quinta-feira, março 12

Sei lá... Margarida Rebelo Pinto? rectificação (o seu a seu dono)


Faz agora onze anos e não dez, como se diz aqui, aqui, aqui e aqui, que o livro Sei Lá de Margarida Rebelo Pinto foi editado. Foi em 1998, pela Difel, e não em 1999, pela Oficina do Livro (curioso a própria autora ter confundido a editora e as datas da efeméride). Considerado o melhor exemplo de literatura light - ou de literatura pop, como o seu editor preferiria chamar-lhe -, transformou para sempre, para o bem e para o mal (muito se falou e escreveu sobre este assunto), o mercado editorial português. Gonçalo Bulhosa, co-fundador da editora Oficina do Livro, trouxe para o mercado editorial português uma nova forma de trabalhar o livro, vindo mesmo a tornar-se num case study. Muito por causa da sua longa experiência como livreiro, Gonçalo Bulhosa percebeu, primeiro do que ninguém em Portugal, que havia uma grande fatia de leitores que não estava a ser levada em conta pelos editores. Juntando a isto um espírito inventivo, que lhe é característico, o excelente desempenho nas relações públicas e uma perspicácia inata para o marketing, Gonçalo Bulhosa inovou. Inovou quando percebeu que seria um sucesso pôr uma figura pública a escrever; ou melhor, inovou quando percebeu que podia transformar um escritor numa figura pública. Inovou quando percebeu que a capa de um livro é um dos factores principais da compra por impulso, o que o levou a fazê-las de cores garridas, executadas por jovens designers desconhecidos na altura. Inovou quando entendeu que ganhar visibilidade no espaço comercial era vital para as vendas de um livro e começou a comprar esse espaço. Inovou a forma de comunicar o livro, quando, por exemplo, colocou outdoors de livros pela cidade ou aviões com faixas a passar nas praias do Algarve. Inovou, inovou, inovou.

Até poderá ficar apenas conhecido como o editor da literatura light, mas, só a título de curiosidade, ao mesmo tempo que editava Margarida Rebelo Pinto na Difel, editava também Junot Diaz, Prémio Pulitzer para a Ficção 2008. Foi editor de muitos outros nomes portugueses conhecidos, que nem sempre lhe fazem a devida referência.

Nota: falar de um irmão de que se gosta muito, ainda por cima mais novo, é difícil. Nunca se é imparcial e é-se sempre muito emotivo. Parabéns, mano.
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Jaime Bulhosa

12 comentários:

Teresa Coutinho disse...

Reparei que tenho o livro da Difel, mas já em 11ª edição.

b disse...

Olá Jaime. Foi uma surpresa ler este post. Tenho-o linkado no meu blogue e sou amiga do seu irmão por quem tenho um especial apreço. Nem imagina como fiquei feliz (por ele) ao ler as suas palavras.

Parabéns. A si também, afinal de contas também faz parte da família.
b

qwerty disse...

Independentemente dessas inovações espectaculares, continua a ser literatura de má qualidade, feita a metro. Vende-se, tudo bem. Mas podia ser sapatos. Calhou ser livros.

Anônimo disse...

Caro Jaime Bulhosa, espanta-me (ou talvez não) a falta de rigor com que escreve. Bastaria olhar para a ficha técnica da primeira edição do Sei Lá para ver que é de 1999. Caso não tenha o livro em seu poder pode sempre consultar, on line, a Biblioteca Nacional onde poderá constatar o mesmo.
Bem sei que é difícil falar de um irmão mais novo e, sobretudo, tão especial. Justiça lhe seja feita, foi ele que descobriu a Margarida. E talvez tivesse esse olho para o livro enquanto objecto de marketing. Infelizmente, a memória que fica do seu irmão em muitos dos que com ele trabalharam é outra, que não é tão simpática. Mas estas são outras histórias.
Espero que tenha a ombridade de fazer um post e colocar no twitter, da mesma forma que fez com este, a repor a verdade.
Obrigada
Inês Pinto Queiroz

Amílcar disse...

"Infelizmente, a memória que fica do seu irmão em muitos dos que com ele trabalharam é outra, que não é tão simpática. Mas estas são outras histórias."

