terça-feira, setembro 30

Aprendi a vender conteúdos

O meu pai, bibliófilo, olhava para os livros como objectos de culto. Via neles o transcendente, acreditava que por si só transportavam segredos, conhecimentos divinos, histórias únicas que se perderiam para sempre se não fossem preservadas naquele objecto específico. Ao contrário do bibliomaníaco, que apenas colecciona livros, o bibliófilo lê-os compulsivamente, nutrindo amor por eles. Por isso, nada era mais aborrecido para o meu pai do que ver os seus livros deteriorarem-se. Infelizmente, era o que acontecia aos mais frequentemente manuseados. Então, como se os livros se tratassem de pessoas, rapidamente lhes construía uma roupa, como costumava dizer: “Um livro sem capa no meio dos outros é um livro nu, é como estivéssemos no meio da rua, despidos entre uma multidão vestida.” Quando não tinha dinheiro para mandar fazer uma encadernação condigna para esses livros, fazia-lhes as capas com cartolinas revestidas a pano, muitas vezes aproveitadas de pastas de arquivo velhas. Depois, escrevia o título e autor a esferográfica, no rosto e na lombada. Não era necessária uma capa colorida, nem altos ou baixos-relevos, nem fotografias apelativas. O que interessava ao meu pai era preservar o conteúdo. Isso sim era o mais importante.
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Jaime Bulhosa

3 comentários:

Ricardo disse...

A devida vénia ao Sr Bulhosa

Grande jóia disse...

Texto com alma e coração. Grande respeito por quem assim pensa e escreve.

El-Gee disse...

Que texto tao bonito.