segunda-feira, janeiro 10

Ladrão de Poesia

Já tinha escrito neste blogue, o ano passado, sobre ladrões de livros, e sobre um em particular, a quem demos o nome de ladrão de poesia. Mas o melhor é lerem, ou relerem, a Parte I e a Parte II desta saga, para a seguir poderem entender a Parte III.

18/11/2008 Parte I: É um autêntico flagelo a taxa de furtos numa livraria. Para terem uma ideia, ronda entre os 2% a 3% da facturação anual. Com margem média de 30%, significa que por cada livro roubado o livreiro tem que vender três livros iguais só para cobrir o prejuízo. Devo dizer-vos que me irrita bastante, enquanto cliente, seguranças à porta, câmaras de filmar e antenas de alarme, mas não me parece que tenhamos outro remédio.
Poder-se-ia à partida pensar que o livro é um objecto pouco apreciado pelos ladrões, se definirmos como estereótipo de ladrão uma pessoa pouco culta. Desenganem-se, roubam-se muitos, bons e maus livros e alguns desafiam a imaginação na forma como o fazem. Assim sendo, temos pelo menos quatro tipos de ladrões de livros:

Os profissionais - roubam por encomenda, sempre novidades e em quantidade. Bestsellers, que depois vendem por meia dúzia de tostões aos quiosques que alimentam e de facto lucram com este mercado paralelo. Outro dia apanhei um deles, um homem já octogenário reincidente a roubar na Pó dos Livros. Nesse dia, menos lesto de que o costume, entrou de rompante na livraria e saca cinco livros da montra; por azar deixa cair um deles, o que me chamou a atenção. De imediato fugiu dali para fora. Quarenta anos mais novo do que ele, não foi difícil alcançá-lo. Zangado por ele me ter roubado diversas vezes, e como forma de o persuadir a não voltar, agarrei-o pelos colarinhos e num tom de voz mais elevado perguntei-lhe: - sabes o quanto me custa ganhar a vida? - Desconcertante, responde-me: - Então imagina o que me custa a mim!

Os amadores – são aqueles que roubam apenas um a dois livros por ano, sobretudo quando o dinheiro não abunda. No entanto, são estes que causam maiores prejuízos às livrarias, pois estão em maioria. Sejamos honestos, quem é que nunca roubou um livrinho para ler, nem que tenha sido por empréstimo permanente a um amigo.

Os cleptomaníacos - roubam sem critério e compulsivamente, são raros.

Os VIP - é in roubar livros. Protegidos por uma imagem credível de figuras públicas ou respeitáveis, roubam a achar que nunca irão ser descobertos, o que é um engano. Mais cedo ou mais tarde são apanhados como os outros. Na minha vida de livreiro, por diversas vezes as antenas de alarme gritaram bip, bip, bip, bip... a advogados, políticos, actores, médicos, etc., alguns bem conhecidos da nossa praça pública. Mas o mais extraordinário é verificarmos o tipo de livros que roubam. Garanto-vos, pode ser uma grande desilusão. Só não digo os seus nomes porque pode parecer mal.

Com o tempo aprendi a reconhecer as variadíssimas técnicas usadas pelos larápios para passarem despercebidos. Descrevo apenas algumas, para não dar muitas ideias: Os que usam disfarce. O mais famoso era conhecido entre os livreiros dos anos setenta como o padre do Chiado. Era um homem muito simpático, que durante anos se fez passar por padre e cliente habitual. Comprava um livro, normalmente de bolso, todos os dias, numa das livrarias do Chiado. Ao mesmo tempo levava três ou quatro livros num forro falso da sua batina. Anos mais tarde, ao ter sido descoberto, verificou-se que tinha em sua casa uma biblioteca com cerca de 30 mil volumes, todos eles roubados. Outra das técnicas consiste em fazer um apontamento no livro ou uma dedicatória a si próprios, para, no caso de serem apanhados, garantirem que o livro já lhes pertencia. Há ainda os que cortam as folhas, capítulos inteiros, um de cada vez, com uma tesoura ou x-acto, e depois escondem o resto do livro nas prateleiras por trás dos outros, para mais tarde voltarem. Acham que não é possível? Pois conto-vos que em pleno Natal, nos anos noventa, quando trabalhava no centro comercial das Amoreiras, corria a história que na loja da Singer tinha desaparecido, sem ninguém dar por ela, uma máquina de lavar roupa.

