quinta-feira, maio 15

As Edições tinta-da-china tomam posição sobre Feira do Livro

"A tinta-da-china subscreve o abaixo-assinado proposto por Guilherme Valente da Gradiva. Também nós consideramos inaceitável que a CML depois de ter dado a organização da Feira do Livro à APEL, conceda directamente 720 m2 de espaço a um grupo empresarial que nem sequer se inscreveu para participar como todos os outros. Se tal acontecer, a CML estará a avalizar a prepotência, a arrogância e a falta de respeito por todos os editores. Consideramos mesmo que de todos os interlocutores neste processo é quem fica pior no retrato, abrindo um precedente gravíssimo."

Bárbara Bulhosa

4 comentários:

Rui Pedro Lérias disse...

Mas se a Leya ocupar outra parte do Parque Eduardo VII porque é que isso deverá ser problema?

Só porque não tiveram que cumprir as regras que as outras editoras também não gostam de ter de cumprir? É uma questão de democracia do sofrimento, devem todos sofrer por igual? Não se deveria celebrar alguém ter forçado a APEL a ouvir exigências que muitas editoras fazem há vários anos?

A Leya vai prejudicar alguém? Vai impedir alguém de visitar as Edições Tinta-da-China? Não irá ajudar a atrair mais público?

Sinceramente não percebo porque se preocupam tanto outras editoras com este ou outro comportamento da Leya.

blb disse...

caro rui lérias,
existe uma entidade a quem a cml deu a organização da feira do livro. todos os editores acataram essa decisão, com excepção do grupo leya que acha (sabe?) não ter de cumprir. o problema não é o seu poder comercial, o problema é a prepotência que o seu poder comercial lhe confere.
e não, não é uma questão de democracia do sofrimento, é só de democracia.

Rui Pedro Lérias disse...

Cara blb,
eu compreendo que ver alguém estar acima das regras é frustrante. Note-se o caso do cigarro do primeiro-ministro.

Mas note-se que a indignação não foi pela protecção da saúde do pessoal de bordo. Foi por a lei 'ser para todos'.

A lei é de facto para todos, mas nós, portugueses, submetemo-nos a regras com as quais, frequentemente não concordamos. E após a 'humilhação' da submissão sentimos ressentimento por quem se atreva a violar as regras.

Não porque as regras tenham sentido, mas porque nós as tivemos que seguir.

Em muito dos comentários que vejo a atacar a Leya parece-me haver um forte indício de inveja. Não quer dizer que não se possa ter razão em alguns dos ataques mas a inveja é, para mim, uma das principais razões.

E a inveja em Portugal é um forte problema. Castradora da inovação, da diferença, do dinamismo.

Se me permite, transcrevo umas linhas do livro de José Gil que fala nesta questão muito melhor do que eu (em Portugal, Hoje: O Medo de Existir, pp 86):

«Um dos seus efeitos possíveis imediatos [da inveja] é a paralisação de toda a dinâmica do novo. O que surge como diferente aparece como uma ameaça à igualdade que a inveja protege. Igualdade niveladora por baixo, como vimos, porque impede a expressão da singularidade: toda e qualquer manifestação de originalidade é considerada superior, e rejeitada. O rumor, a calúnia, as estratégias múltiplas de exclusão que se desenvolvem no quadro do funcionamento do grupo acabam por vencer e eliminar o elemento novo que irrompia.»

Esta descrição parece adaptar-se bem ao que se passa com a feira do livro de Lisboa, sendo a APEL a defensora do grupo, neste caso. O facto de a Leya ser grande o suficiente para não ser castrada pela nivelação por baixo (e note-se que ao longo dos anos muitas outras editoras tentaram e falharam) apenas aumenta, a meu ver, o ressentimento.

Penso que muitos se deviam questionar sobre as razões dos seus ataques à Leya. Se fosse uma pequena editora desconhecida a conseguir o inédito de enfrentar a APEL e ganhar penso que haveria mais simpatia. Mas como é grande e assusta...

A inveja não será a única razão. Mas parece-me ser a principal se considerarmos a violência de algumas reacções.

João Cruz disse...

A feira do Livro de Lisboa já não faz sentido nestes moldes. Os livros não se apresentam ao público por editoras, mas sim por temas. A Leya nunca poderá, por tanto, nivelar por cima porque não é livreira, mas sim um grupo de editoras. A oferta de livros deve ser apresentada na globalidade e ordenada por temas. O interesse da Feira do Livro, para o público, reside na possibilidade de se disponibilizar a totalidade dos catálogos de todas as editoras. Faça-se uma feira num local com dimensões apropriadas, em que se possa apresentar os livros por critérios que sejam confortáveis para o público, e onde os livros possam ser todos tocados, vistos, folheados, como em qualquer Livraria que se preze. A função dos editores é editar. A função dos livreiros é vender livros. A haver uma feira do livro de Lisboa em moldes novos e modernos,deverá ser protagonizada pelos livreiros. Que sentido faz os editores concorrerem contra os seus próprios clientes? Que sentido faz os editores perderem tempo a guerrear uns contra os outros por causa da venda ao público de livros durante vinte dias em Lisboa? Será que não há problemas mais importantes para discutir e resolver nesta área profissional do livro?