domingo, fevereiro 1

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Enfim, a edição portuguesa de um mestre da literatura realista e da decepção burguesa

Quando morreu, em 1992, Richard Yates era um autor respeitado pela crítica, mas os seus livros nunca venderam muito bem, e com os anos desapareceram das livrarias americanas. Os persistentes elogios dos seus colegas (Tennessee Williams, Kurt Vonnegut, William Styron) e a evidente influência em escritores mais novos (Raymond Carver, Tobias Wolff, Richard Ford, Andre Dubus) mantiveram o nome Yates vivo. E agora, com a adaptação ao cinema de "Revolutionary Road", talvez ele volte ao cânone, como merece.
É que dentro da tradição americana da literatura realista e burguesa, Yates é dos autores mais importantes, embora sem a sofisticação, por exemplo, de um John Cheever. Os seus sete romances e duas colectâneas de contos têm um enredo definido, uma sequência cronológica, linguagem acessível, ecos autobiográficos, e uma obsessão com a decepção e o fracasso, nomeadamente conjugal. É o Sonho Americano em chave doméstica.
"Revolutionary Road" (1961) foi o primeiro romance de Yates, e continua o seu título mais conhecido, embora alguns Yatesianos prefiram "The Easter Parade" (1976) ou os contos. A estreia do filme de Sam Mendes justificou a edição do romance em português, infelizmente numa tradução que várias vezes demonstra um ouvido duro em diálogos e coloquialismos.
A acção decorre em 1955. Frank e April Wheeler são um casal à beira dos trinta que vive no Connecticut. Ela é uma actriz frustrada e ele trabalha num emprego burocrático que detesta. Têm alguma estabilidade financeira, uma boa casa, dois filhos, um grupo de amigos, mas sentem o tédio e a insatisfação dos burgueses inteligentes. Yates constrói na perfeição cenas de conjunto que revelam o fiasco daquelas vidas: April num teatrinho amador desastroso (fazendo "uma imitação de Bovary"); Frank no seu escritório rodeado de relatórios (e a pensar que está "quase na altura de descer para tomar café; quase na altura de almoçar; quase na altura de ir"). Moram num bairro pacato, daqueles com aspersores nos relvados e casas com garagem, e organizam serões com os amigos para conversas triviais ou pretensiosas (os "temas indefinidos mas infinitamente absorventes do Conformismo, ou dos Subúrbios, ou da Madison Avenue, ou da Sociedade Americana Actual").
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Pedro Mexia in Ípsilon (Público 30-01-09)

Revolutionary Road
Richard Yates
Tradução de Isabel Baptista. Civilização, €17.

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