sexta-feira, fevereiro 29

29 de Fevereiro

Iraida Icaza

Mãe porque é que Fevereiro é mais pequeno? E porque é que há anos bissextos?
Reúno na memória os fragmentos de explicação, a resposta parece ter bastado à Carolina e enquanto conduzo por entre o caos do trânsito decido que quando chegar a casa vou reler o capítulo de “Os Descobridores”, onde Daniel J. Boorstin relata a criação do Calendário Gregoriano que hoje utilizamos. Entretanto, resmungo com o tempo perdido nos engarrafamento e vou pensando que realmente o Tempo é uma descoberta fascinante. Mais resmungos com o desperdício de tempo nas voltas à procura de lugar para estacionar, enquanto cogito na impossível vastidão da ideia de Tempo e no inevitável intrincado entre a ciência do Universo e a ciência do Homem. E como os pensamentos ainda se parecem mais com as cerejas do que as conversas, vou parar a António Gedeão.



Tempo de poesia

Todo o tempo é de poesia
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram,
Corolas que se desdobram,
Corpos que em sangue soçobram,
Vidas qu'a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão
in Obra Poética, Edições João Sá da Costa, 2001
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Nota: O livro “Os Descobridores” de Daniel J. Boorstin, editado pela Gradiva, infelizmente encontra-se esgotado.



Isabel Nogueira

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