segunda-feira, maio 26

A polémica pariu um rato.


Muitas linhas se escreveram, muitas conversas se tiveram e muita polémica se criou à volta dos pavilhões diferenciados da Leya. Sinceramente, se foi por causa disto que se criou tanta confusão, não havia necessidade… Teve no entanto o mérito de conseguir nestes dois primeiros dias, com tanta publicidade gratuita, encher o parque Eduardo VII, como eu não via há muitos anos.
A questão colocada era a de saber se este modelo proposto pela Leya servia melhor o público: A primeira coisa que nos salta à vista é a descaracterização dos stands das diversas editoras, agora chancelas, Leya, todas com o mesmo layout. Não se distingue a Asa da Dom Quixote, a Texto da Caminho, etc., o que provocou alguma confusão entre o público menos atento às alterações do mercado editorial, obrigando as pessoas a andar pela feira a perguntar onde se encontravam estas editoras. Se é esta a intenção da Leya, então mais vale organizarem os livros por temas e não por editoras, seria bem mais lógico para o cliente. Depois, é nítido que todos os livros estão de chapa e que, consequentemente, existe um muito menor número de títulos disponíveis. Pergunto: onde está o famoso fundo editorial tão prometido?
Em termos de ambiente também me pareceu menos acolhedor. A praça Leya é uma ilha fechada com muitos seguranças fardados e algumas antenas anti-roubo (embora ainda não estejam a funcionar, são pouco simpáticas) e um sem número de funcionários espalhados pela praça, parecendo por vezes tão perdidos quanto os clientes. Os pavilhões, em termos estéticos, são simples e têm de facto a vantagem de se poder manusear todos os livros. No entanto, e por esse facto, muitos dos livros encontram-se já em más condições. O que obriga os clientes a pedir outro exemplar. Como leitor, continuo a preferir os pavilhões tradicionais, já que não vejo vantagens significativas nos da Leya.
O balanço será apenas feito no fim da feira. Na minha opinião será necessário fazer uma reflexão séria e atempada sobre as regras da Feira do Livro de Lisboa quanto às formas de participação dos editores e livreiros, se devem ou não ser alteradas; ter em conta a exagerada duração da feira e descontos praticados, com as manifestas consequências nefastas para livreiros e a médio prazo, para os próprios editores.
Se os pavilhões da Leya servem pior ou melhor o público é um balanço que interessa sobretudo à própria Leya.

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Jaime Bulhosa

Um comentário:

Carina disse...

Estive na Feira do Livro de Lisboa, hoje e fiquei logo à entrada surpreendida, as editoras ainda estavam a colocar livros em exposição e já estavam muitas pessoas no parque.

O ano passado em dia útil e um pouco mais tarde havia-me deparado com um parque quase vazio de seres humanos.

Não tenho muitas dúvidas de que, se ouve algum beneficiado no meio de toda esta confusão, foi a própria feira do livro.

Quanto ao grupo Leya, pareceu-me que havia muito menos pessoas na "paça Leya" do que na tenda dos pequenos editores e no geral, pareceu-me que era a zona "deserta" da feira. Mas, realmente, com aqueles srs. seguranças... com a sua postura rígida e desconfiada dá vontade de sair dali...

Pessoalmente prefiro os "pavilhões" "tradicionais" aos da Leya (embora reconheça que os tradicionais sejam péssimos para dias de chuva, se bem que os da Leya também não seriam muito melhores se as pessoas se resolvessem abrigar neles, pois são pequenos).

Os motivos para a preferência são simples, se não está a chover a última coisa que me apetece (na rua) é enfiar-me num caixote ligeiramente escuro a ver livros e se estiver sol...apetece passear ao ar livre no parque.

Também não gosto particularmente de ter um funcionário muito próximo e volta na volta a olhar para mim. Pelo menos nas "barracas" tradicionais os funcionários têm com que se entreter (caixotes, multibanco e outros aspectos a tratar) e com quem conversar, tornando-se mais sinpáticos porque não têm de estar ali "em sentido" a olhar para o ar e a forçar boa disposição.

A ideia de se poder manusear todos os livros e de se poder fazê-lo num local e pagar noutro local, parece-me que funciona melhor numa tenda, como a tenda dos pequenos editores, por exemplo.

Pelo menos com uma tenda dispensa-se os seguranças e as antenas anti-roubo, que são tão incómodos num evento que se pretende que seja de descontração, como em todas as feiras do livro.

Quanto à exagerada duração da feira e descontos praticados, pelo que tenho constatado, as pessoas que vão apenas pelos descontos também não iriam tão cedo a livrarias e se fossem limitar-se-iam aos livros que sentem que têm mesmo de ler, uma vez que as possibilidades económicas não são as melhroes ou as ideiais para fazerem compras regularmente nas livrarias.

Outros parece-me que vão à feira do livro mais para encontrar e folhear aqueles livros que têm, dificuldade em encontrar em livrarias ou que não encontram mesmo. Ou ambas as coisas.

Ou seja, parece-me que as consequências nefastas para livreiros a médio prazo, não advêm da feira do livro em si, mas do actual "modelo" que a maioria das livrarias adoptou (ou a legislação impôs), ou seja, preços com máximo de 10% de desconto, salvo raras excepções, falta de eventos que permitam estabelecer uma proximidade das livrarias com clientes ou potenciais clientes, entre outros aspectos.

A mim parece-me o problema é mais de longo prazo e não é tanto uma questão de feiras. Parece-me que se os editores e os livreiros independentes estabelecessem um melhor relacionamento comercial, ambos seriam beneficiados e as feiras dixavam de ser um problema relevante. Mas eu sou apenas carne, ossos, articulações e órgãos.