Por último, e o que motivou este relato, é o facto de ter surgido recentemente na Pó dos Livros um novo tipo de ladrão de livros: O Temático.

Ainda não sabemos quem é, ainda não o apanhámos, mas sabemos que ele existe. Só rouba poesia e da mais erudita. Quase poderíamos dizer que neste caso é apenas um acto de cultura. Excepto para o livreiro, claro está!

17/01/2010 Parte II: Será homem, será mulher? Será mais novo, será mais velho? Será rico, será pobre? Erudito é de certeza, o nosso ladrão de poesia. A nossa curiosidade acerca desta personagem aumenta cada vez mais. A verdade é que ainda não sabemos quem é, nem como é. Mas temos agora pistas mais concretas para o apanhar, sabemos que também se interessa por música erudita. Não é por nada, nem sequer é para recuperar os livros, já só queremos matar a nossa curiosidade.

No sábado passado estivemos encerrados para inventário e consequentemente temos a listagem completa de todos os livros roubados. Foram muitos. O que por um lado é bom, é sinal de que há muito mais gente a ler e a gostar de ler bons livros, muito mais do que demonstram os estudos sobre os índices de leitura em Portugal.
Roubaram-se livros para todos os gostos, mas há um que chamou especialmente a minha atenção: a Bíblia Sagrada. Se quem a roubou, a roubou para ler, vai descobrir rapidamente que cometeu um pecado: Êxodo 20:1-1, 8.º Mandamento – “Não roubarás.”

Voltemos ao nosso ladrão de poesia. Vou disponibilizar a lista de alguns dos livros que ele levou aqui da Pó dos livros, esquecendo-se de pagar. Podem tirar as vossas conclusões acerca da sua personalidade:

Nota: Se por acaso alguns destes livros não foram roubados pelo nosso ladrão de poesia e não correspondem aos seus padrões de exigência, desde já pedimos desculpas pela injusta acusação. E para o nosso ladrão de Bíblias, porque somos magnânimos, como penitência, apenas cinco Ave Maria e dez Pai Nosso. Pode vir penitenciar-se junto a nós aqui na igreja de Nossa Senhora de Fátima.

- A Vida de Horácio, José António Almeida, &ETC

- A Oriente, Yvette Centeno, Presença

- 56 Poemas, Ruy Cinatti, Relógio D’água

- Mais Espesso Que a Água, Luís Quintais, Cotovia

- JukeBox 2, Manuel de Freitas, Teatro de Vila Real

- Criatura n.º 2, A.A.V.V., Calíope

- Vida Extenuada, Fátima Maldona, &ETC

- Nuez, de Rui Baião e fotos de Paulo Nozolino, Frenesi

- Especulações Críticas sobre a História da Música, António Pinho Vargas, Culturgest

- Música Clássica, A.A.V.V., DK

- Ópera, Alan Riding, Civilização

10/01/2011 Parte III: Mais uma vez realizámos o inventário e confirmamos que se continua a roubar muitos livros, sobretudo de poesia. No entanto, este ano, tivemos uma surpresa agradável. Qual não foi o nosso espanto, ao termos dado conta do reaparecimento de um livro que nos tinha sido furtado o ano passado. Trata-se de uma obra cara, rara e esgotada, por isso, facilmente identificável. Um livro de poemas de Rui Baião, de título Nuez, com 36 fotografias de Paulo Nozolino. A tiragem foi de apenas 750 exemplares, da responsabilidade das edições frenesi, 2003.

Será que o nosso ladrão de estimação teve um repentino acesso de moralidade e arrependimento ou, simplesmente, não gostou da obra? Seja como for, agradecemos a devolução.


Jaime Bulhosa

16 comentários:

de.puta.madre disse...

Já merece perdão esse ladrão.

Tânia disse...

Tenho de confessar que ainda estou a recuperar do ladrão da Bíblia :)

Pitucha disse...

Roubar a Bíblia?
Tem que se estar muito desesperado...

Marco disse...

E não é que o danado tem bom gosto para literatura?
Já quanto à Bíblia, deve ser para ir pagando antecipadamente os seus pecados.

fallorca disse...

