quinta-feira, março 6

Já fazia falta no blog um tema como este.

Existe um tema do qual ainda não falei aqui no blogue: o futebol, fonte de novas correntes literárias. Estão a pensar: o que é que o futebol tem a ver com os livros? Tudo. Escrevem-se livros com verdadeiras teorias filosóficas, económicas, sociológicas, psicológicas, acerca do jogo e das suas diversas aplicações para a vida prática. Para além disso, existem prosas extraordinárias sobre apenas uma jogada, sobre apenas um movimento técnico, e nasce através do seu vocabulário próprio um novo léxico.
Nada está mais na moda entre a intelectualidade nacional, do que o futebol. Basta observar com atenção aquilo que se leva para ler no estádio enquanto se espera. Dantes, levava-se os jornais desportivos, a Bola, o Record. Hoje não! É comum ver-se um Dostoievski, um Philip Roth, um W.G. Sebald na mão dos espectadores, e os aparelhos de rádio que se leva para ouvir o relato têm por trás um locutor com um discurso altamente erudito que, para gente comum como eu, é difícil de perceber.

O nível do público mudou. Eu, por exemplo, já fui ver o Benfica acompanhado não por um mas por dois intelectuais, verdadeiros intelectuais, daqueles que vivem do que pensam e escrevem livros a sério. Pois bem, esta alteração nos frequentadores dos estádios de futebol, sobretudo nos estádios do centro e do sul do país, e não nos do norte (deve ser por isso que eles ganham), levou a uma alteração substancial nos insultos inteiramente necessários ao espectáculo. Hoje já não se chama boi preto ao árbitro, mas sim bovis niger ou filius meretrix. Quando um avançado da nossa equipa falha um golo, já não se diz vou dar-te cabo…, mas sim vou dar-te cabo dos teus genitalis masculinus pater, fora todas as referências a obras literárias, como quando a selecção portuguesa perde e se diz que é a “Decadência dos Povos Peninsulares”. Infelizmente, estes insultos não são entendidos pela maioria dos jogadores e portanto não exercem o efeito necessário, mas que é cultura, lá isso é.
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Jaime Bulhosa

4 comentários:

José Pedro Pessoa e Costa disse...

Oh Jaime (Desculpe tratá-lo assim!). Tem a certeza? A última vez que fui ver um jogo do Benfica (já há algum tempo), as expressões utilizadas por rapazes e raparigas / homens e mulheres faziam parte dum português muito mais vernáculo. Genitalis masculinus patre (não devia, aliás, ser patre ou patres?) no Estádio da Luz?... De verdade? Ainda se fosse em Alvalade, podíamos compreender. Mas lá para as bandas de Benfica, ou das Antas? Ou os clubes portugueses mudaram muito ou isto não aocntece...

Pó dos Livros disse...

Caro José Pedro, nas Antas não foi com certeza as gentes do norte sempre tiveram, digamos um vocabulário mais rico. Em relação a Alvalade tem razão, é de facto um clube mais elitista.:)

Serras disse...

Hum... acho que ainda não ouvi insultos em latim em Alvalade. Essa do elitismo do Sporting é velha mas não corresponde à realidade. Penso, aliás, que parte significativa da educação em asneiras do meu sobrinho foi feita nas cadeiras do Estádio José de Alvalade.

Mr. Nonsense disse...

A última vez que entrei num estadio foi já há algum tempo no (já desaparecido) municipal de coinbra para assistir a um Academica - Sporting. E posso garantir-vos que entre estudantes e elite o português (bastante colorido) não variava muito.
E de latim não ouvi uma unica palavra...