sexta-feira, fevereiro 29

A inutilidade do Top Livro

Nunca percebi qual a utilidade de um Top. O que é certo é que todas as grandes livrarias têm um, em imenso destaque. Para que serve a mim leitor, um top? Saber o que a maioria anda ler? Será isso sinónimo de qualidade? Não me parece. O único critério de selecção de um top são as vendas, critério que por si só, não é garante de nada. Serve apenas de indicação ao editor e ao livreiro do que se anda a vender mais. Para o leitor tem utilidade nula, até porque: sabendo como a maioria dos livros lá vão parar, ainda menos convence.
Já repararam que a variação do top livro entre grandes cadeias livreiras é mínima. De vez em quando lá aparece um “diferente” que pela sua qualidade intrínseca merece esse rótulo: “Livro de Top”. De resto são sempre os mesmos, aqueles que estão em todas as montras, em todos os destaques, em todos os catálogos, em todos os anúncios publicitários…
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Jaime Bulhosa

29 de Fevereiro

Iraida Icaza

Mãe porque é que Fevereiro é mais pequeno? E porque é que há anos bissextos?
Reúno na memória os fragmentos de explicação, a resposta parece ter bastado à Carolina e enquanto conduzo por entre o caos do trânsito decido que quando chegar a casa vou reler o capítulo de “Os Descobridores”, onde Daniel J. Boorstin relata a criação do Calendário Gregoriano que hoje utilizamos. Entretanto, resmungo com o tempo perdido nos engarrafamento e vou pensando que realmente o Tempo é uma descoberta fascinante. Mais resmungos com o desperdício de tempo nas voltas à procura de lugar para estacionar, enquanto cogito na impossível vastidão da ideia de Tempo e no inevitável intrincado entre a ciência do Universo e a ciência do Homem. E como os pensamentos ainda se parecem mais com as cerejas do que as conversas, vou parar a António Gedeão.



Tempo de poesia

Todo o tempo é de poesia
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram,
Corolas que se desdobram,
Corpos que em sangue soçobram,
Vidas qu'a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão
in Obra Poética, Edições João Sá da Costa, 2001
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Nota: O livro “Os Descobridores” de Daniel J. Boorstin, editado pela Gradiva, infelizmente encontra-se esgotado.



Isabel Nogueira

Os cinco sentidos

Passeamos os olhos ao acaso pelas estantes da livraria. Olhamos distraidamente os livros expostos sobre as mesas. Vemos um livro. A capa seduz-nos. O título cativa-nos. Queremos vê-lo com mais pormenor. Pegamos-lhe. Não resistimos a passar a mão pela capa. Sentimos a sua textura. Agarramos o livro com as duas mãos, deixando-o aí por um instante. Então, com o polegar, vamos soltando as páginas devagar. Este folhear liberta o cheiro a tinta e a papel. Aproximamos mais o livro, inspirando. Retomamos o folhear. Agrada-nos ouvir este barulho. Aqui e ali detê-mo-nos numa frase e ouvimos a música das palavras. Gostamos. Leva-mo-lo connosco, antecipando o momento em que, confortavelmente instalados no nosso recanto preferido, poderemos, por fim, saboreá-lo.


"Os Sentidos", A.A.V.V., Porto editora, 2004
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Isabel Nogueira

Inquérito

Estes foram os resultados do inquérito efectuado. É apenas um indicador, mas agradou-nos.
Obrigado pela participação

quinta-feira, fevereiro 28

Contos do Gin-Tonic

Confesso, nunca tinha lido os “Contos do Gin-Tonic” de Mário-Henrique Leiria, Editorial Estampa, 1999. São surrealistas, hilariantes, desconcertantes, surpreendentes. Por vezes alguns também parecem contos do conhaque… mas isso não interessa, são fantásticos. Deixo aqui um pequeno exemplo:


TELEFONEMA

Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa. Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias. Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.
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Jaime Bulhosa

Como é bom ler.

Já tinha tentado explicar aos meus filhos como ler pode ser tão divertido, e não conseguia arranjar palavras, até ver este video.

Jaime Bulhosa

quarta-feira, fevereiro 27

FragilPoesiaMarço

(Faça clic sobre a imagem para aumentar)

Neo-colonialismo

Marraquexe, Março 2007

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As grandes Cadeias Internacionais de Livrarias, apostaram definitivamente na conquista de novos mercados. Aparentemente estimulado pelo enorme sucesso obtido no mercado português, e antecipando-se audaciosamente à concorrência, um desses grandes Grupos abriu já a sua primeira sucursal no Norte de África. (Ou a fama precede-os?)

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Marraquexe, Março 2007

-Fotos enviadas por Helena Nogueira

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Isabel Nogueira

terça-feira, fevereiro 26

Olha! já fomos para a rádio...


Lepidoptera Librorum

Fomos invadidos por Lepidoptera Librorum, mais conhecida por traça do livro. Estes bichinhos têm o hábito terrível de comer o preço dos livros. Se quiser ter um destes bichinhos de estimação, veja como pode fazê-lo, aqui.


Jaime Bulhosa

embrulhar*desembrulhar

Às vezes, os livros que moram aqui na livraria transformam-se em presentes. Quando isso acontece são envolvidos em "pó dos livros" com papéis de quatro cores e transportam consigo surpresas, medos, prazeres, lugares, tristezas, encantamentos e mil outras sensações, sentimentos ou espaços para descobrir. E é assim, que os gostamos de imaginar quando saem para a rua nas mãos dos nossos visitantes, à espera de serem desembrulhados e reencontrados.

embrulhar
verbo transitivo; 1.envolver em material protector e/ou decorativo, formando pacote ou volume transportável; empacotar; 2.dobrar; 3.agasalhar; verbo reflexo; 1.envolver-se; 2. toldar-se; (Do lat. *involucráre, «id.», de involucru-, «invólucro»).

desembrulhar
verbo transitivo; 1. tirar do embrulho; desfazer o embrulho de; 2. desdobrar; 3. desenredar; 4. figurado esclarecer; verbo reflexo (atmosfera) desanuviar-se; (De des-+embrulhar).

Dicionário da Língua Portuguesa 2008, Porto Editora, Maio de 2007.

Design gráfico de Vera Tavares.

Débora Figueiredo.

segunda-feira, fevereiro 25

Pré-Publicação "A Ressurreição da Água", Maria Antonieta Preto

PVP: 12,90€


Brevemente nas livrarias


Depois da estreia na difícil e arriscada arte do conto com Chovem Cabelos na Fotografia, livro que foi saudado pela crítica como «um rubi [que] brilha e brilhará na noite e no dia da literatura portuguesa contemporânea e futura», Maria Antonieta Preto regressa com um novo livro que retoma o estilo poético e singular no tratamento de alguns dos temas que lhe são caros: o universo feminino e rural, o universo simbólico telúrico de um mundo em vias de extinção, o amor, a morte, a liberdade, a violência doméstica, a violência para com a Natureza (não será arriscado dizer que estamos perante a autora mais ecologista do nosso actual panorama literário).
Continuando a conduzir-nos por esse universo que é só seu, «em que o sangue se mistura com impossíveis pétalas de rosa», e não abandonando por completo a geografia afectiva do seu Alentejo natal que dominava o livro anterior e se tornou uma marca indelével na sua obra, Maria Antonieta Preto sai, neste A Ressurreição da Água, para outras geografias exteriores e interiores, que se transformarão em outros tantos locais inesquecíveis para quem os vier a ler.


domingo, fevereiro 24

"Já a formiga tem catarro"




“Já a formiga já tem catarro”, e ainda bem. Há uma coisa de que eu tenho a certeza, os leitores do futuro serão muito mais exigentes do que nós somos agora.

