segunda-feira, março 23

Ler é estúpido!

Desde o aparecimento do livro, sempre houve leitores, dos casuais aos que lêem os clássicos. Mas também sempre houve não-leitores, dos que não tiveram a oportunidade de aprender aos mais instruídos.

Noutro dia, falava sobre o meu trabalho de livreiro e da importância da leitura com um amigo, que me disse: «Sabes, os livros já passaram de prazo e foram escritos, na sua grande maioria, por pessoas que já morreram ou por quem nada tem a acrescentar. Ler é viver a vida dos outros e não ter vida própria, ler requer tempo e o tempo nos dias de hoje é um luxo. A verdadeira sabedoria está na experiência da vida per se e não nas sumidades da enciclopédia. A escrita é um simulacro da fala que parece muito útil para a memória, o saber, a imaginação, mas que acaba por ser contraproducente. As pessoas confiam nela e não desenvolvem a suas próprias capacidades. Se queres saber, acho que as pessoas lêem demais. Antes de lerem um livro, deveriam reflectir sobre se esse livro irá de facto melhorar a sua vida; é que a grande maioria deles não melhora.» Esta afirmação apanhou-me de surpresa, não estamos habituados a que pessoas instruídas neguem a importância da leitura. Onde terá ele ido buscar tanta sabedoria?

Jaime Bulhosa

14 comentários:

Raquel disse...

Eu sei onde. Ele leu Fahrenheit 451 e tornou-se fã do capitão Beatty – o discurso é quase igual ao do capitão!

Citadina disse...

Uma visão estritamente utilitária da vida, portanto, essa do teu amigo.
E, se me é permitido, até um pouco arrogante, de quem acha que "as pessoas que já morreram" não lhe podem ensinar nada...
Não conheço a pessoa de lado nenhum mas, com todo o respeito, é nitidamente alguém que nunca conseguiu experimentar o simples prazer da leitura pela leitura. Por isso não lhe consegue dar valor. Daí a dizer que é estúpido ler... Mais uma vez a arrogância, o "eu é que sei o que é melhor para ti".
Não obstante, acho que todos [os de mente verdadeiramente aberta] temos amigos assim. Como dizia o outro, "de uns amigos gosto por possuírem determinadas qualidades, outros aprecio-os pela falta dessas mesmas qualidades" [qualquer coisa deste género, mas a ideia é esta].

Anônimo disse...

Não querendo parecer chata, mas "demais" é escrito separado.

Anônimo disse...

Neste caso não está mal.

Demais, uma só palavra, pode ser um advérbio de modo, que exprime a intensidade e significa «muitíssimo», «excessivamente», «em demasia», «demasiadamente». Emprega-se intensificando formas verbais, advérbios ou adjectivos. Exemplos: «Aquele rapaz lê demais.» «A jarra é frágil demais; vai partir-se.» «Para aquele pasquim, ele escreve bem demais.»

Economics Girl disse...

bebeu a poção mágica que lhe deu super-poderes... é o máximo, o melhor do mundo, ñ precisa de nada nem de ninguém!

Tânia disse...

Que susto... Uma perspectiva destas assusta-me. Não consegui deixar de pensar se ele a extrapolará para outros planos da vida, provavelmente sim. Que susto...

Mendez disse...

Não podia deixar esta hipótese de deixar a minha opinião sobre tão refinada argumentação.

A argumentação é deveras interessante numa primeira abordagem, mas rapidamente se colocarmos esta "sabedoria" noutros planos da vida percebemos que estamos perante uma ideia um pouco....... (cada um preenche com o que quiser).

Se tomarmos a premissa de que quem "lê vive a vida dos outros" então quem gosta vai ao cinema, ao teatro, a uma exposição de fotografia, de pintura, de escultura, a um concerto, etc., etc. está também a viver a vida dos outros através dos cinco sentidos. E trabalhar... Bem trabalhar também é viver a vida de outrem. As pessoas vivem a sua vida profissional em prol de alguém que periodicamente os recompensa, mas não recompensa todos da mesma forma, mas todos trabalham para alguém e dão o seu melhor.

O mesmo se aplica a tudo desde a amizade aos filhos tudo está interligado. Todos vivemos as nossas vidas ligadas a outras pessoas. Não pudemos andar em bolhas e sermos independentes a 100%.

Por isso essa frase de que a "a verdadeira sabedoria está na vida", pois está é verdade, mas como é que se adquiria experiência sem nada? Atentemos, pois, em dois exemplos literários: em Eu Sou A Lenda e Robison Crusoe, ambos os personagens estão sozinhos, mas a sua vida está ligada ao ambiente que os rodeia.

Por fim o facto de reflectir sobre o livro antes de o ter lido parece-me um pouco rídiculo, como podemos nós fazer uma reflexação séria sobre seja o que for antes de termos experimentado? "Prognósticos só no fim do jogo" já dizia alguém do mundo do futebol. Além disso, todos os livros melhoram a nossa vida (mesmo os maus), porque nos dão informação que pode ser útil no futuro, porque nos ensinam algo, porque nos entretem, porque nos ajudam a sermos críticos, porque nos fazem dormir, porque a sua capa é tão bonita e fica muito bem em cima da mesa de cabeceira porque liga muito bem com os cortinados e com a colcha da cama. Mil e uma razões para se ler.

