quarta-feira, março 4

Dá Deus nozes a quem não tem dentes


- Por favor tem livros, daqueles que são romances?

- Tenho sim.

- Podia, por favor, ler-me alguns títulos.

- Com certeza, temos então: […]

- Leia-me lá o resumo deste.

- Não trouxe os óculos e por isso tem dificuldade em ler, não é?

- Não, eu vejo perfeitamente, infelizmente não sei é ler. O meu marido é que os lê para mim, embora torça o nariz e diga sempre que são histórias de amor para mulheres.

Nota: Ouvi este episódio numa papelaria/livraria numa vilazinha de praia do sul do país chamada Odeceixe.


Dez em cada 100 portugueses são analfabetos e apenas um terço completou o 1.º ciclo do Ensino Básico. Os resultados do Censo 2001 revelam também que são as regiões do Sul do País que registam a maior taxa de analfabetismo.

Embora a taxa de analfabetismo tenha diminuído ligeiramente desde o último censo (1991), actualmente 9 em cada 100 portugueses, com 10 anos ou mais, não sabem ler nem escrever, conforme os resultados definitivos do Censo 2001. O sexo feminino continua a ser o mais penalizado, enquanto que, a nível geográfico, os distritos do Sul do País são os que registam uma maior taxa de analfabetismo. Se em 1991, os números do analfabetismo em Portugal se fixavam nos 11%, passados dez anos, a percentagem baixou 1%. Apesar de registar uma melhoria, o Alentejo continua a ser a região com o maior número de pessoas sem saber ler nem escrever (15,9%), seguido da Região Autónoma da Madeira (12,7%). Em 1991, 20 em cada 100 alentejanos não sabiam ler nem escrever, o mesmo acontecendo com 15 em cada 100 madeirenses. Pelo contrário, Lisboa é a região com menor taxa de analfabetismo (5,7%) e também aquela em que se verificou uma menor oscilação relativamente aos últimos censos. Tal como em 1991, as mulheres continuam a registar a maior taxa de analfabetismo em todas as regiões do País, com especial incidência no Alentejo, na Madeira e na Zona Centro. Há uma década, 7,7% dos homens residentes em Portugal não sabiam ler nem escrever, sendo que nas mulheres a taxa quase duplicava, fixando-se nos 14,1%. A proporção entre os sexos mantém-se no último recenseamento, ainda que os números tenham baixado: 6,3 % dos homens e 11,5% das mulheres são analfabetos.
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Jaime Bulhosa

4 comentários:

Anônimo disse...

Talvez a pertinência do artigo aumentasse se se falasse do novo drama do século XXI: o analfabetismo funcional ou iliteracia.

{anita} disse...

A minha mãe era professora de adultos analfabetos e passei a infância perto dessa realidade... era para mim muito estranho, quando tinha 6/7 anos e estava fascinada com a minha nova capacidade de ler, que houvesse pessoas muito mais velhas que não o tivessem aprendido e assinassem com uma cruz ou uma impressão digital... No entanto, grande parte dos alunos da minha mãe eram poetas populares. Escreviam décimas e tinham milhares de poemas gravados na memória! Alguns estavam a aprender a ler e a escrever para os poderem registar. Eram pessoas muito idosas e não aprendiam a escrever para a vida, aprendiam a escrever para a morte (ou para não morrer totalmente)

Margarida Pereira disse...

Este post é tremendo.
Tremendo.

são branca disse...

vivo em caxias, muito perto de lisboa e, volta não volta cruzo-me com mulheres analfabetas. mulheres ainda jovens, entre os 40 e os 50 anos, portuguesas umas africanas outras. sempre presente é a vontade de aprender a ler e escrever, seja para fazer bolos por receita, apanhar o autocarro certo, assinar os recados da escola dos filhos, ler os signos nas revistas, escrever cartas de amor e das outras ou cantar e rezar como deve ser na missa de domingo. conheço uma mulher a quem os filhos ditaram o livro de código para cassetes e ela, enquanto vendia peixe ruas afora, fugida da polícia, ia escutando as palavras que saiam do walkman directamente aos seus ouvidos. fez exame de código oral e hoje, ao volante da sua carrinha continua na venda, fugindo dos ditos. sempre sorridente a minha maria da luz.