Outro dia, entra um miúdo de três anos na livraria e diz, com uma vozinha muito querida: - Senhoii, queo tocar este livo poque tá estagado!

Numa das páginas do livro o narrador, a dada altura, conta que se encontram na floresta um hipopótamo, um leão, uma cobra e uma formiga. Só que o ilustrador por lapso, ou não, esqueceu-se de representar a formiga. O miúdo pergunta-me: - onde é que tá a fomiga? Como não estava, queria trocar o livro. Achei que os argumentos apresentados tinham validade, ainda tentei dizer-lhe que a formiga era muito pequenina e por causa disso, não se via. Resposta que não foi de todo satisfatória.

Livro de reclamações: Senhores ilustradores, se um autor escrever que existe um hipopótamo, um leão, uma cobra e uma formiga, façam o favor de os desenhar a todos.
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Jaime Bulhosa

sábado, fevereiro 23

O Livreiro Censor


Com a instauração da inquisição em Portugal pela bula "Cum ad nihil magis", de 23 de Maio de 1536, proibia-se o ensino da religião judaica entre os "Cristãos-novos" e o uso das Sagradas Escrituras " sem ser em latim. Passaram a existir três entidades censoras: censura do Santo Oficio, censura régia (ou do Desembargo do Paço) e censura do ordinário.

Em 2 de Novembro de 1540, o cardeal D. Henrique, nomeado Inquisidor-mor por D. João III, dava ao Prior da Ordem de São Domingos a autoridade para verificar o tipo de livros vendidos em livrarias públicas ou privadas, além de proibir a impressão de qualquer livro sem examinação prévia. Em 1559 foi criado o “Index Librorum Prohibitorum ”, o livro dos livros proibidos.

Desde aí e mesmo antes, com maior ou menor incidência, sempre existiu censura à liberdade de expressão em Portugal, como todos sabemos, até ao 25 de Abril de 1974.

Não sou felizmente desse tempo, no entanto, ainda conheci alguns livreiros que durante o Estado Novo e à sua maneira, vendendo por baixo do balcão livros proibidos, minimizavam os efeitos da censura. Lembro-me de Sr. Fernando Fernandes da livraria Leitura no Porto e em Lisboa o Sr. Barata da livraria com o mesmo nome.

Ao reflectir sobre este assunto pensei: Como nós livreiros recusando determinados tipo livros poderemos estar de alguma forma a fazer censura. E que deve ter havido livreiros que ao contrário dos exemplos dados, pactuavam com os regimes autoritários. Imaginei como seriam esses livreiros para com os seus clientes, transportando para os dias de hoje, uma possível conversa num Portugal ainda com censura.

Cliente: Gostaria de adquirir o “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

Livreiro: Desculpe, mas não vendo propaganda comunista.

Cliente: Então queria o “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen

Livreiro: Não vendo mexericos.

Cliente: E “O Crime do Padre Amaro” de Eça de Queirós?

Livreiro: Pornografia muito menos.

Cliente: Calculo que também não venda “Henry & June” de Anaïs Nin?

Livreiro: Esses senhores só pensavam em porcaria e eram imorais. Um livro impróprio para uma senhora.

Cliente: Claro! Tem toda a razão. Talvez um clássico o “Conde de Monte Cristo” de Alexandre Dumas.

Livreiro: Esse livro tem implícito, pelo menos três pecados mortais: A inveja a ira e a luxúria.

Cliente: O “Fim da Fé”, “Deus não é Grande” ou “A Desilusão de Deus”, estes estão fora de questão…?

Livreiro: Blasfémias! E se os vendesse seria sacrilégio.

Cliente: Está difícil…saiu agora um livro sobre Barack Hussein Obama?

Livreiro: Não conheço, mas com esse nome só pode ser contra a minha religião.

Cliente: Bem… então quero um livro completamente inócuo e que não faz mal a ninguém “A História do Sporting”, não concorda?

Livreiro: Esse até poderia ser… mas acontece que sou do Benfica e recuso-me.

Cliente: Afinal de contas, tem algum livro que me possa vender?

Livreiro: Tenho sim, o novo “Index Librorum Prohibitorum”

Nota: Todos os livros sugeridos para leitura encontram-se disponíveis na Pó dos Livros, excepto o último por razões óbvias.
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Jaime Bulhosa

sexta-feira, fevereiro 22

Prémios BLIBIE

O Blogue da Pó dos Livros foi nomeado para a categoria de: "Melhor Blogue de uma Editora ou Livraria".

Se acha que merecemos essa distinção em Junho começam as votações, entre aqui para saber mais.

…anda cá a baixo ver isto!


Não resisto a transcrever alguns trechos deste livro que encontrei: “O Amor Puro”, Doutor Georges Surbled, Editora Educação Nacional, 1943. Uma verdadeira relíquia, uma pérola do pensamento filosófico contemporâneo, diria mesmo mais: este senhor doutor é uma verdadeira “máquina de lavar” e higienizar a moral e os costumes. Começa assim:


Advertência

“Este livro não foi escrito para crianças, nem para rapazes e, ainda menos, para raparigas. Destina-se exclusivamente aos jovens casados, aos país e mães de família, às pessoas sérias e ponderadas que se preocupam com questões sociais e procuram entravar o movimento de decadência que nos arrasta para o abismo. A sua finalidade não é divertir, mas sim instruir e moralizar estabelecendo a verdadeira noção do amor…!

“A Castidade, a que os viciosos têm horror, de que o mundo tem medo, impõe-se à nossa vontade, faz a nossa força e a nossa honra. É a lei superior da religião, a que nos leva acima do mundo e das suas vis paixões e nos permite completar o nosso incomparável destino”

A Questão do amor

“Quem quer que tu sejas, eis o teu Senhor! É, foi ou não há-de sê-lo!”

“É nestes termos que Voltaire nos apresenta o amor, e é preciso confessar que, pela primeira vez, o cínico mentiroso, o velho patife de século XVIII tem a vantagem de não se enganar nem nos enganar. O escritor espiritual mostra-nos à evidência, com uma cega e violenta inclinação para a carne, o coração com tendência para o baixo prazer e a volúpia. A concupiscência não se separa da nossa ínfima natureza, e cedo ou tarde sofremos os seus assaltos insidiosos.”

Os nossos pais, que valiam moralmente mais do que nós, não usavam esses escrúpulos (está a falar dos escrúpulos de quem sentia vergonha da castidade) e tinham muita razão. Nos velhos tempos, a castidade era uma honra e dava ao amor o seu preço e toda a sua elevação. O casamento era respeitado, honrado, e a admirável descendência que dele resultava era suficiente para testemunhar que os pais compreendiam e praticavam nobremente o seu dever.”

