sábado, janeiro 31

A fábula de Byblos

Nota: Este texto foi publicado na Revista Ler de Janeiro n.º 76, inserido no artigo assinado por José Mário Silva sob o título: “O que podemos esperar de 2009?”.


«Era uma vez um gigante, que por um desejo enorme foi possuído. […] Quis ter tudo e, por tudo querer ter, quase nada conseguiu […]. Logo, em feio ogre se transformou, por impulso narcísico ao espelho olhou, dele próprio e de susto morreu. […] Pelo menos foi o que na história constou. […]»

Estas frases foram retiradas de fábulas de Esopo, de Florian e de contos de Grimm - pequenas narrativas que na maior parte das vezes retratam de forma exemplar uma realidade cruel, como foi o caso da insolvência da livraria Byblos. Não fossem os prejuízos, a lamentar, causados às pessoas envolvidas directa ou indirectamente no projecto Byblos e esta aventura ter-me-ia parecido não mais do que uma fábula, uma mera ficção hiperbolizada (diga-se, a bem da verdade, que foi preciso ter coragem).

Como em todas as fábulas, há sempre uma moral da história. As causas do encerramento da Byblos já foram sobejamente diagnosticadas pela comunicação social e também pela blogosfera. A péssima localização, o marketing, os erros de gestão, o mau relacionamento com funcionários e fornecedores, a crise económica e financeira mundial, enfim, um conjunto de causas que não importa aqui desenvolver. Importa, sim, reflectir sobre as eventuais consequências negativas ou positivas deste caso. Pergunto: quais foram as consequências para o mercado editorial e livreiro, para além do óbvio aumento da taxa de desemprego e da transferência de alguns milhões de euros? A meu ver, muito poucas. Em termos económicos, a Byblos praticamente não teve impacto. Nenhum editor passou a editar mais, melhor ou pior, nenhum livreiro passou a vender menos, nenhum distribuidor fechou as suas portas. No entanto, em termos qualitativos, receio que o efeito psicológico do encerramento da Byblos possa prejudicar o mercado do livro. Américo Areal, proprietário da Byblos, propôs-se criar uma grande livraria de fundo, independente, com uma oferta de 150.000 títulos que iria privilegiar os pequenos editores, edições de autor, novos autores etc. Desde logo teve o entusiasmo e apoio geral da comunicação social e dos opinion makers que veicularam esta ideia. A Byblos faliu e a sensação que pode ficar, entre os editores e livreiros já estabelecidos, entre novos investidores, leitores, escritores, autores, entre o público em geral, é a de que uma livraria, uma editora ou um livro não podem ter sucesso sem uma aposta total no mainstream dos livros descartáveis, da literatura light, do copy-paste, do jet-set. Mas na realidade o conceito em si não falhou, simplesmente nunca se cumpriu. Desde o início ficou aquém do prometido. Nunca chegou a ter a representação de editoras importantes, como por exemplo as distribuídas pela Bertrand. Culturalmente, não surgiram movimentos novos, não se criou nenhuma dinâmica de debate ou reflexão, nem se proporcionou ao público uma oferta de qualidade diferente, diversificada, alternativa, plural, que desse origem a novos hábitos de consumo. Não passou de propaganda para inglês ver.
Moral da história: perdeu-se uma boa ideia, uma oportunidade de nos colocarmos ao lado de outras cidades e capitais europeias, onde, a par da concentração editorial e livreira, se mantiveram projectos alternativos, independentes, que continuam a dar primazia à qualidade e à diversidade literárias. Perdeu-se uma hipótese de diluir a quase unanimidade instalada no mercado do livro, esta dependência absoluta que alguns editores, livreiros e autores têm da novidade fácil, do consumo imediato, com um ciclo de vida cada vez mais curto, impedindo que o fundo editorial (longsellers, outrora suficientes para sustentar os custos de estrutura) se mantenha disponível no mercado, em vez de se acumular nos armazéns às toneladas, empilhado em paletes, ou que pura e simplesmente seja destruído.
Por isso, creio que todos desejamos e necessitamos que apareçam novas alternativas, sob pena de que alguma fábula amarga se concretize novamente.


Jaime Bulhosa

Um comentário:

Sofia disse...

Olá:)

Descobri este blog através de outro e gostei do que li.
E identifiquei-me com este post em especial (ainda não vi todos:P).

Eu ouvi falar da Byblos e conheço gente que tal como eu achou o conceito interessante mas que nunca lá chegou a por os pés.
A localização não podia ter sido "mais ao lado", uma escolha que considerei logo incompreensível porque a distância da livraria à estação de metro mais próxima é tudo menos próxima. Além disso não sinto que a Byblos tenha comunicado comigo enquanto consumidora.

Triste de facto:/