
- Porquê, o meu não serve?
é só mais uma?...
Setembro de 2007, abrimos
as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá
da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos
nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num
som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da
liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Nós
bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao
mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo,
ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de
outras paragens. Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez,
acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos
a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopin –
tan, tan, taran, tan, tanran, tan tan – «Quando é que chega o dia da
liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar».
Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias
de defunto vindas de outras paragens.
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livrarias e livreiros
Sexta-feira, Janeiro 20
como irritar um livreiro
Entra, fica especado, olha em
volta e pergunta:
- Isto é uma livraria? Queria 4 euros no euromilhões!
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Pequenas estórias
Pensamento do dia
Existe em determinados livros uma estupidez tão sincera que, melhor orientada, poderia multiplicar o número de obras-primas.
Livreiro anónimo a partir de um pensamento de E.M.Cioran
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Pensamento do dia
Quinta-feira, Janeiro 19
quebra-cabeças
De manhã a caminho da escola o Vi diz à mãe:
- Mãe!
- Sim…
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Pequenas estórias
A grande arte
«O
assassinato de duas prostitutas, no Rio de Janeiro, que, de início, parece obra
de um maníaco sexual, abre uma caixa de Pandora de onde vão brotando, no
decorrer de uma ação trepidante, as complexas ramificações de um tenebroso
sindicato do crime. A história passa-se em boîtes e bares sórdidos, em
sumptuosas mansões do Rio, em vilarejos da fronteira entre a Bolívia e o
Brasil, onde reinam a cocaína e o crime, bem como na interminável viagem de um
comboio que percorre metade do Brasil com couchettes que rangem sob o peso de
casais fazendo sexo.» Do posfácio de Mario Vargas Llosa.
Edição:
Sextante
Título:
A grande arte
Autor:
Rubem Fonseca
n.º
pág.:342
isbn:
9789720071514
pvp:
16.60€
Quarta-feira, Janeiro 18
Língua Morta
Chegaram ontem os livros da editora Língua Morta: na entrada, perto do balcão, a fazerem companhia às edições da &Etc. e uns passos mais à frente na mesa de poesia e a acompanhá-los vieram, o n.º5 e o n.º6 da Revista Criatura.
Leitores
O texto que se segue é do início do nosso blogue (Janeiro 2008) e não pretende fazer nenhum retrato fiel dos nossos clientes muito menos demonstrar da minha parte qualquer tipo de superioridade intelectual. É apenas uma caricatura das categorias ou características dos leitores, que eu com o tempo fui aprendendo a distinguir e, que todos nós temos numa altura ou outra, dependendo do nosso estado de espírito:
“O Decidido”- Entra na livraria vai direito ao livro que quer, paga e vai embora.
“O Indeciso”- Dá voltas e mais voltas pergunta por este e aquele título e acaba por sair sem levar nada.
“O Envergonhado” (Fala muito baixinho), - Eu queria “O Amor é ffsssdss…”do MEC – Desculpe! Importa-se de repetir. – Eu, queria “O Amor é ffsssdss…”do MEC – HÁ! “O AMOR É FODIDO” DE MIGUEL ESTEVES CARDOSO, já podia ter dito.
“O Altruísta”- Compra sempre livros de Esoterismo, Ocultismo, Bruxarias, Auto-ajuda e afins e é sempre para oferta.
“O Forreta” - Faz desconto com o cartão Continente?
“O Comichoso”- Dos vinte exemplares disponíveis, estão todos estragados, sujos, com riscos, dedadas. Chega mesmo a implicar com umas poucas folhas em branco num livro como O Céu Existe Mesmo!, (como se isso tivesse alguma importância).
“O Chato”- “L’emmerdeur”.
“O Distraído” - Queria um livro, não sei o título nem autor nem o editor, apenas sei que tem capa amarela.
“O Que Não Faz Ideia” - Por favor, eu desejava oferecer um livro para uma senhora de 50 anos. (Dar simplesmente a indicação da idade de uma pessoa que não se conhece, não é uma preciosa ajuda).
“O Ignorante”- Nesta “papelaria” tiram fotocópias?
“O Superficial” - Aquele Lusíadas que está na montra é de pele genuína? – Não, é Camões genuíno.
“O Coffee Table Book” Compra livros a metro e por cores.
“O Exibicionista”- Apresenta sempre o Cartão Platina e sistematicamente dá não autorizado.
“O Depravado”- Corta à socapa as fotografias do Kamasutra e deixa o texto.
“O Jornalista Invejoso”- Compra O Último Segredo de José Rodrigues dos Santos e faz questão de dizer bem alto que o livro não presta.