“Antigamente, sob governos de autoridade e ordem moral – «longe estamos desse tempo» – a imprensa e publicidade de todo o género eram vigiados, O governo considerava um dever suster na passagem tudo o que ofendia o pudor. Havia uma censura e juízes. A criança era respeitada e salvaguarda. O olhar não era a cada passo ofuscado, perturbado pelas piores insânias….Não acontece o mesmo hoje. Toda a liberdade é dada ao vício, e as acções obscenas estendem-se vitoriosamente por toda a parte, na rua nas vitrinas dos quiosques e livrarias, no teatro, na imprensa, nos livros. Não se contentam em multiplicar as excitações à devassidão, ousam ainda apresentá-la como cientifica e razoável….”

“O amor é uma necessidade orgânica, inerente à nossa natureza, da qual faz parte. É uma verdade a reter. Mas – fixemos bem este ponto essencial – é uma necessidade especial, a nenhuma outra igual, e que como tal deve ser encarada à luz da razão e da ciência.”

“O santo Bispo de Génova propõe aos esposos como exemplo e modelo «um grande animal, digno, sensato, honesto», o elefante «que só tem relações com a fêmea de três em três anos, e por cinco dias somente», que o faz em segredo e nunca falta ao rio onde se lava e purifica.”

… e continua… blá blá blá blá blá blá…(não há pachorra, o que me impressiona é de que não foi há assim há tanto tempo… E quando envereda e justifica as suas teorias pela religião, credo! Minha Nossa Senhora Mãe de Cristo, Pai do Céu, consegue ser mais papista que o Papa. Foi em senhores como este que Ambrose Bierse se inspirou nesta conversa entre Deus e Satanás:

“Um dos erros lamentáveis do criador, penitenciando no saco e na cinza. Após ter recebido a categoria de arcanjo, Satanás tornou-se muito desagradável, acabando por ser expulso do Paraíso. A meio caminho da sua queda, parou para pensar durante um momento e voltou atrás:

“Há um favor que eu gostaria de pedir”, disse ele.

“Qual é”

“Segundo julgo saber, o Homem vai ser criado brevemente. E vai precisar de leis.”

O que dizes, malvado! Tu, o seu adversário de eleição, que tens como destino odiar a sua alma desde a aurora da eternidade – tu queres ter o direito de fazer as suas leis?”

“Peço perdão; o que eu quero é que possa ser ele próprio a fazê-las.”

E assim foi ordenado.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, fevereiro 21

Espaço dos leitores

Abrimos aqui um novo espaço de opinião aos nossos leitores. Dos textos sugeridos publicaremos aqueles que considerarmos pertinentes e que se enquadram no espírito do blogue, partilhemos ou não as opiniões neles expressas.


Porreiro, pá!

Aviso: este post é sobre um livro que não li.

Este livro foi um sucesso de vendas no último ano, tendo inclusivamente estado esgotado durante algum tempo. Por cerca de €25 – quantia módica face ao que promete – o leitor tem acesso, segundo a sinopse, à desmistificação do jogo na bolsa de valores. Podemos ainda ler que «A ideia nuclear de Ganhar em Bolsa é a de que qualquer pessoa, e não obrigatoriamente um perito, desde que dotada dos conhecimentos adequados e informação suficiente, pode seguramente ganhar na Bolsa, possivelmente muito e eventualmente de modo extraordinário, mesmo usando uma estratégia avessa ao risco».
Sim senhor. Isto é que é um negócio. 25 aéreos para poder «seguramente ganhar na Bolsa, possivelmente muito e eventualmente de modo extraordinário». Ah, e com pouco risco. Porreiro, pá!
Ora isto chateia-me. Desculpem, mas é mesmo assim. Como só pode ser evidente, se o que está escrito nesta sinopse for verdade, podemos todos deixar de trabalhar. Aliás não sei porque existiriam peritos – deviam ganhar tanto dinheiro para si próprios que a ideia de trabalhar para outros (ou escrever um livro sobre bolsa, já agora) seria uma manifesta perda de tempo. Tempo melhor aplicado a jogar na bolsa, com certeza.
Não sei o que está escrito no livro. Fiquei mesmo pela sinopse. Mas também eu gostava de dar umas dicas (grátis) sobre Ganhar em Bolsa: 1) tenham sempre carteiras diversificadas; 2) o investimento em bolsa é sempre de longo prazo (3 a 5 anos, mínimo) e 3) consegue-se ganhar dinheiro no curto-prazo se a) formos capazes de antecipar o que vai acontecer a determinadas empresas – vulgo bola de cristal – ou se b) dispusermos de informação que o mercado não tem – às vezes chama-se insider trading e às vezes dá cadeia.
Por essa Internet fora é fácil encontrar elogios de vários investidores ao livro, contando aplicações práticas realizadas ao longo dos últimos meses. Curiosamente, só se encontram experiências que correram bem – tenaz essa tendência para contarmos os nossos sucessos e omitirmos os fracassos.

Nostalgia

Lembram-se dos armários biblioteca do tempo dos nossos avós? Os livros enfileirados por detrás das portas de vidro eram como as caras nas fotografias antigas, tão diferentes, de outro tempo, uns solenes, outros austeros, outros enternecedores, outros cómicos, espicaçavam a curiosidade. É por isso que gosto tanto destes livrinhos da colecção Biblioteca de Iniciação Literária da Lello Editores. Até têm o mesmo cheiro!
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(Pode encontrá-los na Pó dos Livros)









Isabel Nogueira

quarta-feira, fevereiro 20

Relato de um jovem leitor, do futuro próximo.

Comprei um e-book, estou desejoso para ler o clássico de que os meus pais tanto me falaram, “As Benevolentes”, parece que é sobre os horrores de uma guerra, do tempo em que os meus bisavôs nasceram. O meu e-book é daqueles falantes e com acesso à Internet. . Quando penso nos meus avós: coitados, não sei como conseguiam ler em papel. Uma vez contaram-me que lambiam os dedos para conseguir passar as folhas, imagine-se! Liguei o áudio, não gostei da voz, tanto na versão feminina como na masculina. Optei por simplesmente ler eu mesmo, e em português. Que maravilha: basta carregar num botão e a página passa sozinha, nada de lambidelas. Deparei-me com algumas palavras de que não sabia o significado, decidi aproveitar as vantagens do aparelho e entrei no dicionário. Digitei a palavra e… mensagem: “Não foi encontrada essa referência”. Sem desesperos, fiz link para a Wikipédia. Quando dei por mim, tinha perdido mais de meia hora de leitura, depois de ter entrado em mais de dois links por palavra consultada. Simplesmente, levantei-me do sofá e fui ao dicionário de papel do meu avô: felizmente não tem links. Mais tarde instalei-me confortavelmente no café a ler o e-book. Cheguei ao décimo capítulo num instante, quando de repente o aparelho fez um “bip” e enviou nova mensagem: “Por favor, carregue a bateria dentro de 5 minutos”. Como estava entusiasmado com a leitura, fui a correr para casa, pois não tinha trazido comigo o carregador. Ao chegar, liguei o aparelho, e nada… fiz reset, nada… completamente morto. Bem, fui ao computador tentar saber como resolver o problema. Entrei na página correspondente, fiz a pesquisa por resolução de problemas, e encontrei: “No caso de o seu aparelho encravar, faça reset. Se mesmo assim não funcionar, dirija-se à nossa loja e peça assistência”. Com muita paciência, lá fui eu à loja. Foram impecáveis, disseram-me que o problema estaria resolvido em 24 horas, como costumava dizer o meu avô: porreiro pá! No outro dia, todo contente, liguei o aparelho e procurei o ficheiro “As Benevolentes” e… mensagem: “Não foi encontrado esse ficheiro”. Não acredito! A assistência, por engano, tinha apagado o ficheiro. Enervado, sem querer, deixo cair o e-book ao chão. Está decidido, vou à loja de velharias “Pó dos Livros” aqui em frente, ver se encontro a versão em papel.
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Jaime Bulhosa

Viver dos livros

Há os que os escrevem, os editam, os vendem….e os que os lêem:

Em Bloomsbury, sentado em cima de uma pilha de livros, um homem pede esmola aos que passam indiferentes, enquanto lhes lê em voz alta uma antologia de contos.


