terça-feira, fevereiro 10

O Homem Sem Qualidades



Sabem aquele cliché que diz que se detecta um bom escritor logo na primeira frase do seu livro e com apenas alguns capítulos lidos se percebe, imediatamente, se é ou não um bom livro. O Homem Sem Qualidades de Robert Musil é um desses casos. Começa-se a ler e logo se aprende mais nos primeiros capítulos do que em muitos livros juntos.

Deixo-vos com excerto do quarto capítulo que ilustra bem o que vos digo:
Jaime Bulhosa

«Se quisermos passar sem problemas por portas abertas, é bom não esquecer que elas têm ombreiras sólidas; este princípio, segundo o qual o velho professor sempre tinha vivido, mais não é do que uma exigência do sentido de realidade. Ora, se existe um sentido de realidade – e ninguém duvidará de que ele tem direitos à existência -, então também tem de haver qualquer coisa a que possamos chamar o sentido de possibilidade.
Aquele que o possui, não diz, por exemplo: isto ou aquilo aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer aqui, mas inventará; isto ou aquilo poderia, deveria ter acontecido aqui. E quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa: provavelmente, também poderia ser diferente. Assim, poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito. Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza, débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito.»


Tradução, prefácio e notas de João Barrento
O Homem sem qualidades
Robert Musil
Edições Dom Quixote
ISBN: 9789722030076
PVP: 30.00 €

5 comentários:

de.puta.madre disse...

"Todo o homem carrega, como um burro, o fardo que lhe foi destinado." numa pp qq do HSQ

Bem. Pela merdaue por aí se vê editada paraece que temos edtors y consultores literários que devem muito ao fardo que carregam, como diz o Musil numa pp qq.

fallorca disse...

Jaime, o Musil escrevia em português?

Pó dos Livros disse...

Obrigado Fallorca.

Abç

Pedro Teias da Ega disse...

Fantástico. Sem dúvida na minha lista de compras literárias.

A indecisa disse...

Adorei esse livro, e custou-me encontra-lo na altura em que o procurava. Robert Musil é um dos meus escritores preferidos!!!
Ando à procura do "da estupidez" dele!!!