quinta-feira, fevereiro 19

Livreiro espécie em vias de extinção?

Muitas vezes se diz que já não há livreiros como antigamente. Que são uma espécie em vias de extinção. Que as grandes cadeias acabaram com eles. Que o empregado que nos atendeu não sabe o que está a fazer, etc., etc. De facto, tudo isto é verdade. Mas isto acontece simplesmente porque o livreiro é uma figura rara. Existiram e existem muito poucos livreiros, e sempre foi assim.
Se definirmos os livreiros apenas como aqueles que negoceiam em livros, então, existem muitos. Mas se definirmos o livreiro como aquele que gosta, conhece, lê, divulga e vende livros, então, existem muito poucos. O livreiro é um autodidacta, não há nenhum curso que o possa formar. Isto é, claro que se pode e deve dar formação a uma pessoa que quer trabalhar numa livraria ou que, enquanto gestor ou empresário, pretende criar uma, no entanto, ser livreiro é outra coisa. Ser livreiro é muito mais do que simplesmente vender livros (para isso existem vários truques), tem de saber dignificá-los, amá-los, conhecer a sua história, saber o interior de muitos, interessar-se por quem os escreve e por que os escreve daquela maneira. Tem de conhecer toda a cadeia do livro, desde que nasce na mão do autor até chegar à mão do leitor, tem de saber vendê-lo honestamente, divulgá-lo, incentivar a leitura, só assim, poderá reivindicar para si um papel importante como agente cultural.

Uma lista curta (como necessariamente tem de ser) de livreiros cujo trabalho conheço, para saber onde encontrá-los quando necessitar de ajuda especializada (perdoem-me aqueles que não cito):

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Antero Braga – Livraria Lello, Porto
Carlos Loureiro e Débora Figueiredo – Pó dos Livros, Lisboa
Duarte Nuno Oliveira e Caroline Tyssen – Livraria Galileu, Cascais
Helena Girão Santos – Fonte de Letras, Montemor-o-Novo
Helena Veloso, Maria João Lobato, Sofia Afonso – 100.ª Página, Braga
Isabel Castanheira – Livraria Loja 107, Caldas da Rainha
João Paulo Pinheiro – Livraria Férin, Lisboa

Sr. Manuel Medeiros - Livraria Cultsete, Setúbal

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Jaime Bulhosa

19 comentários:

Margarida Pereira disse...

Um espaço magnífico, a Lello...
E um fidalgo, a dirigi-lo.

Teresa Coutinho disse...

De facto o mundo dos livros tem que se lhe diga. Não cabe só aos livreiros o papel de conhecer, amar e disponibilizar livros. Cabe a cada um de nós amantes do conhecimento, disponibilizar e divulgar tantos e tão bons livros.

Mendez disse...

Apaixonado por universo de livros mas na vertente de leitor, reconheço alguns dos nomes que foram apontados, e mais em particular o da Isabel Castanheira das Caldas da Rainha. Contudo existe um livreiro que também deveria figurar nessa lista o Senhor Manuel da Livraria Cultsete em Setúbal.

fallorca disse...

Belo roteiro, Jaime. Abç

jj disse...

Muito, muito bonito. Muito, muito verdade.

:)))

Pó dos Livros disse...

Obrigado Mendez. Imperdoável da minha parte ter-me esquecido do Sr.Manuel, mas já foi corrigido.

Jaime

ritaR disse...

Faltou referir os que amam os livros e estão, com toda a humildade, em início de percurso!

Pó dos Livros disse...

Rita. Tem toda a razão.
No entanto, eu estou há 23 anos nos livros e nunca consegui lá chegar.:)

Canto do Livro disse...

Jaime, belo texto que mostra que o diferencial maior do livreiro se dá pelo conhecimento e a consequente independência. Portanto, será sempre um raro como no passado.
Não sabe como tal texto anima quando se luta contra o clientelismo da cultura que existe no Brasil, em especial no município.

Anônimo disse...

...portante afirma-se que nas consideradas grandes livrarias não existem livreiros? ou que não tendo dinheiro para montar a própria livraria não somos livreiros. bonito conceito. esta caixeira que vende livros sente-se (mais uma vez)... insultada (?)

Pó dos Livros disse...

Cara anónima caixeira. Eu não afirmei nada disso, só disse que são raros e claro que existem mais para além dos que eu cito. Você pode perfeitamente ser uma delas e acredito que sim, mas infelizmente eu não a conheço.