Nota: Bloomsbury é um bairro londrino que ficou conhecido por lá terem vivido diversas personalidades como: escritores, artistas e outros de áreas diferentes da cultura e ciências. Também chamados de Bloomsbury Group, da qual se destacam Virginia Woolf e John Maynard Keynes. Por este facto nascem nesta zona da cidade de Londres algumas livrarias interessantes. É ao mesmo tempo o nome de uma editora que ficou famosa por ter editado a série de Harry Potter de J.K. Rowlling.

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Jaime Bulhosa

terça-feira, fevereiro 19

Secção Informática

Cliente dirige-se à secção de informática e pergunta se temos algum livro que o possa ajudar e, passa a explicar a situação:

Há um ano e meio troquei a minha versão Namorada 7.0 por Esposa 1.0 e reparei que esta última provocou uma execução automática de Bebé 1.0 que me ocupa muito espaço no disco duro.
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No folheto esta aplicação não vinha mencionada. Mais ainda! Esposa 1.0 instala-se automaticamente noutros programas e corre automaticamente quando executo qualquer outra aplicação.
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Aplicações como BeerWithFriends 10.3, ou NoiteBorga 2.5 ou SundaySoccer 8.5 já não funcionam. Ainda por cima esta aplicação executa de forma invisível um processo/programa Sogra 1.0 que faz com que a aplicação Esposa 1.0 se comporte de forma irreconhecível.
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Não consigo desinstalar Sogra 1.0, o que é bastante chato, porque quando tento correr DomingoBeijinhos 3.0 esta última torna-se mais lenta e muitas vezes nem arranca.
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Pretendo voltar a reinstalar Namorada 7.0 mas não existe programa de desinstalação, parece-me ser bastante complexo e aparecem muitas janelas "Warning! Warning!".
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Não sei qual será o impacto na aplicação Bebé 1.0, que não quero retirar porque até me dá algum gozo, principalmente porque parece ser um software muito básico e problemático!
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Pode-me ajudar?
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RESPOSTA: Claro, mas não necessita de nenhum livro:
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Esses problemas têm sido comuns, bastante comuns, mas são devidos, na maior parte, a erros básicos de concepção: muitos utilizadores passam de qualquer versão Namorada X.0 para Esposa 1.0, partindo do princípio de que este é apenas um programa de divertimento.
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Mas não! Esposa 1.0 é mesmo um sistema operativo. Controla tudo!!! É quase impossível desinstalar Esposa 1.0 e voltar a instalar Namorada 7.0, porque existem ficheiros ocultos que fazem com que Namorada 7.0 se comporte como Esposa 1.0. Logo, não tirará qualquer partido.
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O mesmo acontece com Sogra 1.0. Estes programas são antigos e trazem, muitas vezes, problemas de compatibilidade.
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Com um pouco de sorte, e com tempo, um vírus poderá atacar Sogra 1.0, que é a única forma de resolver o problema.
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Alguns utilizadores já formataram tudo e instalaram Namorada Plus ouEsposa 2.0. e ainda criou mais problemas, porque não leram atentamente o capítulo Cuidados, parágrafo Pensão Alimentar e Guarda dos Filhos.
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Se tentar instalar Namorada 8.0, para depois passar para Esposa 2.0,os problemas ainda serão piores do que com Esposa 1.0. Existem versões 3.0, 4.0, 5.0 de Esposa, mas estas são reservadas a profissionais, têm um custo muito elevado e, claro, desaconselhados a qualquer utilizador normal.
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Se estes problemas continuarem, instale Solteirex 1.0; mas nós sugerimos que mantenha Esposa 1.0 e trabalhe com muito cuidado.
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Pessoalmente, instalei Esposa 1.0 e aconselho vivamente a ler com muita atenção o capítulo Erros Gerais, do Manual do Utilizador.Esposa 1.0 é um programa muito sensível aos comandos e funciona bem em modo protegido contra erros. Logo, qualquer erro deverá ser assumido por si.
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Uma das melhores soluções é executar comando: C:programasesposa1.0pedirdesculpas.exe logo que surja um erro ou um problema. Nunca use as teclas ESC ou DEL, porque senão terá que executar C:programasesposa1.0pedirdesculpas.exe /flores /all, para que tudo volte a funcionar correctamente.
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Esposa 1.0 é um programa interessante, mas pode gerar custos imprevistos se mal utilizado. Aconselhamos a instalar um plug-in, tal como Flores 5.0 ou Jóias 3.2ou Caraíbas 2.5.Versões freeware existem e funcionam bem, tais como SimMeuAmor4.5 ouTensRazão 6.5.
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Poderá consultar o site destas aplicações e verá que estão documentados resultados impressionantes.
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ATENÇÃO: Nunca instale SecretariaMiniSaia 3.3 ou Amiguinha 1.1 ou Amante Versão Beta porque estes programas poderão causar danos irreversíveis no sistema.
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Boa Sorte.
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(enviado por um leitor)

Passatempo



A respostas correctas deste passatempo eram: Mário de Sá Carneiro e Suicidou-se

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Depois de uma boa adesão aos nossos primeiros passatempos com respostas maioritariamente correctas, decidimos novamente aumentar o grau de dificuldade para criar maior interesse. O novo passatempo consiste em identificar o escritor e completar a sua biografia, votando no canto superior direito do blogue. Temos cinco possibilidades:

Morreu de tuberculose
Morreu de velhice
Morreu de acidente
Suicidou-se
Ainda está vivo


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Nota: Temos 10 exemplares do “Dicionário do Diabo” de Ambrose Bierce, edições Tinta-da-China, para oferecer às primeiras 10 respostas correctas. Basta para isso que nos envie um e-mail (podoslivros@gmail.com) com a seguinte informação: Nome, Morada , nome do escritor e o seu voto. Logo que receba um e-mail da Pó dos Livros com a confirmação do prémio, poderá visitar-nos e receber o seu livro.
(caso more fora da Grande lisboa, poderá solicitar o envio por correio).





