quinta-feira, maio 8

Não sei para que servem os livreiros…

Acontece poucas vezes, mas acontece, pessoas que procuram por um livro que já tinham visto em qualquer lado e, quando o querem comprar, apenas se recordam de um pequeno pormenor. Como por exemplo: a cor da capa. Eu sei, não é por mal e muitas vezes até ajuda. Se me pedem um livro com flores na capa ou de uma cor florescente, tenho 90% de probabilidades de acertar num título da Margarida Rebelo Pinto. Trabalhamos com um universo imenso de temas, autores e uma enorme quantidade de livros disponíveis. Já mais do que uma vez me exigiram, só porque tenho livros de física, que saiba explicar a teoria da relatividade. É como pedir a um escritor, só porque escreve, que conheça e saiba o significado de todas as palavras da língua portuguesa. É por isso que nós, livreiros, somos muitas vezes criticados e que nos acusam de não possuirmos conhecimentos suficientes. Pode até ser verdade. Podemos até ser especialistas num determinado tema, mas é-nos humanamente impossível sê-lo em todos os domínios do conhecimento.
Não é por falta de esforço, tentamos sempre conseguir mais informação, a fim de satisfazer o pedido do cliente. Vejam só este caso:

- Boa tarde, gostaria de adquirir o livro…???? (pausa). Sinceramente só me recordo da cor da capa.

- (Sorriso amável) Já agora, qual é?

- Cinzento, tenho a certeza!

- Não me pode dar mais nenhuma informação, como por exemplo o tema, o autor, a editora ou se leu sobre ele numa recensão de revista ou jornal, ou mesmo o tamanho do livro.

- Sim, era mais ou menos deste tamanho e a última vez que o vi foi na Livraria Bertrand do Chiado, no ano passado.

- Obrigado, já agora o tema, o autor.

- É exigente… romance, romance histórico.

- (Desesperado) Tenho imensa pena, mas continua a ser um pouco vago.

- Se eu estivesse na posse de todos os dados não precisava de você para nada, não lhe parece! Não sei para que servem os livreiros, para o pouco que são necessários não sabem ajudar.

- De facto, tem toda a razão, sei que é uma falha grave da nossa parte. Mas infelizmente não sou especialista em cromologia, nem temos nenhuma secção de “livros cinzentos”, embora a ideia, para muitos livros, pudesse ser posta em prática.
Jaime Bulhosa

4 comentários:

Ricardo disse...

Infelizmente os livreiros ainda não têm uma capa e super poderes.
Embora sofram o efeito de inúmeras cryptonites...livros cinzentos!
Nem sempre a máxima do Trevisan(o maior cromo esotérico) se aplica:
"Pode quem pensa que pode".
Saudações TRAMAdas

Ricardo Ribeiro

Bárbara disse...

Revejo-me em todas as palavras e entristeço...
Quem me dera ter super poderes e, realmente, conseguir já ter lido todos os livros para assim ver um sorriso estampado no rosto dos clientes. Mas tal nunca acontecerá...

O Livreiro disse...

Muito bom.

Carmen Figueira disse...

Não raras vezes vivi esse "episódio".

Sem super poderes e mesmo sendo pragmática, fica sempre a angústia se ou quando, por acaso, não chegamos ao livro que o cliente procura (mesmo que seja um livro da Margarida).