“O Salazarista” - Antigamente é que era! Agora, é só livros sobre Paneleiros, Fufas, Putas e Ladrões.
“O Neo-Nazi”- Por acaso tem o “Mein Kampf”, queria todos os exemplares que tiver.
“ O Que Parou no Tempo” - Camarada! Tem o “Manifesto do Partido Comunista" de Karl Marx.
“O Intelectual”- Pede sempre um autor que não há e nunca ninguém ouviu falar.
“O Erudito” - Queria a “Оδύσσεα” de Homero.
“O Bibliófilo” - Ando à procura da 1.ª edição “Cândido ou O Optimismo” de Voltaire, assinado pelo autor.
“O Editor” - Não acha que este livro merece estar na Montra?
“ O Autor” - Tem o livro…? - Tenho sim, quantos quer? – Nada, nada... é só para saber se tinha; obrigado.
“O Tradutor” - O “Hamlet” de Shakespeare, por favor, mas no original. É que em português é intragável!
“O Revisor” - Isto está cheio de gralhas.
“O Paginador”- Não se consegue ler esta mancha.
“O Gráfico”- Onde é que este livro foi feito? Descola-se todo!
“O Designer Gráfico”- Que capa pirosa… é só Photoshop.
“ Critico Literário” – Esse livro é uma merda!
“O Livreiro” – Em casa de ferreiro espeto de pau.
“O Decidido”- Entra na livraria vai direito ao livro que quer, paga e vai embora.
“O Indeciso”- Dá voltas e mais voltas pergunta por este e aquele título e acaba por sair sem levar nada.
“O Envergonhado” (Fala muito baixinho), - Eu queria “O Amor é ffsssdss…”do MEC – Desculpe! Importa-se de repetir. – Eu, queria “O Amor é ffsssdss…”do MEC – HÁ! “O AMOR É FODIDO” DE MIGUEL ESTEVES CARDOSO, já podia ter dito.
“O Altruísta”- Compra sempre livros de Esoterismo, Ocultismo, Bruxarias, Auto-ajuda e afins e é sempre para oferta.
“O Forreta” - Faz desconto com o cartão Continente?
“O Comichoso”- Dos vinte exemplares disponíveis, estão todos estragados, sujos, com riscos, dedadas. Chega mesmo a implicar com umas poucas folhas em branco num livro como O Céu Existe Mesmo!, (como se isso tivesse alguma importância).
“O Chato”- “L’emmerdeur”.
“O Distraído” - Queria um livro, não sei o título nem autor nem o editor, apenas sei que tem capa amarela.
“O Que Não Faz Ideia” - Por favor, eu desejava oferecer um livro para uma senhora de 50 anos. (Dar simplesmente a indicação da idade de uma pessoa que não se conhece, não é uma preciosa ajuda).
“O Ignorante”- Nesta “papelaria” tiram fotocópias?
“O Superficial” - Aquele Lusíadas que está na montra é de pele genuína? – Não, é Camões genuíno.
“O Coffee Table Book” Compra livros a metro e por cores.
“O Exibicionista”- Apresenta sempre o Cartão Platina e sistematicamente dá não autorizado.
“O Depravado”- Corta à socapa as fotografias do Kamasutra e deixa o texto.
“O Jornalista Invejoso”- Compra O Último Segredo de José Rodrigues dos Santos e faz questão de dizer bem alto que o livro não presta.
“O Salazarista” - Antigamente é que era! Agora, é só livros sobre Paneleiros, Fufas, Putas e Ladrões.
“O Neo-Nazi”- Por acaso tem o “Mein Kampf”, queria todos os exemplares que tiver.
“ O Que Parou no Tempo” - Camarada! Tem o “Manifesto do Partido Comunista" de Karl Marx.
“O Intelectual”- Pede sempre um autor que não há e nunca ninguém ouviu falar.
“O Erudito” - Queria a “Оδύσσεα” de Homero.
“O Bibliófilo” - Ando à procura da 1.ª edição “Cândido ou O Optimismo” de Voltaire, assinado pelo autor.
“O Editor” - Não acha que este livro merece estar na Montra?
“ O Autor” - Tem o livro…? - Tenho sim, quantos quer? – Nada, nada... é só para saber se tinha; obrigado.
“O Tradutor” - O “Hamlet” de Shakespeare, por favor, mas no original. É que em português é intragável!
“O Revisor” - Isto está cheio de gralhas.
“O Paginador”- Não se consegue ler esta mancha.
“O Gráfico”- Onde é que este livro foi feito? Descola-se todo!
“O Designer Gráfico”- Que capa pirosa… é só Photoshop.
