segunda-feira, maio 5

"Todos negam que os tops sejam comprados", eu também.

Li o artigo de hoje no Público de Alexandra Lucas Coelho, sob o título “Como os livros pagam para ser vistos”, tema ao qual já tinha dedicado umas linhas aqui.
Gostaria de fazer apenas alguns comentários:

“Os hipermercados foram disruptivos, criando uma lógica que depois foi sendo copiada”, diz Teresa Figueiredo, ela própria vinda do “grande comércio, dos detergentes”
(Teresa Figueiredo, directora de marketing Bertrand)

Com todo o respeito que a senhora me merece e não pondo em causa a frase: fiquei a saber que a lógica do mercado dos livros é a dos hipermercados, ou seja, a dos detergentes.

“Acredito que os tops não são comprados, mas uso como referência sobretudo os tops da Fnac e da Bertrand, embora pense que livrarias como Bertrand e Bulhosa vão promover melhor os livros das editoras a que estão ligadas. Mas isso não quer dizer que os tops estejam viciados, apenas que há uma saudável sinergia entre empresas do mesmo grupo. Os livros vão realmente ao top porque vendem mais, mas podem vender mais pelo facto de estarem melhor expostos.”(José Prata, Lua de Papel)

Toda este parágrafo me parece um paradoxo ou uma tautologia. Não vejo porque razão a Fnac há-de ser diferente dos outros. A ser verdade, como diz o artigo, que a negociação da venda de espaços pressupõe um maior desconto sobre os livros, então, a Fnac terá, como os outros, todo o interesse em vender mais os livros que lhes dão maior lucro.
E se o top reflecte as vendas e as vendas são reflexo dos destaques, isto quer dizer que o top é indirectamente viciado. Mais, quando José Prata diz que: “apenas há uma saudável sinergia entre empresas do mesmo grupo”, eu pergunto: saudável para quem, para o consumidor?


«O livreiro não se deixa comprar. “Ele tem noção de que ganha dinheiro a vender livros e não espaços. Se deixar que a montra seja comprada para expor um livro que não tenha aceitação, acaba por perder dinheiro.” O livro que interessa ao livreiro é aquele que se continua a vender depois de sair da montra. “O livreiro tem mais interesse em aceitar livros com capacidade de long seller.»(António Lobato Faria, Oficina do Livro)

Embora esta ideia seja lisonjeira para com o livreiro, não me parece verdadeira. O dinheiro que se cobra por uma montra compensa em muito os livros que se deixam de vender durante o curto período do acordo entre editor e livreiro. Mas contém alguma verdade: existem livros que nunca chegam ao top, mas que, por serem long sellers, feitas as contas no fim de um ano, acabam por ser mais compensadores.

“Não vou pensar que com operações de marketing vou ver pessoas a saírem com o Pires Cabral ou o Aguiar e Silva ao lado do Palmolive”
(André Jorge, Cotovia)

Tenho visto alguns exemplos de livros que à partida seriam apenas para uma minoria, mas que, por causa de um artigo ou por via de acções de marketing, venderam que nem ginjas, como é o caso de “Portugal, hoje” de José Gil, Relógio de D’Água, 2004.

Nós como pequena livraria independente, ficamos à espera de uma proposta verdadeiramente aliciante…! Por enquanto os nossos clientes podem ter a certeza de que os nossos livros não são expostos por este critério.
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Jaime Bulhosa

Um comentário:

O Livreiro disse...

Não deixo de achar burlescamente curioso o comentário do editor da Lua de Papel, que, e ainda bem para a editora, tem constantemente livros no top das principais livrarias.