terça-feira, novembro 18

Ladrão de poesia

Nota introdutória: É um autêntico flagelo a taxa de furtos numa livraria. Para terem uma ideia, ronda entre os 2% a 3% da facturação anual. Com margem média de 30%, significa que por cada livro roubado o livreiro tem que vender três livros iguais só para cobrir o prejuízo. Devo dizer-vos que me irrita bastante, enquanto cliente, seguranças à porta, câmaras de filmar e antenas de alarme, mas não me parece que tenhamos outro remédio.
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Poder-se-ia à partida pensar que o livro é um objecto pouco apreciado pelos ladrões, se definirmos como estereótipo de ladrão uma pessoa pouco culta. Desenganem-se, roubam-se muitos, bons e maus livros e alguns desafiam a imaginação na forma como o fazem. Assim sendo, temos pelo menos quatro tipos de ladrões de livros:

Os profissionais - roubam por encomenda, sempre novidades e em quantidade. Best-sellers, que depois vendem por meia dúzia de tostões aos quiosques que alimentam e de facto lucram com este mercado paralelo. Outro dia apanhei um deles, um homem já octogenário reincidente a roubar na Pó dos Livros. Nesse dia, menos lesto de que o costume, entrou de rompante na livraria e saca cinco livros da montra; por azar deixa cair um deles, o que me chamou a atenção. De imediato fugiu dali para fora. Quarenta anos mais novo do que ele, não foi difícil alcançá-lo. Zangado por ele me ter roubado diversas vezes, e como forma de o persuadir a não voltar, agarrei-o pelos colarinhos e num tom de voz mais elevado perguntei-lhe: - sabes o quanto me custa ganhar a vida? - Desconcertante, responde-me: - Então imagina o que me custa a mim!

Os amadores – são aqueles que roubam apenas um a dois livros por ano, sobretudo quando o dinheiro não abunda. No entanto, são estes que causam maiores prejuízos às livrarias, pois estão em maioria. Sejamos honestos, quem é que nunca roubou um livrinho para ler, nem que tenha sido por empréstimo permanente a um amigo.

Os cleptomaníacos - roubam sem critério e compulsivamente, são raros.

Os VIP - é in roubar livros. Protegidos por uma imagem credível de figuras públicas ou respeitáveis, roubam a achar que nunca irão ser descobertos, o que é um engano. Mais cedo ou mais tarde são apanhados como os outros. Na minha vida de livreiro, por diversas vezes as antenas de alarme gritaram bip, bip, bip, bip... a advogados, políticos, actores, médicos, etc., alguns bem conhecidos da nossa praça pública. Mas o mais extraordinário é verificarmos o tipo de livros que roubam. Garanto-vos, pode ser uma grande desilusão. Só não digo os seus nomes porque pode parecer mal.

Com o tempo aprendi a reconhecer as variadíssimas técnicas usadas pelos larápios para passarem despercebidos. Descrevo apenas algumas, para não dar muitas ideias: Os que usam disfarce. O mais famoso era conhecido entre os livreiros dos anos setenta como o padre do Chiado. Era um homem muito simpático, que durante anos se fez passar por padre e cliente habitual. Comprava um livro, normalmente de bolso, todos os dias, numa das livrarias do Chiado. Ao mesmo tempo levava três ou quatro livros num forro falso da sua batina. Anos mais tarde, ao ter sido descoberto, verificou-se que tinha em sua casa uma biblioteca com cerca de 30 mil volumes, todos eles roubados. Outra das técnicas consiste em fazer um apontamento no livro ou uma dedicatória a si próprios, para, no caso de serem apanhados, garantirem que o livro já lhes pertencia. Há ainda os que cortam as folhas, capítulos inteiros, um de cada vez, com uma tesoura ou x-acto, e depois escondem o resto do livro nas prateleiras por trás dos outros, para mais tarde voltarem. Acham que não é possível? Pois conto-vos que em pleno Natal, nos anos noventa, quando trabalhava no centro comercial das Amoreiras, corria a história que na loja da Singer tinha desaparecido, sem ninguém dar por ela, uma máquina de lavar roupa.