“ Critico Literário” – Esse livro é uma merda!
“O Livreiro” – Em casa de ferreiro espeto de pau.
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Jaime Bulhosa
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Pequenas estórias
escolha!
Gosto quando os
livros pensam como os sábios, mas falam como falam as pessoas simples
livreiro anónimo a partir de uma frase de Aristóteles.
Sou por
vezes confrontado por amigo que me critica pela forma como vejo os livros e
me diz que sistematicamente faço uma apologia hipócrita da diferença que existe
entre os bons livros e os maus livros. Diz ele que isto tem que ver não com a
minha prática, mas sim com elitismo infundado. Considera que as
vantagens que eu defendo não fazem qualquer sentido, porque o que é bom para
mim não tem necessariamente de ser bom para ele, isto é, a diferença entre um
bom livro e um mau livro está sobretudo no leitor e não no livro em si, já que
é o nível de conhecimentos das pessoas que desencadeia a diferenciação. Uma
pessoa pode ter prazer com a leitura de um livro que é considerado mau por muita gente, e
nenhum prazer com um livro por outros considerado excelente. Tudo depende do
seu nível cultural.
Eu seria forçado a
concordar com este meu amigo, não fosse aquilo que nos separa em termos de
conceito, isto é, em termos das características que temos em conta para
classificar certos livros como bons e outros como maus. Para mim, a diferença não
está no grau de dificuldade da leitura nem no prazer que sentimos, pois isso sim depende mais, quase
sempre, do leitor do que do próprio livro; a diferença está na honestidade do
seu conteúdo. O que eu quero dizer é que um livro, como qualquer outro produto
cultural que se adquire, deve reger-se por padrões mínimos de qualidade e
credibilidade, independentemente do público a que se dirige. Deve ser original
(a menos que esteja expresso o contrário) e não deve conter erros (sejam de que
tipo forem), nem pode ser escrito de forma displicente, devendo acrescentar algo ao que já sabemos e evitar
transmitir ideias racistas, chauvinistas, homofóbicas, misóginas, etc.
Sou, no
entanto, forçado a concordar com o meu amigo quanto à ideia de que há pelo
menos quatro idênticas sensações experimentadas, quer quando lemos um bom livro
de que gostamos muito, quer quando lemos um mau livro de que não gostamos nada.
Quando lemos um bom livro de que gostamos muito, sentimos: ansiedade para chegarmos ao próximo
capítulo; angústia perante
a aproximação do fim; tristeza por
termos acabado a leitura e vazio por
sermos obrigados a deixá-lo. Quando lemos um mau livro sentimos: ansiedade perante
a perspectiva do próximo capítulo; angústia por
não querermos ver-lhe o fim; tristeza pelo
facto de o termos adquirido e, finalmente, a sensação de vazio que
ele nos causou.
Jaime Bulhosa
simples
Observa tudo à
sua volta, com o máximo de atenção. Parece deslumbrada, maravilhada, com o
ambiente da livraria, as estantes altas, negras, com milhares de livros todos direitinhos, classificados e arrumados
por ordem alfabética. Depois inspira o cheiro dos livros e os seus olhos brilham. Foca o livreiro e suspira:
- Ah!... Como eu gostava de ter uma
livraria!
O livreiro sente que tem à sua
frente uma pessoa delicada, sabedora e que gosta de livros.
- Porque razão pensa que ter
uma livraria é bom? – Pergunta o livreiro à espera de abrir uma boa conversa sobre
livros.
- Ora, Porquê!?... Porque não se
tem nada para fazer nem saber alguma coisa de especial. Basta que lhe peçam um
livro e você dá.
Terça-feira, Janeiro 17
Estrela do Mar
No Inverno impiedoso de 1847, de uma Irlanda dilacerada pela
justiça e pela calamidade natural, o Estrela-do-mar levanta ferro em direcção a
Nova Iorque. Levando a bordo centenas de refugiados à força, destacam-se entre
eles uma criada de servir que tem um segredo devastador, um Lorde Merridith
arruinado e sua família, um aspirante a romancista, um compositor de baladas
revolucionárias. Todos desafiando corajosamente o Atlântico em busca de um novo
lar. Todos mais intimamente ligados do que possam pensar. Mas um assassino
secreto vigia as cobertas do navio, procurando, faminto, a vingança que lhe
trará a absolvição.
A travessia de vinte e seis dias irá testemunhar o fim de muitas vidas e o
recomeçar de outras. Numa história fascinante de tragédia e remissão, quanto
mais o navio se aproxima da Terra Prometida mais os seus passageiros parecem
presos a um passado que nunca os libertará.
edição: Dom Quixote
título: Estrela do Mar
autor: Joseph O'connor
n.º pág: 640
isbn:9789722045346
pvp:25.00€
Segunda-feira, Janeiro 16
Cargo rendoso
Um cidadão comum apresentou-se ao chefe do governo e
pediu-lhe um cargo rendoso.
- E que cargo desejas tu?
- Gostava muito de ser um dos teus ministros. Por exemplo, Ministro do Petróleo.
- Do petróleo? Mas sabes muito bem que não temos petróleo?
- E lá por isso… Não há um ministro da justiça?
Nota: Contos e lendas emendadas.
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Pequenas estórias
Quinta-feira, Janeiro 12
um livro para...
A 30 de janeiro, realiza-se na Pó dos livros a primeira sessão de "um livro para...", com a coordenação de Andreia Brites. Em cada encontro divulgaremos e conversaremos sobre alguns livros infantis e juvenis, de acordo com o tema anunciado. Falaremos da qualidade dos livros, dos seus potenciais leitores preferenciais e de como os adultos poderão mediar a leitura. Os temas não se esgotam nestes encontros, com eles pretendemos apenas abrir caminho aos mediadores que tantas vezes se questionam se aquele é o melhor livro para as suas crianças..
As sessões realizam-se quinzenalmente, às segundas-feiras, em horário pós-laboral, das 19h30 às 21h00.
As primeiras quatro sessões:
Os medos - 30/janeiro
A familia e os conflitos - 13/fevereiro
Contar e recontar contos tradicionais - 27/fevereiro
Ler livros sem texto - 12/março
Destinatários: adultos mediadores (pais, professores, educadores, animadores).
As sessões são autónomas, pelo que os participantes podem inscrever-se naquelas que lhes despertem mais interesse. Preço de cada sessão 10.00€, conjunto das 4 sessões 35.00€. Para se inscrever contacte-nos pelo telefone 217959339 ou por mail podoslivros@sapo.pt. (Número mínimo de participantes: 5)
Andreia Brites
Nasceu em Lisboa em 1977. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela FCSH, Universidade Nova de Lisboa e tem um mestrado em Teoria da Literatura pela mesma faculdade. É Mediadora da Leitura, concebendo e realizando acções de promoção da leitura para adolescentes, professores e pais em Bibliotecas Municipais e Escolas, desde 2004. Colabora com a revista Os meus livros, na área da Poesia e da Literatura Infantil e Juvenil Mantém com Sérgio Letria o blogue O Bicho dos Livros, sobre promoção da leitura e livros infantis e juvenis. Tem habilitações próprias para a docência e dá formação certificada pelo Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua na área da leitura.
Quarta-feira, Janeiro 11
imaginação
Quando se é criança a imaginação
explode atravessa a atmosfera passa pela lua, vénus, mercúrio e chega ao sol
onde se espalha à velocidade da luz pelo universo infinito. Mas o que é isso
para um super-herói? Quando chegamos a adultos, com amargos de boca, percebemos
que já não podemos ser super-heróis, mas a imaginação não tem que acabar se a formos
buscar aqui:
Nota: agradeço à Malu que está do outro lado do Atlântico, onde se vê o Cruzeiro do Sul e que me fez chegar este vídeo.
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Filmes
Terça-feira, Janeiro 10
missiva
Recebemos uma missiva vinda da Grécia, escrita à mão num
postal, dentro de uma carta (dá para acreditar?):
Atenas, 30 de Dezembro 2011
Salve!
Já que tenho amigos
que dizem que, sem mim, os correios não sobrevivem, que tenha o proveito!
Além disso, quantas
missivas chegam, hoje em dia, que não sejam contas para pagar? Vivam, pois, os
resistentes!
Os rumores da crise
deram origem a um texto, pretexto para a missiva, já que menciona a Pó dos
Livros, que assim mata dois coelhos com um só selo: nisto não sou original, mas
tenho esta impressão que a espécie humana mais rapidamente se queixa do que
honra. Ora, as coisas boas são para se dizer!
Bom ano! Longa vida!
RM
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pó dos livros
livreiro psicólogo
- Quero um livro que me explique por que é que a minha filha
me odeia.
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Pequenas estórias
Portugal Contemporâneo

(clique na imagem)
Realizar-se-á mensalmente, na livraria Pó dos Livros, o seminário Portugal Contemporâneo: estudos históricos comentados.
