quinta-feira, fevereiro 26

Censura nos livros


A propósito da apreensão de alguns exemplares de um livro da Teorema com um quadro do pintor Coubert na capa, recupero um post que escrevi aqui há um ano, julgando eu, ingenuamente, que a censura nos livros não passava, nos dias de hoje, de pura ficção.

O Livreiro Censor

Com a instauração da inquisição em Portugal pela bula "Cum ad nihil magis", de 23 de Maio de 1536, proibia-se o ensino da religião judaica entre os "Cristãos-novos" e o uso das Sagradas Escrituras " sem ser em latim. Passaram a existir três entidades censoras: censura do Santo Oficio, censura régia (ou do Desembargo do Paço) e censura do ordinário.
Em 2 de Novembro de 1540, o cardeal D. Henrique, nomeado Inquisidor-mor por D. João III, dava ao Prior da Ordem de São Domingos a autoridade para verificar o tipo de livros vendidos em livrarias públicas ou privadas, além de proibir a impressão de qualquer livro sem examinação prévia. Em 1559 foi criado o “Index Librorum Prohibitorum ”, o livro dos livros proibidos.
Desde aí e mesmo antes, com maior ou menor incidência, sempre existiu censura à liberdade de expressão em Portugal, como todos sabemos, até ao 25 de Abril de 1974.
Não sou felizmente desse tempo, no entanto, ainda conheci alguns livreiros que durante o Estado Novo e à sua maneira, vendendo por baixo do balcão livros proibidos, minimizavam os efeitos da censura. Lembro-me de Sr. Fernando Fernandes da livraria Leitura no Porto e em Lisboa o Sr. Barata da livraria com o mesmo nome.
Ao reflectir sobre este assunto pensei: Como nós livreiros recusando determinados tipo livros poderemos estar de alguma forma a fazer censura. E que deve ter havido livreiros que ao contrário dos exemplos dados, pactuavam com os regimes autoritários. Imaginei como seriam esses livreiros para com os seus clientes, transportando para os dias de hoje, uma possível conversa num Portugal ainda com censura.

Cliente: Gostaria de adquirir o “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

Livreiro: Desculpe, mas não vendo propaganda comunista.

Cliente: Então queria o “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen

Livreiro: Não vendo mexericos.

Cliente: E “O Crime do Padre Amaro” de Eça de Queirós?

Livreiro: Pornografia muito menos.

Cliente: Calculo que também não venda “Henry & June” de Anaïs Nin?

Livreiro: Esses senhores só pensavam em porcaria e eram imorais. Um livro impróprio para uma senhora.

Cliente: Claro! Tem toda a razão. Talvez um clássico o “Conde de Monte Cristo” de Alexandre Dumas.

Livreiro: Esse livro tem implícito, pelo menos três pecados mortais: A inveja a ira e a luxúria.

Cliente: O “Fim da Fé”, “Deus não é Grande” ou “A Desilusão de Deus”, estes estão fora de questão…?

Livreiro: Blasfémias! E se os vendesse seria sacrilégio.

Cliente: Está difícil…saiu agora um livro sobre Barack Hussein Obama?

Livreiro: Não conheço, mas com esse nome só pode ser contra a minha religião.

Cliente: Bem… então quero um livro completamente inócuo e que não faz mal a ninguém “A História do Sporting”, não concorda?

Livreiro: Esse até poderia ser… mas acontece que sou do Benfica e recuso-me.

Cliente: Afinal de contas, tem algum livro que me possa vender?

Livreiro: Tenho sim, o novo “Index Librorum Prohibitorum”

Nota: Todos os livros sugeridos para leitura encontram-se disponíveis na Pó dos Livros, excepto o último por razões óbvias.
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Jaime Bulhosa

6 comentários:

fallorca disse...

Porreiro ;)

Anônimo disse...

Caro Olivalense,

Foi com imenso prazer que, depois de cerca de 25 anos (crianças....), ao entrar na Pó dos Livros, te revi. Não me identifiquei por vergonha...Como não tiveste sequer uma expressão tipo "donde é que eu conheço esta cara...." comprei uns livros, embrulhaste-os e "adeus, muito obrigada"! Foi um prazer na mesma. Talvez aí volte...
Desejo-te muitos sucessos e muito vento na popa!

Teresa

Rita disse...

Adorava ver uma tomada de posição de todos os livreiros do País quanto a isto. Por que não porem todos os exemplares do livro na montra? O País cheio de Origens do Mundo!

Teresa Coutinho disse...

Os efeitos da crise devem estar a subir à cabeça das autoridades. Também eu julguei que a censura não existia nos dias de hoje.

A liberdade que tanto se fala, não se tem aplicado nas artes e cultura. Com estas atitudes, as autoridades só "chamam a atenção" do alvo de proibição.

Pó dos Livros disse...

Cara Teresa (Olivalense)

Infelizmente não deve ter sido há 25 anos, deve ter sido há bem mais ;)

Na próxima vez já sabes, tens que me falar.

Raquel disse...

Que pena, logo o último livro que deveria valer um bom dinheiro!
Mas eu queria mesmo era o livro de mexericos!
Já dei boas risadas com esse livro e agora com este post!