Um erro qualquer um comete, quanto mais um «Ladrão de Poesia». Ainda agora na «verificação de palavras» escrevi bartleby e deu-me erro!

fallorca disse...

Jaime, a «verificação de palavras» do blogue é delirante. Pareceu-me cossery e deu-me erro, escrevi albert e deu antígona.
Abç

marta morais disse...

será que os ladrões VIP roubam os livros que têm vergonha de comprar?

Anônimo disse...

Quem são Fátima Maldona e António Pinto Vargas?
O mais curioso é que têm livros com nomes (e até editoras) iguais a de pessoas com nomes muito parecidos.

Areia às Ondas disse...

Em 20 anos de vida profissional no mundo das bibliotecas, sempre ouvi dizer que um livro roubado é um livro lido. Sim, até pode ser, mas como explicar à 'estante' onde está o espaço vazio, que nem sempre há dinheiro para repor o que desapareceu...? Já me deparei com gente com muita imaginação, mas o primeiro lugar continua a ir para um desconhecido (infelizmente) utilizador da velha Biblioteca de Almada, onde não havia câmaras de video nem nada do género, o que permitia que ele, ou ela, conseguissem cortar o texto dum livro de capa dura, deixando as margens! Terminado o trabalhinho, a capa e as margens brancas eram colocadas no lugar e só quando alguém abrisse o livro é que daria conta da falta do conteúdo. Lembro-me na altura de discutirmos se o livro tinha sido, de facto, roubado.

José María Souza Costa disse...

Rsrsrrs
kkkkkkkkkkkk
Passei aqui lendo o que tem pra ler. E observando o que tem para observar. E Exaltando o que tem de ser Exaltado. Estou lhe desejando um Tempo de Harmonia e de muita Inspiração. Entendo ter um blogue Agradavel, muito bom e Interessante. Eu, também tenho um. Muito Simplório por sinal. E estou lhe Convidando a Visitá-lo e, mais. Se possivel Seguirmos juntos por eles. Estarei Muito Grato esperando por Você lá.
Abraços de verdade e, fique com DEUS

CS disse...

delicioso

Anônimo disse...

só um atrasado mental se engana e chama António PINTO Vargas a António PINHO Vargas.
E porque não VERGAS?

Fernando Frazão disse...

A páginas tantas, no magnifico As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow, Augie torna-se um ladrão de livros profisional aliciado pelo seu amigo Padilla.
A propósito de satisfazer um cliente díficil roubou e, passo a transcrever "...Dois Volumes de A Vontade do Poder de Nietzshe, que suei para conseguir roubar porque estavam num armário de vidro fechado numa livraria especializada em livros de Economia; também lhe arrajei a Folosofia do Direito de Hegel, os últimos volumes de O Capital na livraria comunista da Division Street, A Autobiografia de Herzen e alguns livros de Tocqueville...."
Se o seu Tadrão Temático é um profissional de gabarito de Augie esqueça. Está condenado a repôr nas estantes os volumes em falta.
Abraço de solidariedade.

Anônimo disse...

Caro Jaime. Eu sou um ladrão de livros! Por questões monetárias, obviamente. Mas tenho um código. Nunca roubo em livrarias particulares, isto é, só actuo nas grandes superfícies, pois aí roubar ao Belmiro é como roubar a um "ladrão", e lá diz o provérbio, e seguidamente actuo também na FNAC. Que sejam os franceses a ficar com o prejuízo. Belmiro e franceses são os que se podem queixar, por outro lado, quantos e quantos livros já lidos e sem que me interesse ficar com eles são depois dados à biblioteca municipal aqui ao pé de casa, ou então dou-as ao sr. Herculano, alfarrabista conhecido. Roubo para ler e não para ganhar dinheiro. É feio? É sim senhor e um dia destes vou-me arrepender, mas até lá...Sou um Robin dos Bosques com uma costela de Oliveira e Costa...
PS. O artigo em causa está muito engraçado e revela situações que nunca imaginaria poder acontecer.

Beatrix Kiddo disse...

que post espetacular

Anônimo disse...

Anonimo

Eles que se "ponham a pau",se não o Fisco vai atraz deles por não terem pago o IVA!