Coordenação: Paula Borges Santos
Entrada Livre
Dia 11 de Janeiro
6.ª sessão
Pelas 14.30 horas:
Heterodoxia e reformismo na igreja portuguesa: a acção política de Frei Manuel de Santa Inês (1833-1840)
Por: José António Oliveira, comentário de Vítor Neto
Por: José António Oliveira, comentário de Vítor Neto
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Eventos
Segunda-feira, Janeiro 9
Anti-Top 2011
1.º - O
Retorno, Dulce Maria Cardoso, Tinta-da-china
2.º - O
Cemitério de Praga. Umberto Eco, Gradiva
3.º -
Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares, Caminho
4.º - O Pauzinho do Matrimónio, Anónimo, Tinta-da-china
5.º - Lisboa
a Pé e a Pedais, A.A.V.V., Lisbon Walker
6.º -
Um Político Assume-se, Mário Soares, Temas e Debates
7.º - Abraço,
José Luís Peixoto, Quetzal
8.º -
Indignai-vos!, Stéphane Hessel, Objectiva
9.º - Clarabóia,
José Saramago, Caminho
10.º - A
Noite das Mulheres Cantoras, Lídia Jorge, Dom Quixote
Nota: Este é o Top Livro da Pó dos Livros
referente ao ano de 2011. Reparámos que o livro mais vendido em Portugal, O Céu Existe Mesmo, editado pela Lua de
Papel, não se encontra no nosso Top 10.
De acordo com os dados da GfK e da editora: «O Céu Existe Mesmo, de Todd Burpo e
Lynn Vincent (edição Lua de Papel / Grupo Leya), foi o título mais vendido em
Portugal no ano de 2011. Com 18 edições,
para um total de 135 000 exemplares colocados no mercado, a obra de não ficção [não ficção!?... então é o quê, ensaio!?...] foi a mais vendida em termos absolutos, superando mesmo o mais vendido dos
romances. Do mesmo livro houve ainda uma edição especial limitada de Natal (em
capa dura), elevando para 140 000 exemplares o número de livros absorvidos pelos
pontos de venda.»
Estranhamente, ou não,
conclui-se daqui que os nossos clientes ou são diferentes dos outros ou são
pouco crentes ou são desconfiados. Como é possível terem passado ao lado de um livro que, segundo palavras da própria editora, é «sobre a história real do
menino que esteve no céu». Ouviram? Real! Verdade, verdadinha que Colton Burpo
tinha quatro anos quando foi operado de urgência e, meses mais tarde, começou a
falar daquelas breves horas em que esteve entre a vida e a morte, e da sua
extraordinária visita ao céu (ups! visita ao céu!?...). Toda esta história
começou numa viagem com a família, onde o pequeno Colton, sentado na sua
cadeirinha no banco de trás do carro, começou a falar sobre anjos que o tinham
visitado (ai, ai... visita de anjos!?...) durante a operação à apendicite aguda, enquanto os pais rezavam por ele. O pai, sacerdote, nem queria acreditar… Hum!… pai
sacerdote!?... Não queria acreditar!?...
Já vendeu 5 milhões, só nos Estados Unidos! Bem… é melhor ficar por
aqui.
Jaime Bulhosa
Jaime Bulhosa
Sexta-feira, Janeiro 6
?
Os políticos são pessoas que acreditam que o governo não funciona e conseguem ser eleitos para provar isso mesmo.
livreiro anónimo a partir de uma frase de P.J. O’Rourke
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Pensamento do dia
Bom ano para vocês também
Recebi uma carta das finanças a desejarem-me bom ano e adstrita à mensagem uma simpática coima para pagar. Hoje sinto-me tão...
livreiro anónimo
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Opinião
Começar bem o dia
De manhã bem cedo para começar bem o dia:
- Bom dia. Tem compêndios?
- Hum!… - isto é som de um livreiro a pensar – Desculpe, compêndio de?...
- Compêndio de livros, o que havia de ser!?... Ah! e já
agora, também queria O Principezinho,
versão para adultos.
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Pequenas estórias
Quinta-feira, Janeiro 5
As coisas hão-de resolver-se
As coisas hão-de resolver-se.
Refrão auto-enganador do
senhor Micawber em David Copperfeld
Notícia, do dia 4 de Janeiro de
2012, do jornal Público: «O editor da Teorema e a editora da Estrela Polar, assim como os dois gestores de marca, o da Dom Quixote e o da Asa, estão entre as mais de 30 pessoas de diversos sectores que o grupo editorial Leya está a despedir desde terça-feira, no Porto e em Lisboa, alegando extinção de postos de trabalho. O grupo, durante este ano, irá criar 80 novos postos de trabalho em Portugal na área de produção de conteúdos digitais e de ensino à distância, e vai apostar no Brasil aumentando o número de funcionários até 700.»