Esse teu amigo deve ser um grande compincha de um ser que apanhei no outro dia no meu local de trabalho e lançou esta "bernarda": "XI! Tanto livro, deviam eram queimar isto tudo!". Fiquei sem palavras. Parecia que estava dentro do D. Quixote....

É só uma opinião, vale o que vale.

CNS disse...

"Ler é viver a vida dos outros e não ter vida própria". Mas viver a vida dos outros, com o nosso olhar, os nossos pretéritos, ajuda-nos a construir os nossos outros tempos verbais. Vestir outras peles que não a nossa é um maravilhoso caminho para nos debruçarmos sobre a nossa própria existência. E é também isso que os livros têm de maravilhoso.

Anônimo disse...

A todos os cultos leitores, a argumentação de que a leitura é sempre benéfica não é consensual. Já desde os gregos antigos, nomeadamente Sócrates, se defendia que a leitura era um entrave ao desenvolvimento do pensamento autónomo. E mais, os putos passam muitas horas sentados nas cadeiras das salas de aulas, sentados a estudar, sentados a ver televisão, a jogar nas consolas, a navegar na Internet e agora querem que passem mais tempo sentados ou deitados a ler bons livros!? Não pode ser!!! Têm que se mexer.

Anônimo disse...

E só me escondo atrás do anonimato porque o pensamento único, a uniformização, o politicamente correcto, a globalização perseguem quem pensa de maneira diferente. É isto meus senhores, o resultado da leitura!

I disse...

Claramente, ele não é leitor.

Marco disse...

RETIRADO DO JORNAL "BRIEFING"

RTP quer incentivar gosto pela leitura

2009/03/25BriefingLusa

«Criar algo muito apelativo que fomentasse o entusiasmo e aguçasse o gosto pela leitura do público em geral, e dos jovens em particular, é o objectivo da série, a estrear com Os Maias de Eça de Queiroz sexta-feira às 21 horas depois do Jornal 2, quando a audiência da RTP «é maior». As palavras são do director da RTP2, Jorge Wemans, na apresentação da série Grandes Livros. realizada ontem em Lisboa.

Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, e O Delfim, de José Cardoso Pires são, respectivamente, o segundo e terceiro episódios de um total de 12 que compõem a série - cuja transmissão sofrerá apenas um interregno na sexta-feira santa - em que serão lidos excertos das obras mas também abordados «registos documentais, biográficos e históricos sobre os autores e sua época», referiram ainda Jorge Wemans e Paula Moura Pinheiro, sub-directora do canal.

Questionado pela Lusa sobre qual o critério que norteou a escolha dos autores, Jorge Wemans disse ter havido «a preocupação» de todos os seleccionados estarem «de uma forma ou de outra presentes nos programas escolares», para que «de uma forma lúdica e apelativa, mas não de menor qualidade ou rigor, os jovens ganhem gosto pela leitura e pelas interrogações daqueles autores que continuam actuais nos nossos dias».

Cerca de 50 professores, ensaístas, críticos - entre os quais pontuam os nomes da ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, do reitor da Universidade Aberta, Carlos Reis, do historiador e professor universitário Fernando Rosas, da escritora e directora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa, e os escritores Rui Zink ou Francisco José Viegas - «analisam e relêem» as obras dos autores cuja vida, narrativas e enredos são narrados pela voz de Diogo Infante.

Produzida pela Companhia das Ideias e realizada por João Osório, a série Grandes Livros é, segundo Jorge Wemans, um dos programas que a «RTP em geral e a 2 em particular» devem «vir a disponibilizar «da forma mais abrangente e gratuita possível».

Daí que além de referir a possibilidade de vir a ser disponibilizada nos canais aberto e nos de cabo da RTP, o director do canal público admita também que venha a ser editada em DVD.

Jorge Wemans admite ainda a possibilidade de a série vir a ser facultada a escolas de ensino secundário, universidades ou ao Instituto Camões, para poder ser aproveitada pelos diversos leitorados portugueses.

Questionado pela Lusa sobre se a iniciativa vai ser alargada a outros escritores ou outras áreas artísticas, Jorge Wemans não inviabiliza essa possibilidade, adiantando, porém, que o canal tem «neste momento em preparação uma série documental sobre o Património da Humanidade em Portugal».

Pan disse...

Os verdadeiros livros são escritos por pessoas que têm, de facto, algo a acrescentar! Cada livro acrescenta saber, novidade, criatividade, informação, gozo, felicidade! Ler é saber que podemos, através dos olhos de outros, chegar a esse legado. Assim conseguiremos, de forma efectiva, melhorar-nos enquanto pessoas e, obviamente, seremos mais capazes de desenvolver as nossas capacidades, pelo menos aquelas que nos permitem saber o quanto errado está esse seu amigo!

Francisco Sousa

Anônimo disse...

1. sou leitora
2. é tão importante um livro quanto uma atitude descontraída perante a vida
3. incomóda-me mais quem compra livros para embonecar estantes, dar ar de intelectual, e nem sonhar em lê-los
Asuil