quarta-feira, março 26

Poesia Erótica

É sabido e certo que se juntarmos um bando de livreiros, editores, autores e outros que tais, inevitavelmente ouviremos apenas daquelas conversas chatas, repletas de solenidade cultural e grandiosas tiradas intelectuais. Atentem nesta:
Reunido um tal bando à volta da mesa do jantar, a conversa versava, às tantas, sobre os tiques da profissão. Unânimes, os livreiros presentes diziam que constantemente envergonhavam familiares e amigos por desatarem a endireitar os livros ou a colocá-los nos expositores vazios, em livrarias alheias. Logo, uma editora confessou que já tinha “arrumado livrarias” para, digamos assim, proporcionar aos seus livros o destaque que lhes era devido. Foi então que um dos autores presentes, afirmando que ele próprio arrumava os livros nas livrarias que frequentava e os mudava de lugar de acordo com as suas preferências e a importância relativa que lhes atribuía, defendeu que tal se tratava até de um valioso serviço prestado à causa da cultura. "Por exemplo, se eu chegar à secção de poesia e vir a Florbela Espanca por cima do Fernando Pessoa, é óbvio que os troco e ponho o Fernando Pessoa por cima da Florbela Espanca." Responde outro de imediato, " Tu também és mauzinho, eles se calhar preferiam assim, coitados!"


"Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica"

Selecção, prefácio e notas Natália Correia

Antígona/Frenesi, 2005

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EPHITALAMIUM

(...)

Para a igreja vos arranca

um animado e ruidoso murmurar.

Na ordenada ala o sol se entorna.

Os olhares que sitiam a noiva

apalpam como mãos suas ancas seus seios.

Como a roupa de dentro colada à sua pele

cercam-na bloqueiam toda a possível greta

levantam-lhe a camisa

como se atormentando

ou lhe solicitando

a escondida fenda.

in English Poems III, Fernando Pessoa, tradução Natália Correia

Isabel Nogueira

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