quinta-feira, fevereiro 5

Uma leitora compulsiva


Passam os dois pela porta, ela recua, rodopia e entra. Não consegue, mais uma vez, resistir ao seu sentido mais apurado, o olfacto. Aquele aroma a papel e a tinta misturado com cola, com laivos de resina, madeira e um ligeiro perfume a café que vem do fundo da livraria. Fragrâncias que se materializam e se transformam num impulso irresistível. Depois, linda, de cabeça apontada, num caminhar típico de um exemplar fêmea, ainda muito jovem, de raça indistinta. Literalmente, fareja as novidades. Não lhe interessa qualquer livro, têm de ser daqueles mais cuidados, feitos com papel da melhor qualidade, talvez um munken. São de certeza os que exalam as melhores essências. Quando os encontra, pára, encosta o nariz ao livro e emite um som profundo, característico do ar a entrar com força nos pulmões. Lá de fora, ouve-se uma voz firme, autoritária, mas ao mesmo tempo meiga. «Morena! Anda cá, deixa os livros. Já sabes que me trazem más recordações.» A mesma voz, mas agora dirigindo-se para nós, diz «Desculpem! É mais forte do que ela, é uma leitora compulsiva, como eu fui em tempos.»

Morena é uma cachorra rafeira que aparenta ser a única companheira de um sem-abrigo de que já falei aqui. Sempre que passa, entra e fareja os livros.
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Jaime bulhosa

3 comentários:

Carlos Barros disse...

O pequeno cheiro dos dotados...

Abraço

Silvestre Gavinha disse...

Puxa, adorei.
Primeiro me fez pensar em mim.
Depois lembrei de um conto de Rubem Fonseca.
Adorei mesmo.

Paulo Freixinho disse...

Muito bom!

Amplexos e ósculos!