Biografia incompleta:

Nasce, no seio de uma família burguesa endinheirada, filho e neto de militares. Fica sem mãe com apenas dois anos. Entregue ao cuidado dos avós, passa grande parte da sua infância em Camarate, perto de Lisboa. Inicia-se na escrita por volta dos doze anos. No liceu teve ainda algumas experiências esporádicas como actor e aos dezanove anos começa a escrever a sério. Matricula-se na Faculdade de Direito em Coimbra, mas não chega a concluir o primeiro ano. Aí, contudo, viria a conhecer aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor e mais famoso amigo, também ele escritor, que o introduziu no movimento literário da época. Desiludido parte para Paris a fim de prosseguir os estudos superiores, com a ajuda financeira do pai, onde conhece um reconhecido pintor português. Cedo, porém, deixou de frequentar as aulas, dedicando-se a uma vida boémia, vagueando pelos cafés e salas de espectáculo, chegando a passar fome, debatendo-se com os seus desesperos e frustrações, situação que o levou a uma ligação emocional com uma prostituta. Com dificuldades de integração social e psicologicamente instável, foi neste meio que escreveu grande parte da sua obra.

segunda-feira, fevereiro 18

Soprando o pó dos livros

Andava a soprar o pó dos livros de minha casa, quando me deparei com este livrinho que dá pelo nome de “Fábulas de Florian” com a provecta idade de 177 anos, editado pela Libreria don Tomás Jordan de Madrid em 1831. Já o conhecia, mas confesso que nunca o tinha aberto, nem sei quantos anos terá esperado para ser lido novamente ou se alguma vez foi lido. Chegou a mim através do meu pai, poderá ter vindo também dos meus avós, bisavós, tetravós… um rasto que se perdeu ao percorrer sete gerações. O livrinho é composto por 50 fábulas e outras tantas gravuras recortadas e coladas directamente sobre as folhas, algo impensável hoje em dia. O que me faz perguntar quantos exemplares terão sido feitos e quantos chegaram até hoje?
Provavelmente um dia o livro tradicional será substituído por um aparelho electrónico e este não durará de certeza tantos anos. Se essa substituição vier a verificar-se, perder-se-ão para sempre estas ligações com o passado.
Li-o nessa mesma noite, leitura por vezes difícil, porque está escrito em castelhano antigo. Valeu a pena a sabedoria das fábulas que nunca falham. Deixo-vos com uma das delas:


Nota: Como curiosidade uma das fábulas acaba com a frase “Antes só que mal acompanhado”. O provérbio terá vindo deste senhor? Jean Pierre Claris de Florian, nasceu a 6 de Março de 1755, em Château of Florian, Near Sauve, França e morreu a 13 de Setembro de 1794.

FÁBULA XL

Los dos Leones

De la sed hostigados dos leones
Á um mismo tiempo á um manantial llegaron;
Y aunque á la par beber los dos podian,
Entro la vanidad á reprobarlo,
Y quiso cada cual beber primero:
Miráronse con ojo sanguinário,
Encrespando del cuello las guedejas,
Y el lomo con las colas azotando:
Se embistieron, al fin con tal denuedo,
Que el bosque con rugidos aterraron.
Iguales en esfuerzo y valentia,
El combate duro muy grande espacio,
Hasta que ya rendidos, y cubiertos
De crueles heridas, se llegaron
Juntos al manantial; en el bebieron,
Y á muy pocos momentos espiraron.

Hombres, tomad leccion de estos leones;
Y no os despedaceis como insensatos,
Si despues de ofenderos mortalmente
Hábeis de beber juntos, y en un charco!
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Jaime Bulhosa

A "besta célere" por Alexandre O´Neill

BEST-SELLER

"Há quem lhe chame, por brincadeira, besta célere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por média) desse produto cultural (agora é tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edições. O best-seller é um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de «marketing» editorial e livreiro. É para se vender- muito e depressa -que o best-seller é construído com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundantíssimos, nem vale a pena enumerá-los. Convém não confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com «topes» de venda. Embora seja cabeça de lista, o best-seller tem, em relação aos livros «normais», uma característica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campeão de vendas. A sua razão de ser é essa e só essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido sério, que «o resto é literatura».
Estou a pensar em bestas céleres como Love Story ou O Aeroporto. Não estou a pensar em «topes» de venda como O Nome da Rosa ou Memórias de Adriano. Estes últimos são boa, excelente literatura que, por razões pontuais e, muitas vezes extrínsecas à sua própria feitura, conheceram grandes êxitos de venda, o que é bastante diferente. Enquanto o best-seller é esquemático, quer dizer , não comporta mais do que o necessário, em termos de ingredientes, para comover (ou motivar, como é costume dizer-se) os simplórios, o livro «normal»nem pensa nisso. Nascido de uma necessidade interior, o livro «normal» chega ao leitor de dentro para fora. O best-seller é exactamente construído ao contrário: chega de fora para dentro ou, até, de fora para fora, visto que a sua penetração no leitor não é nenhuma, ao passo que a sua propagação é imensa.
Habitualmente, o best-seller, ao fim de alguns anos, está esquecido ou, então, foi posto em cinema ou em TV e será, durante uns tempos, ainda lembrado, quase nunca em termos de literatura, que não é, mas apenas de história. O cinema ou a TV não podiam senão tornar ainda mais liso o que liso e correntio era.
Editores com o sentido da oportunidade aproveitam, então, para lançar ou desenterrar tiragens, que às vezes se vendem, outras não, mas sempre com a inevitável cinta: Um grande sucesso agora no cinema (ou na TV). Alimentam, deste modo, curiosidades menores do público: saber com antecipação o que vai acontecer (caso das séries televisivas, aliás, «adiantadas» na Imprensa diária e semanal) ou ver até que ponto o cinema respeitou ou não respeitou a história original.
O best-seller é feito a pensar num leitor «espremido» por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer outro objecto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo...) e cumpre, quase sempre , o seu papel, virada a última folha.
O best-seller pode ser preparado com muita habilidade e, para os desprevenidos, constituir, até, uma obra de qualidade. A propaganda fará o resto. Mas isso será só ilusão. O best-seller tem a qualidade apenas necessária para não comprometer a quantidade que alcançou ou deseja alcançar. Esse é o seu verdadeiro objectivo: quantidade e mais quantidade.
Hoje, que a literatura integra áreas cada vez mais vastas, uma há que não poderá integrar, a do best-seller, sob a pena de se transformar no contrário de si mesma: o fabrico e o consumo desenfreado de um produto que por acaso se chama livro."

Alexandre O'Neill, "Uma coisa em forma de assim", Assírio & Alvim, 2004 (págs. 148,149 e 150).


Débora Figueiredo.

sábado, fevereiro 16

Literatura de Género


Isto é, em termos temáticos as mulheres lêem o mesmo que os homens e vice-versa?
Será que algum homem leu o “Diário da Tua Ausência”, Margarida Rebelo Pinto, Oficina do Livro ou alguma mulher leu o “José Mourinho - O Vencedor”, Joel Neto, Dom Quixote?
Tenho um amigo editor que jura que a maioria dos livros que edita são dirigidos às mulheres. Eu, enquanto representante do sexo masculino tenho uma suspeita: as mulheres lêem o que lêem e lêem o que os homens lêem. Nem que seja para dizer mal... :)


Jaime Bulhosa

sexta-feira, fevereiro 15

Reclamação

Enquanto livreiro “deveria” apenas chamar atenção para o lado positivo do mundo dos livros. Acontece que sou também um leitor e mesmo que não o fosse, a minha profissão obrigar-me-ia a ser solidário com os meus clientes.
Quem é que nunca se sentiu defraudado, enganado, ludibriado, depois de comprar um livro? Chegar a casa e nem da página cinquenta passar. Porque era mau, era plágio, estava mal escrito, mal feito, mal traduzido, pessimamente revisto, as folhas soltavam-se e não se conseguia ler (sem ser com uma lupa). Não servia de todo para o efeito que prometia na capa e contracapa, em letras gigantes e frases bombásticas. Penso que isto já se passou com algumas pessoas.
Se nós, livrarias, à semelhança do que existe com outros ramos devemos prestar um bom serviço, não faltar com o respeito aos clientes, sob pena de podermos ser punidos, inclusive fecharem-nos a porta. Porque é que os autores e editores não são também obrigados a ter livro de reclamações?
Não estou a falar de estilo, de liberdade artística ou literária, nem sequer de gosto. Estou a falar de fraude. Quando assim é, deveríamos ter o direito de reclamar, devolver e trocar por outro. Felizmente isto não acontece na maioria dos livros.

