segunda-feira, dezembro 15

O mundo é que exagera

O MUNDO É QUE EXAGERA, Agenda 2009,
Planeta Tangerina
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Era Sábado, o Verão acabava de chegar ao fim, eu ia trabalhar e estava atrasada! Apesar de não haver trânsito, meia Lisboa tinha ido de fim-de-semana e outra meia iria dormir até ao meio-dia, parecia-me que nunca mais chegava. - Quando temos pressa todos os semáforos estão no vermelho! Estava parada há uma eternidade no último sinal antes de virar à esquerda para a Pó dos livros, quando uma voz na rádio começou a falar sobre como andamos sempre a correr, quão difícil é gerirmos o nosso tempo (que timming perfeito!), tempo para trabalhar, tempo para estar com a família, tempo para praticar desporto, blá, blá, blá... e afinal, era o anúncio de vendas on line de um qualquer hipermercado.
Entrei na livraria acelerada - corremos sempre nos últimos metros, como se fizesse alguma diferença. O Carlos estava debruçado sobre o balcão, a ler. Sem responder ao meu bom-dia disse-me entusiasmado: - Estou a ler as Cartas a Lucílio, isto é interessantíssimo... Ainda por cima, se pensarmos que foi escrito há dois mil anos... É extraordinário! E, voltando as páginas para trás, começou a ler-me a primeira carta:
“Procede deste modo caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra-te e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente. Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo, aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte! (...)” in CARTAS A LUCÍLIO, Lúcio Aneu Séneca, Fundação Calouste Gulbenkian, 2007
É realmente extraordinário!

CARTAS A LUCÍLIO, Lúcio Aneu Séneca,
Fundação Calouste Gulbenkian, 2007
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Isabel Nogueira

Um comentário:

marta morais disse...

Para além de ser um texto muito bonito, realmente se fosse tirado do contexto ninguém diria que não é contemporâneo!