Por último, e o que motivou este relato, é o facto de ter surgido recentemente na Pó dos Livros um novo tipo de ladrão de livros: O Temático.

Ainda não sabemos quem é, ainda não o apanhámos, mas sabemos que ele existe. Só rouba poesia e da mais erudita. Quase poderíamos dizer que neste caso é apenas um acto de cultura. Excepto para o livreiro, claro está!
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Jaime Bulhosa

14 comentários:

Anônimo disse...

Mas então se o padre do Chiado, comprava um livro por cada três ou quatro que roubava, significa que parte da sua biblioteca (entre 6000 e 7500 livros, pelas minhas contas) foi comprada. Não está mal para um gabirú...

Mapas De Espelho ( Imagem Suzzan Blac) disse...

1. Há sempre um momento em que os livreiros se distraem, dizia o "mestre"...

2. Face a uma lista longa de livros, os alunos reclamaram: Professor os livros são muito caros.
O Professor de Ética disse: então Roubem-nos.
...

Anônimo disse...

eu roubei livros neste último ano pela primeira vez, mas tenho critérios.

1 - nunca a pequenos livreiros.

2 - sempre a grandes ( fnac e principalmente tentar tudo o que pertença ao grupo "Leya")

3 - principalmente, por uma razão estética nunca me envergonhar com o que levo escondido se for apanhado (a).

4 - Livros pequenos e médios ... se for à "Leya" todos os tamanhos servem.

5 - Devíamos ter sempre dinheiro para livros, não tendo é um desejo a que não devemos resistir!

Leonor disse...

Infrotúnio à parte acho que este episódio daria um policial.

Leonor disse...

Infortúnio, claro

Cristvs...in Northern Darkness! disse...

Roubar muito ou roubar pouco não interessa. É na capacidade do roubar que está o carácter da pessoa.

Boa Sorte com os livros ;)

Paulo Freixinho disse...

Interessantíssimos os factos apresentados, a história do padre e um dos comentários anónimos...

Amplexos e ósculos!

BiblioFilmes Festival disse...

Nós hoje falámos no blogue sobre um estudo realizado recentemente no Japão que aponta para terem desaparecido 284 000 livros (maior parte roubados) das bibliotecas públicas das maiores cidades em 2007.

http://bibliofilmes.blogspot.com/2008/11/desapareceram-284-mil-livros-das.html

VM
Org. BiblioFilmes Festival

Anônimo disse...

Eu acho que lhe falta uma categoria que provavelmente será responsável pela maior fatia de livros ausentados para sempre da livraria: os livreiros que nela trabalham. ;)Luís

Pó dos Livros disse...

Luís, essa categoria é uma realidade, principalmente em empresas em que os funcionários não passam de um número abstracto e geralmente são mal pagos. Não é o nosso caso.

Jaime Bulhosa

ana v. disse...

Extraordinárias revelações, e contadas com graça (mesmo que o tema não seja para rir).

magarça disse...

Fiquei estupefacta.. ou sou muito ingénua ou não tenho mesmo imaginação! Folhas cortadas? Padres disfarçados? estas histórias davam um bom livro de contos :)

LUIS MIGUEL CORREIA disse...

Não consigo achar graça a apropriações ilegitimas com as descritas. Há muitas outras, outros tipos de apropriação de propriedade intelectual. Ainda há dias fui insultado de forma muito vulgar por me insurgir contra o uso indevido de uma fotografia minha e só comentei a falta de referência da origem e autoria da mesma...
O que me irrita nestas apropriações é a falta de princípios e respeito. O oportunista põe-se sempre num patamar de superioridade...
Não há paciência.

m&m disse...

«sabes o quanto me custa ganhar a vida? - Desconcertante, responde-me: - Então imagina o que me custa a mim!»

achei uma delícia
:)

m&m