Jaime Bulhosa

Loira na Biblioteca

quinta-feira, fevereiro 14

Dia dos namorados


Já há alguns anos se percebeu: o dia dos namorados veio para ficar. E todo o comércio se agita, no afã de não deixar a oportunidade passar ao lado. Também no mundo dos livros, é claro, que os tempos andam difíceis e todos os pretextos são bem-vindos. Surge então nas livrarias toda a sorte de packs e produtos concebidos especificamente para a data.


Mas não era preciso, já havia os livros.

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"Fica assim, quero olhar para ti, olhei-te muito mas não eras para mim, agora és para mim, não te aproximes por favor, fica como estás, temos uma noite para nós e eu quero olhar para ti(...)"


in "Seda", Alessandro Baricco, Dom Quixote, 2008, Preço: 12,00€


Isabel Nogueira

Mel

"A minha forma de trabalhar é muito experimental. O acaso propõe-me caminhos inesperados a seguir, os acidentes fazem parte da minha produção, incorporando-se, num jogo com o fortuito.” É assim que Cláudia Mel fala do que faz.
A Cláudia Mel é artista plástica. É argentina. Agora vive no Porto. Trabalha em desenho gráfico, ilustração, fotografia e video, colabora com o Serviço Educativo do Museu de Serralves, desenvolve workshops de fotografia. Expôs em diversas galerias e instituições na Argentina, Espanha, Suíça, Japão e Portugal.
Na Pó dos livros temos alguns “apontamentos” seus - que as artes gostam de morar juntas. Acrílico, tinta-da-china, aguarela, fotografia, desenho, tela, papel...informais, numa caixa entre os livros, deixam-se manusear: “Arte avulso. Irresistível.”


Isabel Nogueira.

quarta-feira, fevereiro 13

abecedário

S, T e V - clássicos e da Penguin.

C, A, F e E - diluem-se em água e bebem-se quentes.

& ETC - uma editora e um livro "Planta Rubra" de Alberto Pimenta (2007).

De E a F - na gaveta, à espera de quem os leia.

Débora Figueiredo.

Não só de "coisos" vive as Caldas

Gente que vende livros existe cada vez mais. Mas, livreiros a sério são difíceis de encontrar. Não sou daqueles que acha que é uma espécie em vias de extinção, sempre foram raros. Penso, no entanto, que surgirá sempre gente nova a trabalhar com livros e que mais cedo ou mais tarde lhes ganha gosto.
Esta conversa vem a propósito, de ter conhecido há poucos dias uma dessas livreiras raras. Falo de Isabel Castanheira, uma das mais “antigas” do país. Tem uma livraria nas Caldas da Rainha, que dá pelo nome de Loja 107 e fica num edifício lindíssimo no centro da cidade. Desenvolve paralelamente à livraria, sob o título sugestivo “Café Literário”, no Café Pópulos, junto ao jardim das Caldas, actividades culturais como: lançamentos, debates, palestras, etc. É um daqueles exemplos a seguir pela sua perseverança em levar para fora de Lisboa alternativas válidas.
Como curiosidade é uma apaixonada por gatos e por aquele artista muito conhecido… o do… manguito, bem é melhor verem aqui.
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Jaime Bulhosa

Pré-Publicação "Aliança", Jonathan Fenby, QuidNovi 2008



Três homens muito diferentes, de três países muito
diferentes, salvaram o mundo do fascismo na Segunda
Guerra Mundial. Enquanto os seus exércitos combatiam
em três continentes, Franklin Roosevelt, José Estaline
e Winston Churchill delinearam a forma que o mundo
teria no pós-guerra em encontros e reuniões, intensas
e frequentemente angustiadas, que se prolongaram ao
longo de quatro anos. Este livro conta, com todos os
pormenores, a história de como estes três homens
venceram a guerra e definiram um modelo de paz, à
medida que as suas esperanças iniciais iam sendo
substituídas pelo crescente confronto entre o Leste e
o Ocidente.
A narrativa, muito viva, abrange as conferências dos
Três Grandes em Teerão e em Ialta e o encontro secreto
mantido a bordo de um navio numa enseada deserta
da Terra Nova; as sessões estimuladas pelo vodka que
se realizavam no Kremlin até altas horas da noite e os
piqueniques de Verão na propriedade do presidente
Roosevelt. As conversas e as mensagens dos Três
Grandes, juntamente com episódios reveladores dos
seus temperamentos, mostram como a aliança foi sendo
construída e mantida e, depois, se desfez.
No centro deste livro estão três indivíduos — Roosevelt,
o patrício populista que se dava bem com a
manipulação, o secretismo e a dissimulação; Estaline,
o ditador sangrento que procurava atingir
inexoravelmente os seus objectivos; e Churchill, a lutar
desesperadamente para manter o estatuto do seu país
perante os aliados. Nesta narrativa, os Três Grandes
tornam-se pessoas vivas, à luz das suas manobras
políticas, dos seus problemas de saúde e dos seus
dilemas e medos pessoais. E, com eles, surge um leque
de outros protagonistas de peso — Charles de Gaulle,
Chang Kai-Chek, ministros dos Negócios Estrangeiros
e conselheiros, incluindo muitas figuras de primeira
linha já esquecidas.
Conduzindo o leitor ao interior dessas salas cheias de
fumo, Aliança mostra-nos como foi a Segunda Guerra
Mundial, politicamente e ao vivo. É uma narrativa
historicamente importante sobre uma coligação de
grandes potências que deixariam, para sempre, a sua
marca na história do mundo e, ao mesmo tempo, o
relato apaixonante de um momento crucial da história
humana, revivido através de três líderes formidáveis
que estiveram no centro de todos os acontecimentos.


Uma Edição QuidNovi
PVP: 24.95€
Em Março nas Livrarias

terça-feira, fevereiro 12

O sucesso comercial

O sucesso comercial de um livro (sucesso comercial e não sucesso literário) depende dos diversos intervenientes ou mediadores com capacidade de influenciar a decisão de compra.
Primeiro temos o autor. É ele que pensa o livro que o desenvolve e passa para o papel. De seguida vem o editor que o descobre, faz a triagem e possibilita, ou não, que o livro seja editado. Trabalha com o autor ou com o tradutor (quando existe) e sugere alterações, cortes, acrescentos, etc. O revisor e o paginador também podem marcar a diferença tendo uma função importante no resultado final do livro. O designer gráfico é cada vez mais um elemento preponderante no seu sucesso, uma capa apelativa é, como sabemos, essencial no processo de compra por impulso. A distribuição (força de vendas) junto dos livreiros, influencia-os no sentido de acreditarem mais em determinado título levando-os muitas vezes a dar-lhe mais destaque no ponto de venda, e isso é absolutamente crucial para o seu sucesso. Claro que temos muitos outros factores que têm tanta ou mais importância, como: a qualidade do texto, o nome do autor, a temática, o marketing directo e os materiais usados.
O papel do livreiro embora mais discreto é o de “ouvir” os leitores: sugestões e partilha de leituras, desejos, reclamações, desilusões, ansiedades, relatos, e muitas vezes indicar-lhes os livros que procuram mas não sabem que existem. No fundo, o livreiro é o que está mais perto do leitor e o que tem a noção mais aproximada das suas necessidades.


