quarta-feira, fevereiro 20

Relato de um jovem leitor, do futuro próximo.

Comprei um e-book, estou desejoso para ler o clássico de que os meus pais tanto me falaram, “As Benevolentes”, parece que é sobre os horrores de uma guerra, do tempo em que os meus bisavôs nasceram. O meu e-book é daqueles falantes e com acesso à Internet. . Quando penso nos meus avós: coitados, não sei como conseguiam ler em papel. Uma vez contaram-me que lambiam os dedos para conseguir passar as folhas, imagine-se! Liguei o áudio, não gostei da voz, tanto na versão feminina como na masculina. Optei por simplesmente ler eu mesmo, e em português. Que maravilha: basta carregar num botão e a página passa sozinha, nada de lambidelas. Deparei-me com algumas palavras de que não sabia o significado, decidi aproveitar as vantagens do aparelho e entrei no dicionário. Digitei a palavra e… mensagem: “Não foi encontrada essa referência”. Sem desesperos, fiz link para a Wikipédia. Quando dei por mim, tinha perdido mais de meia hora de leitura, depois de ter entrado em mais de dois links por palavra consultada. Simplesmente, levantei-me do sofá e fui ao dicionário de papel do meu avô: felizmente não tem links. Mais tarde instalei-me confortavelmente no café a ler o e-book. Cheguei ao décimo capítulo num instante, quando de repente o aparelho fez um “bip” e enviou nova mensagem: “Por favor, carregue a bateria dentro de 5 minutos”. Como estava entusiasmado com a leitura, fui a correr para casa, pois não tinha trazido comigo o carregador. Ao chegar, liguei o aparelho, e nada… fiz reset, nada… completamente morto. Bem, fui ao computador tentar saber como resolver o problema. Entrei na página correspondente, fiz a pesquisa por resolução de problemas, e encontrei: “No caso de o seu aparelho encravar, faça reset. Se mesmo assim não funcionar, dirija-se à nossa loja e peça assistência”. Com muita paciência, lá fui eu à loja. Foram impecáveis, disseram-me que o problema estaria resolvido em 24 horas, como costumava dizer o meu avô: porreiro pá! No outro dia, todo contente, liguei o aparelho e procurei o ficheiro “As Benevolentes” e… mensagem: “Não foi encontrado esse ficheiro”. Não acredito! A assistência, por engano, tinha apagado o ficheiro. Enervado, sem querer, deixo cair o e-book ao chão. Está decidido, vou à loja de velharias “Pó dos Livros” aqui em frente, ver se encontro a versão em papel.
-----
Jaime Bulhosa

3 comentários:

εïзNine Copettiεïз disse...

Pois esse jovem leitor merece aplausos!!!! A partir do momento em que se dá conta da riqueza que está em ler nas "folhas de papel", é como encontrar o grande segredo da alma!!! É único. Não troco meus livros... mesmo os que estão com muito pó (são os melhores), por nada neste mundo! Viva os livros de papel, de verdade!!!
Gostei muito desse texto. Abraços!

Borges disse...

Bonito texto... nao imagino uma estante de livros substituida por uma de cd's com os ficheiros dos livros... (esperem, vem aí uma náusea...

Hugo Sousa disse...

"As Benevolentes" não é só um livro sobre a guerra nem só um livro sobre os comportamentos Nazi, é também a força e a constante tentativa de exposição da sensação humana. Estou quase a meio e permito-me dizer: Muito Bom.

Já agora:
http://cafedatertulia.blogspot.com ;
http://poesiahugo.blogspot.com