terça-feira, janeiro 22

Uma crise (meramente) literária?

Li este artigo do Pedro Rolo Duarte e, pergunto-me como estará tão bem informado em relação aos números do mercado editorial e livreiro? Se nós que estamos no mercado, não o sabemos.
“530 milhões de euros em livros vendidos” parece-me demasiado, mas se pensarmos bem, este valor não é assim tanto quanto isso. Em termos de comparação apenas dá para construir 1/6 do futuro aeroporto de Lisboa, de acordo com os números veiculados pela imprensa.
Se fizermos uma conta simples a uma média de 15 euros por livro, resulta em 35.333.333 milhões de livros vendidos em 2006. O que daria uma média aproximada de 3,5 livros por habitante (é extraordinário), a ser verdade devemos ser o país que mais lê na Europa.
O que é isso do "Break-even médio", que eu saiba depende muito do livro e da tiragem. O PRD não faz ideia da dificuldade que é para a maioria dos editores e autores (alguns muito bons) vender metade de 2000 exemplares por volume. Aconselho-o a abrir uma editora, já que é tão fácil ganhar dinheiro.
Quanto aos editores e livreiros, “porque lhes está na massa do sangue a queixa e a lamúria”, como parece sugerir o autor do artigo, devem ser uns chupistas que apenas querem viver à conta do trabalho dos autores.
Também, Pedro Rolo Duarte diz: “Queixam-se os autores, mas só aqueles que vendem pouco (infelizmente a maioria)”. Pergunto, o mesmo não se aplica aos autores e a ele próprio enquanto autor? a estes já não lhes está na massa do sangue.
E se a maioria não vende, como se vende tanto?
Jaime Bulhosa

Um comentário:

PRD disse...

Caro Jaime, tinha reparado no seu comentário no meu blog mas ainda não tinha lido este seu post. Devo informá-lo que os dados que forneci no meu texto foram retirados de um estudo da consultora económica espanhola DBK, textos publicados pelo editor Nelson de Matos e relatórios da APEL (Ass Portuguesa de Editores e Livreiros). Além, obviamente, do meu conhecimento de facto como autor de 4 livros publicados pela Oficina do Livro e enquanto jornalista no activo há 25 anos. Eu sou daqueles que vende um pouco mais de 2000, mas muito menos de 7 mil. E o que disse resulta da minha opinião. Acho no fundo, e afinal, que o negócio dos livros é tão bom como outro qualquer, tão lucrativo como outro qualquer, e tão apetecível como outro qualquer. Você é a prova provada disso - se o negócio fosse mau, não teria tido a coragem de abrir uma livraria independente (e excelente, já tive ocasião de a visitar), a Bulhosa não teria sido vendida pelo preço que foi e etc, etc, etc... Na massa do sangue de todos nós, portugueses, está a queixa, a lamuria e o agoiro. No meu texto distribui o mal pelas aldeias entre livreiros, autores, editores e críticos. Mas no fundo todos nos queixamos de forma profissional e diária. Mas lá vamos andando, não é verdade? E digo-lhe mais, só para rematar: um dos meus sonhos é fazer mesmo uma editora. Se ainda a não fiz foi porque acho que os bons projectos se fazem em equipa - e ainda não consegui reunir sócios com a mesma vontade e coragem. Um dia destes, quem sabe...
Um abraço
Pedro Rolo Duarte