segunda-feira, fevereiro 9

O grego germânico


Sem nunca dissociar uma sólida erudição das notações do quotidiano, Lourenço trata os clássicos por tu

Na linha de Richard Strauss, dir-se-ia que Frederico Lourenço (n. 1963) está a caminho de se tornar um "germanischer Grieche", ou seja, um grego germânico. Ele o reconhece em nota de abertura aos "Novos Ensaios Helénicos e Alemães", obra que de algum modo prolonga outra de há cinco anos, "Grécia Revisitada". A novidade reside no núcleo alemão, consequência do facto de as suas leituras "se estarem a centrar cada vez mais na literatura de língua alemã". Com efeito, Goethe, Schiller, Rilke, Mann, Hofmannsthal e outros são objecto da leitura empenhada de Lourenço, embora o ponto de partida continue a ser a cultura helénica, que tem no autor um notável divulgador (no sentido nobre do termo, pois releva de óbvias qualidades pedagógicas). São inéditos dez dos dezasseis ensaios do volume. Os restantes tiveram publicação avulsa em revistas académicas de circulação restrita.
Começando pelos gregos, destacaria o que escreveu a partir de "Ifigénia em Áulis", de Eurípides, bem como as "Reflexões sobre a cultura de Bizâncio". Trata-se de dois longos ensaios, centrado o primeiro na importância do prólogo, pretexto aproveitado por Lourenço para uma digressão pela história da filologia clássica, num amplo "tour d'horizon" que vem até E. R. Dodds, Matthew Wright, Susanne Aretz, Cyril Mango, etc.; e o segundo tomando Bizâncio como móbil das várias formas de intolerância religiosa, duas em particular: a islâmica e a cristã. A frase célebre de Lucas Notaras, testemunha do cerco turco de Constantinopla em 1453, dá a medida da intolerância no seio do Cristianismo: "Antes o turbante do muçulmano do que a mitra do cardeal romano." Sirva de exemplo de como o ensaísmo de Lourenço não dissocia uma sólida erudição das notações do quotidiano.

Outro louvável exemplo do seu à-vontade verifica-se no modo como assume a relação do académico (e, por extensão, dos leitores em geral) com a Internet: "Basta digitar no Google as palavras 'Iphigenia in Aulis' para se ver que os problemas literários, humanos e políticos levantados pela tragédia de Eurípides ainda fascinam leitores, espectadores de teatro e estudiosos [...] que situam a peça no contexto da guerra do Iraque." Não é o único que o faz, com certeza que não. Mas lá onde a maioria remete para notas de rodapé ou de fim de texto, Lourenço associa à narrativa o inventário em movimento da rede.
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Eduardo Pitta in Ípsilon (Público)
Novos Ensaios Helénicos e Alemães
Frederico Lourenço
Cotovia, €22.

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