Se dissesse
que estou surpreendido com esta notícia, estaria a mentir. Não estou nada
surpreendido. O Grupo editorial Leya não está a fazer nada que outros grandes
grupos económicos portugueses não estejam já a fazer. É o «capitalismo
democrático»: O capitalismo democrático é
um sistema concebido para a sobrevivência. Adaptou-se com “sucesso” a todos os choques
e sortes, a perturbações tecnológicas e económicas, a revoluções políticas e a
guerras mundiais, O capitalismo foi capaz disto porque, ao contrário do
comunismo, do socialismo ou do feudalismo possui uma dinâmica interna
semelhante à de um organismo vivo. Consegue adaptar-se e aperfeiçoar-se
reagindo ao ambiente em
mudança. E evolui para uma nova espécie dentro do mesmo
género se isso for necessário para sua sobrevivência.
De facto
parece um organismo vivo, mas que se assemelha muito mais, a meu ver, a um
organismo irracional, uma gigantesca bactéria que pode ser benigna ou maligna,
mas que de certeza absoluta, é desprovida de qualquer objectivo ou emoção a não
ser a sua própria sobrevivência.
Não me
interessa, neste momento, abordar as consequências e o impacto que o
despedimento de editores e colaboradores experientes, com provas dadas no
mercado, terão nas políticas editoriais e nos catálogos das editoras – agora
chancelas do grupo Leya –, com um historial importante na edição de livros de
qualidade, elas parecem-me óbvias. Não tenho respostas para dar, apenas tenho
perguntas para fazer. Interessa-me perceber o porquê disto. O que vai
acontecer a estas pessoas? Qual vai ser o seu futuro? Porque é que estas
pessoas de repente deixaram de ser competentes e não podem ser recolocadas
noutros sectores? Porque é que uma empresa que factura, segundo o jornal
Público, 90 milhões de euros, necessita tanto de reduzir despesas? Porque é que
se desiste e se abandona este país?
Algumas das 30
pessoas que foram despedidas, e acredito que muitas mais se seguirão, conheço e
trabalhei com elas directamente e não posso deixar de me preocupar com o seu
futuro.
Tudo isto me
faz lembrar um pequeno conto de Dostoiévski que li, não me recordo do título, que era mais ou menos assim: Um sujeito que tinha acabado de assistir a
um funeral, de alguém que não conhecia, deixou-se ficar pelo cemitério, depois de
toda a gente o ter abandonado, para poder reflectir um pouco sobre a vida e a morte. Foi então que de
repente começou a ouvir vozes. As vozes vinham dos habitantes do cemitério, ou
seja, dos próprios mortos. Os mortos, sem darem conta da presença do sujeito,
começam a conversar entre si. Para espanto do observador vivo, os mortos
revelam, nas suas conversas, todos os vícios, defeitos, invejas, ambições,
sentimentos e emoções dos vivos, só que de uma forma muito mais exacerbada. Conclusão,
os mortos revelam-se muito piores que os vivos.
Será que este
país está morto e ainda não demos por isso?
Jaime Bulhosa
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Livreiros e Editores,
Opinião
Quarta-feira, Janeiro 4
o risível
Quando o risível se fica pelo romance ou literatura ainda nos podemos salvar. Agora, se chega aos políticos, à economia ou à governação, estamos perdidos!
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Pensamento do dia
Terça-feira, Janeiro 3
Incompletas
Algumas grandes obras da literatura, anglo-saxónica,
deixadas incompletas pela visita intempestiva da morte:
The Mystery of Edwin Drood, Charles Dickens
Dom Juan, Lord Byron
Denis Duval, William Makepeace Thackeray
Answered Prayers, Truman Capote
The Autobiography of Bejamin Franklin
The Landleaguers, Antony
Trollope
Wives and Daughters, Elizabeth Gaskell
The Last Tycoon, F. Scott Fitzgerald
Sanditon, Jane Austen
Islands in the Stream, Ernest Hemingway
Conclui-se com isto que a «morte» é um péssimo crítico literário.
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curiosidades
Sexta-feira, Dezembro 30
Não penses...
