quarta-feira, novembro 5

Livros que valem pena…voltar a falar




Estive ontem na nova FNAC do centro comercial Vasco da Gama, no lançamento do livro “Cidades Sem Nome” da jornalista Fernanda Câncio. Apesar de toda a simpatia e disponibilidade demonstrada pelos funcionários da FNAC, o espaço que oferecem é exíguo e sem condições para eventos deste e doutro género. Parece-me que o nome da loja merecia a perda de mais uns metros quadrados de espaço comercial.

Voltando ao tema:“Cidades Sem Nome” é um livro que apesar de ter sido já editado em 2005 por uma entidade pública, só agora aparece nas livrarias editado pelas Edições tinta-da-china.

Tive a felicidade de poder divulgar o texto pelo qual o sociólogo António Barreto apresentou o livro. Vale a pena ler... o livro e o texto que se segue:

«O livro é magnífico! Interessante, pertinente, racional! Sem facilidades. Sem Pieguice, mas comovedor.

A Fernanda Câncio correu os riscos de um estilo difícil, de uma narrativa complicada, tentado colocar-se ora dentro, ora fora, destes bairros, destes sítios e destas comunidades. O livro está a meio caminho de vários géneros, da reportagem, do estudo, do ensaio. Este cruzamento nem sempre é fácil. Creio que a Fernanda soube resolver os problemas de estilo e de narração.

Deu a palavra a muitas das pessoas que visitou ou com quem conviveu, mas nunca foi condescendente. Ela parece saber que “as coisas” e “os factos” não falam por si próprios. E que a palavras das pessoas, mesmo sendo genuína, mesmo sendo verdade, não é toda a verdade. Não estou a insinuar, generalizando, que as pessoas mentem. Podem mentir, claro, mas esse não é o ponto. O que as pessoas sentem e dizem, se for genuíno, é sempre verdade. Mas apenas uma verdade. Um ponto de vista. Uma versão. Como uma carta. Como uma fotografia. Apenas uma parte da verdade.

O livro é sobre as periferias. Os subúrbios. Os arredores. “ Cidades sem nome” é um belo título. Belo e real.
São as periferias das áreas metropolitanas. Eu creio que a Fernanda quer dizer que ali se vive"normalmente”, como ela defende nos seus programas em exibição na RTP2 a horas inadmissíveis.

Apesar de tudo nos levar a pensar e dizer a dizer que as periferias são uma espera, um espaço adiado, um local de passagem, um sítio para dormir, apesar disso, ela diz-nos que ali está também uma comunidade, ou parte dela. Suspensa, talvez. Destroçada, por vezes. Resignada, geralmente. Resistente, também. Mas tudo isso faz uma vida. Uma comunidade.

Mais do que locais, os bairros são gente. Boa e má. Bem comportada e delinquente. Corajosa e desistente. Mas gente como todos nós.

Apesar disso, apesar da normalidade, apesar do habitualmente, há qualquer coisa de especial nas periferias. De adiado ou de suspenso. Por vezes de provisório. Quando as pessoas, algumas das quais falam neste livro, afirmam insistentemente que o bairro é uma comunidade, que não é uma periferia, que não é um subúrbio… Quando o fazem com essa insistência, é porque o problema existe. É talvez porque se trata mesmo de uma periferia. Afirmar que esta não existe é uma maneira de lhe garantir existência. Mas também um modo de sobreviver e de se atribuir a si próprio uma identidade. Do que as pessoas não abdicam.»

JB

Nenhum comentário: