terça-feira, janeiro 13

Livros de mais?

Editam-se livros de mais? Acho que sim, pelo menos para os livreiros, editores, autores e distribuidores. Não tenho a certeza em relação ao público em geral, porque esse ganha, à primeira vista, com a diversidade. A humanidade escreve muito mais livros do que consegue ler, isso é uma evidência. Edita-se um milhão de livros por ano e ficam dois ou três por editar, quer isso dizer que se escrevem dois a três milhões de livros por ano. Se um ser humano pudesse dedicar toda a sua vida apenas a ler, conseguindo, suponhamos, ler quatro livros por semana, 200 por ano, dez mil em meio século - seria igual a nada, tendo em conta os milhões e milhões de livros existentes em todo o mundo.

Para terem uma ideia da dificuldade que é para um livreiro gerir uma livraria face aos livros novos editados exclusivamente em Portugal, que rondam neste momento os 16 mil por ano: se quiséssemos disponibilizar todos os novos títulos na livraria, considerando uma média de dois cm de espessura por livro, seríamos forçados a aumentar a Pó dos livros em 320 metros de prateleiras, o que daria mais ou menos 45 estantes, ou seja, teríamos de ampliar anualmente a nossa livraria em dois terços do espaço.

Li ontem em duas horas um pequeno livro chamado Livros de Mais, do mexicano Gabriel Zaid, editado pela Temas e Debates. Um livro muito interessante, sobretudo para os profissionais do livro: editores, livreiros, tradutores etc. Um livro que reflecte exactamente sobre estas questões. Deixo-vos com uma passagem, para que entendam melhor o que escrevi anteriormente.
--
«…Não é prático vender a maioria dos livros em supermercados, em quiosques ou mesmo em muitas livrarias, Imprimir cem mil exemplares de modo a que cada ponto de venda receba um seria absurdo para a maioria dos títulos: um grande número deles seria devolvido, vendido em saldo ou destruído. A maioria dos livros só se vende em pontos de venda seleccionados e nunca atinge essa média excepcional de um exemplar por cada um e por semana.
Um livro normal não vende tanto e não pode estar em todo o lado. Como fazer, então, sem ser adivinho, para que cada exemplar esteja no lugar e momento certo para o seu leitor? Eis o problema - cujas respostas falhadas são tão decepcionantes para o editor, o livreiro, o leitor e o autor. Coloque um exemplar aqui, nenhum acolá: decida se deve (ou não) voltar a encomendar, depois de o exemplar ser vendido, e se deve devolver (ou não) o exemplar que não se vendeu. Multiplique estas decisões pelos milhares de títulos e milhares pontos de venda e chega à situação habitual: um desastre – aqui um exemplar não encontrou o seu leitor, acolá um leitor não encontrou o seu livro. Em cada ponto de venda a procura é mínima e completamente imprevisível. Os cientistas chamam a isto um modelo estócastico – um nome elegante para o caos. Uma boa livraria generalista que tenha 30 000 títulos não contém nem um por cento dos milhões de livros que estão à venda. Supondo que todos tivessem a mesma procura, a probabilidade de não ter algum deles é superior a 99 por cento. Se nestas circunstâncias, viesse tomar conta da livraria um estranho de olhos vendados que respondesse a cada pergunta: “Não o temos”, acertaria em 99 por cento dos casos.
Na prática, o serviço falha numa percentagem menor porque a procura não é tão dispersa (não é a mesma para todos os títulos, concentra-se em alguns); porque o livreiro a antecipa com algum sucesso, e mesmo a gera ao dar à sua livraria um certo perfil; e, finalmente, porque o leitor ajusta as suas expectativas ao perfil da livraria.»
--
in Livros de mais de Gabriel Zaid, Temas e Debates
--
Jaime Bulhosa

5 comentários:

Rodolfo disse...

Livros em demasiaa + self publishing = muito lodo.

Anônimo disse...

Solução: mudem de nome para LIVRARIA TINTA DA CHINA e passem a vender só os livros da editora...

morenocris disse...

Oi jaime. excelente post. dá uma bela discussão. penso que tudo passa pelo marketing de venda. como posso saber se a sua livraria oferece boa leitura? bons autores? e por ai vai. meu ponto de vista está não na diferença de onde está o livro para venda, para o que é este livro. fala de que. como. quem escreve. mas, preciso da ajuda do marketing de divulgação. preciso de chamar gente. atenção. bem é isso.

beijos.

a idéia do post da feira é maravilhosa.

Alexandre E. Lemos M. disse...

Apetece-me dizer: há livros de mais, homens e mulheres de mais, bonitos e feios de mais e mais.
Mas, para além do caos e da angústia que provoca em cada um de nós, interessa-me a liberdade de alguém publicar o seu livro, o seu álbum, montar a sua própria exposição, encontrar o receptor da sua mensagem. Um que seja.

O post é muito bom por que me fez anotar o nome de um livro que agora tentarei encontrar para ler.

Depois da visão pessoal acho que tenho obrigação de me desvendar como responsável pela Bubok.Pt, a editora de auto-publicação em português, que existe para que se possa publicar ainda mais.

alexandre.lemos@bubok.com

Alexandre E. Lemos M. disse...

...talvez importe dizer que encontrámos este post, com alguns meses, apenas hoje ao seguir um link divulgado no twitter.

alexandre.lemos@bubok.com