Leio porque posso. Leio porque
sou livreiro. Leio porque me dá prazer. Leio porque me enriquece. Leio porque a
leitura me ajuda a passar os momentos de solidão. Mas leio sobretudo porque
busco um sentido para a vida: O que é o bem? O que é o mal? Quantas coisas
belas encontrei nos livros, a arte, a música, a amizade, o amor… No entanto, em
tudo o que li, na ciência, na religião, na metafísica, na literatura, nunca
encontrei uma resposta satisfatória para as perguntas: O que sou? Para que vivo
eu? Como o devo fazer? O que é o mundo? Ou seja, «a causa primeira». Aliás, cada
vez que as sumidades o tentam fazer, parece-me tão intricado, complexo, confuso,
misturado, que as respostas se tornam absurdas. Dá-me a sensação de que todos
falam ao mesmo tempo, muitas vezes, apoiando-se e louvando-se reciprocamente
para que em ricochete, também os apoiem e os louvem; outras vezes irritando-se
tentam gritar mais alto do que os outros – tal como num manicómio. Penso muitas
vezes para mim: se não podes compreender
o sentido da vida, então não penses, vive.
É, por vezes, nas coisas mais
simples – digo simples, não básicas, não são necessariamente sinónimos – onde
podemos descobrir as melhores explicações para a vida. Foi precisamente dentro
de um livro, a Confissão, de Lev
Tolstói, que encontrei uma pequena parábola – pequenas fábulas que tanto
aprecio –, com milhares de anos, do tempo ainda dos rolos do Pentateuco, e que
me parece exemplar para a explicação de como é a vida. Infelizmente, também ela não
explica «o porquê da vida», e tenho a ligeira suspeita de que, em toda a
sabedoria humana, não a vou encontrar:
Era uma vez um viajante apanhado na estepe por uma fera enfurecida. Tentando
salvar-se da fera, o viajante saltou para um poço seco, mas viu no fundo um
dragão que abriu as goelas para o devorar. O desgraçado não se atrevia a saltar
para o fundo do poço para ser devorado pelo dragão; então, agarrou-se aos ramos
de um arbusto bravo que crescia nas fissuras do poço e ficou suspenso. As suas
mãos estavam a fraquejar e sentia que em breve tinha de entregar-se à morte que
o esperava dos dois lados; mas continuava a agarrar-se e, enquanto teve forças
para isso, olhou em volta e viu que dois ratos, um branco e outro preto,
andavam em redor do tronco do seu arbusto, roendo-o de todos os lados. A
qualquer momento o arbusto ia quebrar-se e o viajante cairia nas goelas do dragão.
O viajante via-o e sabia que a sua morte era iminente, mas, enquanto ainda
pendia dos ramos, procurou à sua volta, encontrou nas folhas do arbusto gotas
de mel, chegou a elas com a língua e pôs-se a lambê-las.
Bom ano novo.
Jaime Bulhosa
Olímpio Ferreira
Faz hoje quatro anos que deixou de estar entre nós Olímpio Ferreira, um dos melhores livreiros que conheci. Foi muitas outras coisas, mas sempre, e em todo lado, exemplar enquanto homem, amigo e colega.Jaime Bulhosa
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Livreiros e Editores
Quarta-feira, Dezembro 28
Pobre poeta
Sou
um poeta… artista. Tenho a certeza que o sou. Li todos os grandes poetas e não
me considero inferior. Falta-me um golpe de sorte, alguém com sensibilidade
capaz de entender a minha poesia. Das sete artes aquela a que me dedico com
maior paixão e ardência. Caminho sem ter noção do tempo. Uma perna a seguir a
outra. De olhos no chão, esbarro constantemente contra os outros transeuntes, distraído
com os meus pensamentos. Os poemas de amor estão-me constantemente a latejar no
cérebro, a imaginação flui e à minha musa, ao meu amor, à minha Rosa, os quero
dedicar plenamente. Ser feliz é viver
morto de paixão.*1
Não
sei que raio de azar é o meu, por infortúnio ou destino, a verdade é que até
hoje nenhum editor reparou em
mim. Não sou jovem, longe disso, tenho quase quarenta anos e
uma vida inteira consagrada à poesia, tirando o tempo que passo no escritório a
tirar fotocópias. Sem poesia não há amor e com o amor a poesia nasce naturalmente.
É pela palavra que o bem-querer deve ser demonstrado. Não desisto. A
responsabilidade de vencer e de não errar é para com aqueles que amamos. Escrevi
uns livros, edições de autor, bem sei… talvez não seja bastante… talvez não
chegue a imortal com pequenas edições de autor... Mas quantos homens deixaram
maior marca do que aquela que deixa uma gota de chuva no meio de um oceano? E o
que é o reconhecimento público comparado com o sorriso do meu amor quando lhe
atinjo o coração pelo ouvido? O homem que vive na indiferença é aquele que não
ama. Uma vez que o meu coração está vivo, viverei mais que o suficiente: Amo como ama o amor.
Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga,
além de que te amo, se o que quero dizer é que te amo? *2
Tu já tinhas um nome, e eu não
sei
Se eras fonte ou brisa ou mar ou
flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.
*3
Cheguei.
Encontro-me em frente da livraria Balzac, onde deixei o meu livro. Pergunto-me:
porque que será que as livrarias têm quase sempre nomes de escritores ou
apelidos de família? Não deveriam ter nomes mais poéticos?
Entro
na livraria, parece mais um alfarrabista do que uma livraria, cheia de livros
velhos e com pó e as estantes com caruncho. Ora, aqui está um bom nome para uma
livraria. Ah, a minha veia poética! Um dia alguém ainda se lembrará de dar o
nome Pó dos Livros a uma livraria.
Sou
recebido, de imediato, pelo livreiro sisudo. Dá-me a sensação de que já não se
recorda de mim. Cumprimento-o:
-
Bom dia. Não se lembra de mim?
-
Bom dia. Não… desculpe mas não. Em que posso ser-lhe útil?
-
Eu sou autor de um livro. Há uns meses deixei, nesta livraria, uns exemplares à
consignação. Gostaria de saber quantos exemplares já se venderam?
-
Como se chama?
-
O meu nome ou o pseudónimo? É que tenho vários.
-
Não, referia-me só ao título do livro.
-
Ah! O título do livro é Sentimento
Inescrutável.
O
livreiro fez um ligeiro esgar, talvez reconhecendo em mim um estereótipo e
observa:
-
Deixe-me adivinhar: é poesia?
-
Sim, é uma dedicatória ao amor. – Digo com orgulho.
De
seguida, o livreiro pesquisa no computador em busca do título do livro e num
instante:
-
Aqui está! Infelizmente, não se vendeu nenhum e, mantêm-se os seis exemplares
que cá deixou. Quer que os devolva?
Fiquei surpreendido com a resposta. Não por não ter vendido nenhum, já estava
acostumado. O eco que um livro de poesia provoca, num mundo de ignorantes
insensíveis, não é maior do que aquele que uma pena provoca quando cai do cimo
de uma montanha. Contudo, não podia ser… tinha de haver algum engano. Sem
perder tempo, cabisbaixo, esclareço:
-
Não, deixe-os estar, pode ser que um dia lhes dêem valor. Todavia, deve haver
algum equívoco, eu apenas deixei cinco exemplares.
O
livreiro encolhe os ombros. Parecia habituado a estas situações.
-
Vamos confirmar. E voltando-se para o colega no fundo da
livraria, onde se encontravam, menosprezados, os livros de poesia, pergunta-lhe:
-
António! Vê aí, por favor, na secção de poesia quantos exemplares temos do
livro, Sentimento Inescrutável?
A
procura não foi fácil, o segundo livreiro não fazia a mínima ideia onde poderiam
estar os meus livros. Percorreu todas as estantes da secção de poesia e nada…
ao fim de alguns minutos confrangedores, escondidos por detrás de outros
livros, longe da vista de qualquer apreciador de boa poesia, lá os encontrou:
-
Seis exemplares. – Disse.
-
Meu caro senhor, confirma-se.
Novamente
fiquei incrédulo.
-
Não pode ser… de maneira nenhuma! Reforço, tenho a certeza de que só deixei
cinco exemplares.
O
livreiro, agora mais afável, mais humano, como se estivesse com pena de mim,
diz:
-
Desculpe, não leve a mal, mas provavelmente alguém veio aqui deixá-lo ou
trocá-lo por outro. Quem sabe!?... É mais comum do que possa pensar.
Eu
sabia que não era um poeta famoso. No entanto, achei estranho, ofensivo, que
alguém pudesse, depois de ler o meu livro, abandoná-lo numa qualquer livraria.
Afinal de contas tratava-se de um livro sobre o verdadeiro amor, poesia, a arte
suprema. Só podia ter sido alguém sem o mínimo de sensibilidade, iletrado,
bruto. Enquanto pensava nisto, do fundo da livraria o outro livreiro
interrompe:
-
Temos aqui um exemplar dedicado pelo próprio autor!
De
impulso viro a cabeça, curioso, e digo expectante com o peito vazio:
-
E o que diz, homem!?... O que diz?
E
oiço, enquanto era levado pelas vagas de um tsunami:
-
Para a Rosa, rainha de todas as flores,
de aromas de concupiscências mil. Para o meu amor, porque sem ti não teria sido
possível escrever este livro (…).
*1 – Vinicius de Morais
*2 – Fernando Pessoa
*3 – Madrigal, Eugénio de Andrade
Jaime Bulhosa
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Pequenas estórias
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