quarta-feira, março 19

"PENSEI QUE O MEU PAI ERA DEUS"

(...)Normalmente era a minha mãe que aparecia, mas, neste caso, foi o meu pai. Ninguém gostava muito de Mr. Bernhauser, mas o meu pai dedicava-lhe um ódio muito especial porque ele ficava com todos os brinquedos e bolas que fossem parar ao seu quintal. De maneira que, um dia Mr. Bernhauser desatou a gritar connosco para nunca mais tocarmos na sua querida ameixeira e vai o meu pai pergunta-lhe qual era o problema. Mr. Bernhauser respirou fundo e lançou-se numa diatribe sobre miúdos ladrões, delinquentes, ladrões de fruta e monstros em geral. Imagino que o meu pai já estava farto e mais que farto do vizinho, pois gritou-lhe que fosse morrer longe – de preferência longe, acrescentou, mas também podia ser ali. Mr. Bernhauser parou de gritar, olhou para o meu pai, ficou vermelho que nem um pimento, depois roxo, agarrou-se ao peito, de roxo passou a cinzento e, lentamente, afundou-se no chão do quintal. Pensei que o meu pai era Deus.
in Pensei Que o Meu Pai Era Deus, de Robert Winnie
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"PENSEI QUE O MEU PAI ERA DEUS"
Antologia organizada por Paul Auster
Edições Asa, 2006, pvp: 16.00€
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Isabel Nogueira

Um comentário:

van disse...

Tenho e de vez em quando pego nele para ler uma história. É muito giro!