Jaime Bulhosa

Petiscos

Quando o trabalho abranda e tenho tempo disponível, adoro bisbilhotar as prateleiras da livraria. Pego ao acaso em livros e “petisco” um poema, um conto, um pensamento, uma introdução ou mesmo um primeiro capítulo. Num desses passeios encontrei num pequeno almanaque de curiosidades, alguns títulos de canções country. Gostava de partilhar a tradução convosco:


Did I Shave My legs For This?
Rapei eu as Minhas Pernas Para Isto?
Deana Carter

If You Cant’t Live Without Me, Arent’t You Dead?
Se Não Podes Viver Sem Mim, Porque É Que não Estás Morta?
Benjamin Costello

Thank God and Greyhound She’s Gone
Graças a Deus e ao Transatlântico, ela Foi-se Embora
Roy Clark

My Wife Ran off With My Best Friend, and I Sure Do Miss Him
A Minha Mulher Fugiu Com o Meu Melhor Amigo, E Que Saudades Que Eu Tenho Dele
Phil Earhart

Jesus Loves Me But He Can’t Stand You
Jesus Ama-me Mas Não Te Suporta
Austin Lounge Lizards

If The Phone Doesn’t Ring, It’s Me
Se o Telefone Não Tocar, Sou Eu
Jimmy Buffett

If I Had It to Do All Over Again, I’d Do It All Over You
Se Tivesse de Fazer Tudo Outra Vez, Fazia-o Por Cima de Ti
Dan Hicks e Hot Licks
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Jaime Bulhosa

In “Inciclopédia”, Gideon Haigh, Tinta-da-China 2006

segunda-feira, fevereiro 11

Compatriotas

É curiosa a breve afinidade que sentimos com o perfeito estranho que anda a ler o mesmo livro que nós. (É como quando deambulamos em terra alheia e inesperadamente ouvimos falar português.)
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Isabel Nogueira

A Book at Bedtime

Resultado do Inquérito


Este foi o resultado do inquérito feito sobre livrarias. Como se pode constatar pelo gráfico apresentado, deixa-nos a nós livreiros independentes muito satisfeitos.

Obrigado pela participação.




sábado, fevereiro 9

O paraíso mora no País de Gales

Foi por causa de um lindíssimo exemplar do livro "A common reader" de Virginia Woolf, que a minha irmã trouxe de Londres, que ouvi falar pela primeira vez de Hay-on-Wye a cidade dos livros, no País de Gales.
Ontem, quando andava a passear de imagem em imagem descobri esta estante e desde então, ainda não parei de pensar neste paraíso dos livros. Sem termo de comparação possível, imagino os nossos passeios pelos alfarrabistas de Lisboa à procura de livros para a livraria, serem transportados para um patamar de sonho.

The Honesty bookshop
interior
Murder & Mayhem bookshop
à chuva
The Children´s bookshop (aqui passava muitas horas, de certeza).
OK.

Débora Figueiredo
.

Fotografia do post tirada daqui.

afinidades

Upstairs e downstairs.

Estas gavetas e as nossas gavetas dos livros de bolso.
Débora Figueiredo.

sexta-feira, fevereiro 8

DAGREST

Há dias, a pretexto do lançamento pela cavalo de ferro, da edição bilingue de “O que resta do dia”, uma antologia de poesias de Judith Herzberg, Jorge Silva Melo esteve na Pó dos livros na companhia da autora e da sua tradutora Ana Maria Carvalho.

Eu não conhecia a obra de Judith Herzberg, poetisa e dramaturga holandesa já publicada em Portugal pelos Artistas Unidos. Sentei-me na plateia com recompensada expectativa.
Apresentada a autora e a sua obra, JSM leu poemas de Judith Herzberg. Por vezes a autora vez dueto com ele, lendo o mesmo poema em neerlandês...

A terminar o prefácio de “O que resta do dia”, JSM diz que gosta de ler as poesias de Judith Herzberg em voz alta. “É também como se anotasse a minha vida e a da minha gente.” - Talvez para gostar de poesia tenha de ser mesmo assim!



FICA

Fica longe das pessoas de bom senso
fica perto dos apaixonados
nem que estejas só e não seja por ti
fica antes num luto perplexo
porque o bom senso é contagioso
e dá sempre cabo deles.

in “O que resta do dia”, Judith Herzberg,
cavalo de ferro, 2007

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Isabel Nogueira

quinta-feira, fevereiro 7

Pré-Publicação - "O Crocodilo Que Voa", Luiz Pacheco

Nas livrarias dia 11 de Fevereiro
Preço 17.80 €
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O Crocodilo Que Voa reúne as entrevistas publicadas entre 1992 e 2008, seleccionadas por Luiz Pacheco e João Pedro George.

Entrevistadores:

Baptista-Bastos
Carlos Quevedo
Cláudia Galhós
João Paulo Cotrim
João Pedro George
Mário Santos
Paula Moura Pinheiro
Pedro Castro
Pedro Dias de Almeida
Ricardo de Araújo Pereira
Ricardo Nabais
Rodrigues da Silva
Rui Zink
Vladimiro Nunes


Prefácio
«Cousas loucas acertadas»
João Pedro George

Luiz Pacheco pertencia àquele tipo de pessoas que tem o dom da conversação. Ouvi-lo dar uma opinião ou narrar uma historieta, uma recordação inesperada, é uma experiência que perdura na memória. Fosse pela agilidade mental ou pelo implacável sentido da lógica, pela sinceridade desarmante ou pelo desapego de quem não quer ser correcto ou bem-comportado; fosse pelas intervenções cómicas, o humor negro, o absurdo, o sarcasmo, a picardia, o cepticismo de quem viu e viveu muito, de quem teve uma experiência imensa, um íntimo conhecimento do ser humano. Com alguém assim, acreditem, aprende-se muito.
Felizmente, os jornais e as revistas perceberam isto há algum tempo, e não se dispensaram de publicar, regularmente, entrevistas com Luiz Pacheco. Só tenho de aplaudir, porque esta atenção da imprensa, é de presumir, deu-lhe novo ânimo como escritor e ampliou-lhe o número de leitores, em particular entre as gerações mais novas. Facto é, porém, que esta curiosidade nem sempre teve, diga-se, as melhores razões. Porque o que interessava realmente, por vezes, era captar o lado pitoresco ou castiço, como nos fenómenos de feira. Era colher indiscrições, era dar à estampa, na primeira página, em letra redonda, um títuloprovocador. Os jornalistas, que já lhe conheciam a índole «malevolente» (é o próprio que o confessa, na entrevista a Mário Santos), iam à cata do mexerico, da inconfidência, da intriga [...].
A este respeito, valha a verdade, Luiz Pacheco não foi nenhum desmancha-prazeres e, escusado será dizê-lo, raramente os jornalistas voltavam para as redacções de mãos vazias. Não porque quisesse ocupar o palco a qualquer preço, mas porque lhe estava no sangue e porque conquistara, há muito, esse direito, essa liberdade de dizer o que lhe dava na gana. Era rude? Era torcido? Era cruel? Talvez. Era inconveniente? Rompia em excessos? Descambava nas indelicadezas? Dava respostas chulas? Melhor! Quando à nossa volta o clima mental é lúgubre e estéril; quando o meio literário em que vegetamos não promove o espírito crítico, antes o comércio escuro e as mútuas mesuras (mas isto é como malhar em ferro frio, quem é que quer saber disso?), abençoado Pacheco! Num ambiente destes, repito, as judiarias e o temperamento belicoso do Luiz tinham um efeito desinfectante. E atirar à cara dos obsoletos literatos locais uns quantos raciocínios sumários, aplicar-lhes algumas dentadas de cobra cascavel, fazendo-lhes sangrar o orgulho, era um dever, mais, era um sinal de civilização.

