quarta-feira, outubro 8

Uma moeda e um cigarro.

Passo por eles todos dias, sei que estão ali mas não os vejo. É como se fizessem parte da paisagem arquitectónica, como se fossem estátuas que já não vemos, por tantas vezes as termos olhado. Interrogo-me sobre o seu passado e imagino as suas histórias. Não são residentes, porque isso implica ter uma residência. No entanto, vivem aqui. São os sem-abrigo das Avenidas Novas.

Há uns meses atrás, num sábado de manhã, quando o movimento nesta zona da cidade diminui substancialmente em relação aos dias da semana, um sem-abrigo, cuja face me é familiar, entra na livraria. Estava com um aspecto mais limpo do que o habitual, barba feita e roupa lavada, não teria mais de cinquenta anos. Não diria que era um sem-abrigo se não o soubesse; talvez por isso se tenha aventurado a entrar sem receio. Pede-me uma moeda e um cigarro, que eu prontamente lhe cedo. Ao voltar as costas para se ir embora inclina a cabeça, coloca a mão na orelha, como quem a abre para ouvir melhor, faz um sinal afirmativo com a outra mão e diz:

- A música que se ouve na loja é “In a Sentimental Mood”, de Duke Ellington.

Espantado, respondo que sim, não é toda a gente que reconhece o piano de Duke Ellington. Não parou mais, a conversa seguiu por Milles Davis, John Coltrane, Elvin Jones, Bill Evans, Chet Baker, Shirley Horn e tantos outros. Depois passou inevitavelmente para os livros: Victor Hugo, Albert Camus, Balzac, Flaubert. Decididamente, preferia os francófonos, eu quase sem dizer nada, estupefacto com tanto conhecimento, sem qualquer exagero, era das pessoas mais cultas com quem tinha tido, ultimamente, o prazer de conversar. No final, agradeceu a moeda e o cigarro e saiu. Recentemente, há uns dias, voltei a cruzar-me com ele, disse-lhe olá, ele não me reconheceu, pediu-me uma moeda e um cigarro, agradeceu e partiu.
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Jaime Bulhosa

2 comentários:

CAP CRÉUS disse...

Dá que pensar, de facto...
Quantas pessoas não estarão por aí sub-aproveitadas, enquanto outras...

Anônimo disse...

une image presque christique,
un très beau texte aussi celui que vous écrivez sur cet homme.
On ne peut plus vivre restant indifférents aux "naufragés" de notre société.
Merci pour cet instant de grâce.