Obrigado

Liliana disse...

Nem nos conhce a nós, mas acredite que muito gostaríamos que nos visitasse, não porque "um dos nossos" seja um vosso habitué, mas porque, perdoe-nos a imodéstia, daria o tempo por bem empregue :)

Fica o convite.

Pátio de Letras

Anônimo disse...

Caro Jaime,
Como pretexto para te mandar um abraço, refiro apenas que o «Sr. Manuel», da Culsete de Setúbal, se chama Manuel Medeiros (ele gostará mais sem o «Sr.», estou certo) e, além de LIVREIRO (com todas as letras em caixa alta) é também poeta... e que poeta!... com outro nome, claro! Alvíssaras a quem o descobrir!!! Ah, e tem uma longa vida ao serviço do Livro, mas também da Leitura. Vale a pena descobrir como. Fica o desafio.
E,já agora, deixa-me sugerir alguém que tem vindo a fazer um belíssimo trabalho, o Joaquim Gonçalves, d'A das Artes, de Sines. Livreiro e Leitor que já pôs muitas gente a ler e que, em itinerância, tem vindo e vai continuar a ler.
UM GRANDE ABRAÇ0,
Luís Guerra

Anônimo disse...

Então e o Sr. André, da Lácio (Campo Grande-Lisboa)? Uma Vida com e para os Livros. Tenho saudades das conversas, sem horas, naquela cave tão cheia de histórias... quando, nos anos oitenta, visitava a Lácio, a pretexto de mostrar livros, para ouvir falar de livros, de autores, da eterna crise que, de há muitos anos a esta parte, vem anunciando «o fim». Enfim!
E o Lourenço, da defunta Livraria d'O Jornal e depois dele próprio (C.C. Guérin, aos Restauradores-Lisboa), agora, ainda nos livros,lá pelas Edições Lusófonas (Campo Grande. O Lourenço é, para mim, também sinónimo de livreiro que lê... e cria leitores. Lembrarei para sempre aquelas longas conversas, partilhadas por muitos outros, sobre os livros que líamos e(nos)sugeríamos.
Então e o Jaime Bulhosa?
Desculpa lá mais esta prosa.
Um grande abraço do
Luís Guerra

Mendez disse...

Ao Senhor Luís Guerra,

Obviamente que sabia que Manuel Medeiros é o nome do LIVREIRO da Cultsete. Mas, pessoalmente, e desde tenra idade sempre o tratei como Senhor Manuel. Antigamente, pelo menos eu, não dizia vou à mercearia ou ao talho, antes dizia o nome dos donos. Por isso muitas vezes dizia-se lá em casa "Ó pai, vamos ao Senhor Manuel." Só anos mais tarde é que fixei que a livraria do "Senhor Manuel" se chamava Cultset. Não sei se faz muito sentido. Mas para mim ainda hoje é o Senhor Manuel.

Deixo para outro a questão das alvíssaras.

FCM disse...

E também:

João Carlos Raposo Nunes, Livraria Uni Verso, Setúbal.

Liliana disse...

Quanto ao último comentário sobre livreiros em Setúbal - João Raposo, subscrevo inteiramente.

Liliana

cassandra disse...

o sr. André da velhinha Lácio fez-me prometer que ali compraria os livros para a universidade. e a verdade é que foi ali eu aprendi a discutir platão, a injuriar cícero e a admirar sófocles. a sedução, pela palavra, é uma coisa muito poderosa. sou, por isso, uma leitora desde muito pequena e sou livreira com muita garra há 10 anos. quando fecho os olhos e me lembro de edições interessantes que me passaram pelas mãos, a primeira imagem é a de uma edição holandesa do século XVII das noites áticas de aulo gélio, com capa em osso e lombada com resquícios de madrepérola. infelizmente, trabalho num "talho de livros" e luto, à minha maneira e o melhor que posso, para ter e disponibilizar livros que cativem, pelo interesse e valor intrínsecos.
ainda há livreiros, mesmo no meio dos pseudo-intelectuais que se arrogam o direito de criticar escolhas e leituras alheias, demasiado jovens para serem humildes.

Pó dos Livros disse...

cassandra,

Gostei muito da expressão “Talho de Livros”. Mas não fique triste, porque eu também já trabalhei com "talhantes", não nada como trabalhar num “talho” para saber distinguir filet mignon de sola-de-sapato:)