Colóquio - O Regicídio 1908-2008

(Faça clic na imagem para aumentar)

quarta-feira, fevereiro 6

AVISO: Se estiver a pensar em ler o livro “As Benevolentes”, NÃO LEIA ESTE POST.

A maior parte dos meus amigos está a ler “As Benevolentes” de Jonathan Littell, Dom Quixote, (apesar das suas mil páginas). Quando nos encontramos as conversas normalmente são sobre o livro. Eu, como "estava interessado" em lê-lo, tentava não ouvir as conversas para não estragar mais tarde a leitura, à semelhança com o que se faz quando se vê um filme, não vá de repente alguém fazer o favor de dizer quem é o assassino e como termina a história. Pois bem, não é que um deles decide fazer isso mesmo e diz: “Os assassinos dos Judeus são os Alemães e perderam a 2ª Grande Guerra”.
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Jaime Bulhosa

terça-feira, fevereiro 5

livrarias independentes

Inauguramos hoje, na barra dos links, um espaço com moradas de livrarias independentes. Como aqui, na Pó dos Livros, lá também moram letras, livros e pessoas que gostam de falar deles e sobre eles. Cada uma tem a sua personalidade e as suas manias, mas é isso mesmo que as torna diferentes.

Boas notícias sobre o mesmo tema (via Cadeirão Voltaire).

Débora Figueiredo

O melhor entretenimento em frente à TV…

Estamos os dois confortavelmente sentados no sofá em frente da televisão.
Começou: centramos a atenção no cenário onde se passava a acção desta história. Metia um pouco de medo ao Vasco, pois tinha um palácio assombrado, meio destruído com muitas teias de aranha, morcegos e outros bichos medonhos. Quando mudava o cenário e novas personagens apareciam, o Vasco dava um salto no sofá e agarrava-se mais a mim. Ao mesmo tempo, dizia – continua… continua, quero ver as múmias e os fantasmas. Eu continuava, de vez em quando tinha de voltar atrás. Ia-lhe explicando os acontecimentos, os olhos do Vasco brilhavam de fascínio e os seus lábios contraíam-se entre um sorriso e algum medo à mistura. Afinal, aqueles que pareciam monstros não o eram, eram feios mas muito engraçados. Chegou o fim da história e o Vasco disse – adorei, quero outra vez! – Não, já é tarde e tens de ir para cama que amanhã é dia de escola. Fechei o livro e apaguei a luz.
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Jaime Bulhosa

breves

Os blogtailors agora também moram aqui .

Para Abril - o regresso da revista Ler, da Fundação Círculo dos Leitores, dirigida por Francisco José Viegas.

O aparecimento de uma nova editora - Edições Nelson de Matos.

Atrás do balcão - uma nova rubrica com entrevistas a livreiros para visitar no Bibliotecário de Babel .

segunda-feira, fevereiro 4

ATTILA JÓZSEF

Em Maio de 2003 visitei pela primeira vez Budapest. Entrei numa livraria para tentar conhecer um pouco mais sobre um país do qual não tinha muitas referências. A dificuldade da língua empurrou-me para as edições bi-lingues em húngaro e inglês. Na secção de poesia encontrei ATTILA JÓZSEF.

Nasceu em 11 de Abril de 1905 em Budapeste, filho de um operário romeno trabalhador na indústria de sabões e de uma lavadeira. O pai abandonou a família quando ele tinha três anos de idade, deixando os três filhos ao cuidado da mãe que trabalhou arduamente para os sustentar. A sua mãe faleceu quando Attila tinha quatorze anos. Apesar de viver em extrema pobreza terminou o liceu e publicou o seu primeiro volume de poesia aos 17 na principal revista literária húngara, Nyagat.

Aos 19 anos ingressou, na Universidade de Szeged para estudar literatura francesa e húngara, mas foi expulso no ano seguinte devido a publicação do poema “Com um Coração Puro” (“With a Pure Heart”). Depois da expulsão, parte para Viena, em seguida para Paris, onde é admitido na Sorbonne. Em 1927 volta a Budapest e passa a militar no clandestino Partido Comunista até à expulsão em 1930.

Este acontecimento marca um período de crescente depressão e instabilidade psíquica. Apesar de vários períodos de tratamento Attila József atirou-se para baixo de um comboio no dia 3 de Dezembro de 1937. Tinha 32 anos.

Apesar da extrema miséria e pobreza em que sempre viveu e dos problemas de saúde mental que o atormentaram Attila József escreveu poemas de extrema beleza, profundidade e generosidade. Sobre o pai, que mal conheceu e o abandonou a ele e à restante família, escreveu este, do qual só conheço a versão em inglês (tradução de John Bátki, editado pela Corvina, 2002, Budapest):

AT LAST I UNDERSTAND MY FATHER

At last I understand my father,
Who, across the resounding ocean,
Had set out for America.

He’d gone away, it’s nothing new,
To bravely collar the good fortune
That was by rights his due.

His chances dwindled, his hope
Embittered, in the old country,
He was tired of boiling scented soap

At last I understand my father,
Who, across the wavering ocean,
Had set out for America.

While the lords filibustered,
He packed his bag and moved on where
Hard work earned good money, he’d heard.

In the forests back home not a leaf was his,
All the way over he remembered
And threw up on the heaving waves.

Wisely, he had left his family.
His children shouldn’t have to bless him
For each meagre hard-earned penny –

only to curse him after he dies.
No, he was not a preacher of morals,
Nor was he loyal to clouds of lies.


At last I understand my father,
Who, across the deceptive ocean,
Had set out for America

At last, as I set out for my
New World: Flora is my America.
Slowly, the old coastlines sink and die,
---
I’m no longer lost in those pains and fears.
From the depths of human faces
An edge of new understanding appears.

Just like my father had set out-
Even if God never existed,
I would still trust this world to God.

This is not shrinking from the fight:
For love I would cheat and kill -
but in acceptable ways, if you will.
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(enviado por um leitor amigo)

sexta-feira, fevereiro 1

Blaufuks

Percorri as estantes e fiquei detido nesta esquina da livraria. Não sei se vou para a esquerda ou para direita, se para cima ou para baixo. De A a Z tenho centenas de escolhas, alguns reiteradamente aconselhados, (sou um privilegiado da diversidade). Como não me apetece ler vou rever Blaufuks.

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Jaime Bulhosa