quinta-feira, janeiro 22

A livraria (o lado não romântico)



O ritmo é alucinante. O vendedor mostra uma mala cheia deles. Nós fazemos má cara. Ficamos indecisos. Escolhemos apenas alguns. O vendedor faz má cara. Não atinge os objectivos. O editor protesta. O autor não percebe porquê. Nós temos pena. Não podemos ter todos. É fisicamente impossível. Economicamente errado. Chegam caixas e caixas. Abrem-se as caixas. Conferem-se as facturas. Dá-se entrada no sistema informático. Classificam-se na área temática. Colam-se as etiquetas do preço. Carregam-se aos quilos. Colocam-se em cima das mesas. Uns virados para um lado, outros para o outro. Chama-se a isto casá-los. Esperam em cima das mesas. Há quem lhes toque. Os abra. Leia uma passagem. Os deixe. Não podem esperar mais. Em breve vêm outros. Só mais uns dias. Aconselham-se mais uma vez. Ninguém os quer. Volta-se a pegar neles. Nem sequer ganham pó. De novo o sistema informático. Um por um. Processa-se a devolução. Novamente em caixotes. Chama-se o transportador. São levados para um armazém frio, escuro. Cheio de livros, azarados como eles.
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Jaime Bulhosa

11 comentários:

{anita} disse...

Oh :(
Não há associações de protecção dos livros-mal-amados?

Pó dos Livros disse...

Não há. Mas garanto que seria uma associação com muitos associados.

Yo disse...

... e em inicio de ano o inventário à loja?
Ainda lembro esses dias :)

Anônimo disse...

Vai um comentário de quem também está por dentro, e numa editora. Os editores fazem má cara às devoluções, mas podiam evitar essa se a fizessem quando editam os livros. Edita-se tanta porcaria que certas livrarias chegam a ter um cheiro... nauseabundo.
Deviam fazer-se mais guias de devolução aos editores.

observadora disse...

Pois, mas os da Tinta da China estão lá sempre, e alguns em friso, com 2 ou 3 exemplares de cada título lado a lado... Será só um problema de espaço? Não parece...

Anônimo disse...

Este último comentário era desnecessário se a observadora se deslocar a outras livrarias que pertencem a editoras repara que acontece o mesmo.
Agora eu gosto de ir á Pó dos Livros principalmente devido á sua boa selecção de importação já que os seus directos concorrentes só nos apresentam saldos dos saldos do que se faz lá fora.
Continuem a apostar nesta secção e verão os seus frutos eu continuarei a comprar na medida das minhas possibilidades.
Um fã!!!

observadora disse...

Pois, cara fã, mas "oficialmente", a Pó dos Livros é uma LI, Livraria Independente, ou seja, não devia dar destaque especial a NENHUMA editora. Ou se joga claro, ou deixa-se de queixumes.

Pó dos Livros disse...

De facto os livros da Tinta-da-china não são azarados na Pó dos livros. Já noutras livrarias o mesmo pode não suceder.
Devo acrescentar que é público desde o inicio que a Pó dos Livros tem ligações estreitas com a Tinta-da-china, apesar de serem duas pequenas empresas independentes uma da outra, identificam-se no seu perfil e posicionamento face ao mercado. A Tinta-da-china publicou cerca de 60 títulos em 3 anos, menos do que algumas editoras publicam em dois meses. Assim sendo, não me parece que seja exagerado o destaque dado à Tinta-da-china na Pó dos Livros, já que disponibilizamos ao público aproximadamente 20 000 títulos.

Obrigado

Jaime Bulhosa

observadora disse...

Caro livreiro, posso dar-lhe os nomes meia dúzia de editoras que publicaram muito menos livros do que a Tinta da China nestes 3 anos, e quando aí vou não vejo livros delas em lado nenhum.

Já todos sabemos que o critério para o vosso destaque não é esse. Então, o mínimo que vos cabe é silêncio sobre o assunto e pouco acento na questão da "Independência". E também menos queixumes sobre o "excesso" de livros e menos opiniões sobre a "má" edição de outros, como se o vosso braço editorial estivesse isento de errar.

Ja aqui foi sugerido que, se o incomoda a quantidade de livros publicados (e certamente a quantidade que não é publicada pela Tinta da China), só tem mudar o nome da loja e vender apenas os livros deles.

Pó dos Livros disse...

Cara Observadora, sinceramente não entendo a sua irritação com a Pó dos Livros,quando existem tantas outras livrarias a que pode recorrer.

Quanto aos argumentos que expõe, deixe-me dizer-lhe que não fazem sentido. Em primeiro lugar, existem milhares de editoras e milhões de livros editados e, como é fácil de entender, não há nenhuma livraria, nem biblioteca no mundo que contenha todos os livros que existem. Mais, se uma editora tivesse que editar um exemplar para cada local de venda de livros: livrarias, papelarias, quiosques, supermercados, hipermercados, balcões dos CTT, bombas de gasolina, etc. (e como todos nós sabemos a maior parte dos livros vende apenas umas centenas, quanto muito, mil a mil e quinhentos exemplares), seria um autêntico suicídio. Em segundo lugar, independência é isso mesmo, poder seleccionar, escolher e destacar aquilo que entendemos tendo como critério o perfil dos nossos clientes. A Pó dos livros não vende espaço de exposição como a maior parte das cadeias livreiras. Em terceiro lugar, e por último, não entendeu o texto que escrevi. A ideia é exactamente o contrário, se fosse possível gostaria de ter todos os livros na livraria, com o devido destaque e durante o tempo necessário para que os seus leitores os pudessem encontrar. Não é à toa que nos chamamos Pó dos Livros.

Permita-me que lhe aconselhe a leitura de “Livros de Mais” de Gabriel Zaid, editado pela Temas e Debates. Vai compreender melhor o que escrevi.

Jaime Bulhosa

Compañía de Libros disse...

Soy una librera española. Y escribo para felicitar a Pó dos Livros por la reflexión sobre "o lado nao romântico das livrarias". Excelente disección. Mi blog se llama nuncatehagaslibrero, una humorística advertencia a todos aquellos que piensan que la librería es un negocio "muy romántico". Enhorabuena.