sexta-feira, fevereiro 22

…anda cá a baixo ver isto!


Não resisto a transcrever alguns trechos deste livro que encontrei: “O Amor Puro”, Doutor Georges Surbled, Editora Educação Nacional, 1943. Uma verdadeira relíquia, uma pérola do pensamento filosófico contemporâneo, diria mesmo mais: este senhor doutor é uma verdadeira “máquina de lavar” e higienizar a moral e os costumes. Começa assim:


Advertência

“Este livro não foi escrito para crianças, nem para rapazes e, ainda menos, para raparigas. Destina-se exclusivamente aos jovens casados, aos país e mães de família, às pessoas sérias e ponderadas que se preocupam com questões sociais e procuram entravar o movimento de decadência que nos arrasta para o abismo. A sua finalidade não é divertir, mas sim instruir e moralizar estabelecendo a verdadeira noção do amor…!

“A Castidade, a que os viciosos têm horror, de que o mundo tem medo, impõe-se à nossa vontade, faz a nossa força e a nossa honra. É a lei superior da religião, a que nos leva acima do mundo e das suas vis paixões e nos permite completar o nosso incomparável destino”

A Questão do amor

“Quem quer que tu sejas, eis o teu Senhor! É, foi ou não há-de sê-lo!”

“É nestes termos que Voltaire nos apresenta o amor, e é preciso confessar que, pela primeira vez, o cínico mentiroso, o velho patife de século XVIII tem a vantagem de não se enganar nem nos enganar. O escritor espiritual mostra-nos à evidência, com uma cega e violenta inclinação para a carne, o coração com tendência para o baixo prazer e a volúpia. A concupiscência não se separa da nossa ínfima natureza, e cedo ou tarde sofremos os seus assaltos insidiosos.”

Os nossos pais, que valiam moralmente mais do que nós, não usavam esses escrúpulos (está a falar dos escrúpulos de quem sentia vergonha da castidade) e tinham muita razão. Nos velhos tempos, a castidade era uma honra e dava ao amor o seu preço e toda a sua elevação. O casamento era respeitado, honrado, e a admirável descendência que dele resultava era suficiente para testemunhar que os pais compreendiam e praticavam nobremente o seu dever.”

“Antigamente, sob governos de autoridade e ordem moral – «longe estamos desse tempo» – a imprensa e publicidade de todo o género eram vigiados, O governo considerava um dever suster na passagem tudo o que ofendia o pudor. Havia uma censura e juízes. A criança era respeitada e salvaguarda. O olhar não era a cada passo ofuscado, perturbado pelas piores insânias….Não acontece o mesmo hoje. Toda a liberdade é dada ao vício, e as acções obscenas estendem-se vitoriosamente por toda a parte, na rua nas vitrinas dos quiosques e livrarias, no teatro, na imprensa, nos livros. Não se contentam em multiplicar as excitações à devassidão, ousam ainda apresentá-la como cientifica e razoável….”

“O amor é uma necessidade orgânica, inerente à nossa natureza, da qual faz parte. É uma verdade a reter. Mas – fixemos bem este ponto essencial – é uma necessidade especial, a nenhuma outra igual, e que como tal deve ser encarada à luz da razão e da ciência.”

“O santo Bispo de Génova propõe aos esposos como exemplo e modelo «um grande animal, digno, sensato, honesto», o elefante «que só tem relações com a fêmea de três em três anos, e por cinco dias somente», que o faz em segredo e nunca falta ao rio onde se lava e purifica.”

… e continua… blá blá blá blá blá blá…(não há pachorra, o que me impressiona é de que não foi há assim há tanto tempo… E quando envereda e justifica as suas teorias pela religião, credo! Minha Nossa Senhora Mãe de Cristo, Pai do Céu, consegue ser mais papista que o Papa. Foi em senhores como este que Ambrose Bierse se inspirou nesta conversa entre Deus e Satanás:

“Um dos erros lamentáveis do criador, penitenciando no saco e na cinza. Após ter recebido a categoria de arcanjo, Satanás tornou-se muito desagradável, acabando por ser expulso do Paraíso. A meio caminho da sua queda, parou para pensar durante um momento e voltou atrás:

“Há um favor que eu gostaria de pedir”, disse ele.

“Qual é”

“Segundo julgo saber, o Homem vai ser criado brevemente. E vai precisar de leis.”

O que dizes, malvado! Tu, o seu adversário de eleição, que tens como destino odiar a sua alma desde a aurora da eternidade – tu queres ter o direito de fazer as suas leis?”

“Peço perdão; o que eu quero é que possa ser ele próprio a fazê-las.”

E assim foi ordenado.

Jaime Bulhosa

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