Lava-se a roupa suja!

Anônimo disse...

Caro Amilcar, não foi lavar de roupa suja, foi apenas um comentário infeliz que fiz, e pelo qual peço desculpas. Não que não tenha razão no que disse, mas não era coisa para aqui se escrever. Se pudesse apagava essa frase do meu comentário.
I

Anônimo disse...

À "Anónima" acima:
Não se apercebe de que, aopedir "desculpa", está a minar os seus argumentos? O Sr. Bulhosa (o Gonçalo) teve TODAS as chances de ter uma grande editora: o mimo da imprensa, o peso de um apelido de casta, e rios de dinheiro para comprar direitos e gastar em sumptuosas "apresentações" e beberetes do género. Muito gente ficou a ver navios na sequência da "falência" da Palavra e é de toda a justiça que, pelo menos, uma pessoa venha aqui deixar isso claro, lavando ou não "roupa suja". Medo de quê?

PRD disse...

Caro Jaime, uma correcção (a História pode sempre reescrever-se, mas neste caso é puramente factual): as capas de cores garridas da Oficina do Livro desse tempo foram todas assinadas pela Fátima Rolo Duarte (sim, minha irmã...), que já então tinha alguns 20 anos de experiência e talento. Como deve saber, fui o primeiro autor publicado pela Oficina e a minha ex-mulher a primeira responsável pelo marketing da editora, por isso sei bem do que falo. Jovens designers na Oficina? Só muitos anos depois...
No resto, concordo que o Gonçalo foi um excelente editor. Como autor da Oficina (e "padrinho" objectivo de muitas ideias e contratações de peso da época...) fui sempre muitíssimo acarinhado enquanto ele lá esteve...
Pedro Rolo Duarte

Pó dos Livros disse...

Caro Pedro Rolo Duarte, não pretendi de maneira nenhuma rescrever a história, até porque os dois protagonistas ainda estão vivos e poderão eles próprios confirmar ou corrigir o que eu escrevi.
Acontece que sou irmão de Gonçalo Bulhosa e amigo de infância de António Lobato Faria e é só isso o que me liga à Oficina do Livro. Como escrevi no próprio post, reagi impulsivamente e emotivamente a uma notícia do jornal DN que também não está totalmente correcta.

Jaime Bulhosa

Anônimo disse...

Senhoras e senhores,

a memória é uma deusa vingativa que se delicia em confundir os mortais. A minha exige que recorde o seguinte.

O logotipo da Oficina do Livro foi desenhado por uma empresa chamada Massa Cinzenta. No mês de Novembro do ano 1999 a Oficina do Livro editou três livros – um do Pedro Rolo Duarte, , um do Miguel Ângelo e um meu. O meu, Barely Legal, foi concebido por Julião Sarmento e desenhado pela Massa Cinzenta. O do Miguel Ângelo, Calor, foi desenhado por Mário Mandacaru. Com isto quero dizer que a Oficina do Livro, a editora com mais sucesso do meu tempo, tem vários padrinhos e várias origens, como tudo o que começa. Mas só tem dois criadores: o António Lobato Faria e o Gonçalo Bulhosa. Com o António tive pouco contacto. Quanto ao Gonçalo sou seu amigo e é uma das pessoas mais arguta, intuitiva e inteligente que tenho o prazer de conhecer.

pedro paixão

Anônimo disse...

O Gonçalo não fez o design, mas sem ele aquelas capas garridas e revolucionárias da Fátima não teriam acontecido.
Uma precisão: a capa do meu Metacarne, que saiu logo no início, em Fevereiro ou Março de 2000, foi feita pelo Pedro Moreira, um jovem designer na altura.
Ninguém pode negar que sem Gonçalo Bulhosa, e sem António Lobato Faria, não teria havido a revolução na forma de publicar os livros em Portugal. Foi um trabalho de equipa e a soma de muitas vontades, mas aqueles dois eram uma parelha fantástica - o crescimento exponencial, com mudanças a cada dois anos para instalações maiores, não acontece muitas vezes.

Manuel Pais

Anônimo disse...

O Gonçalo faz falta. Tem o faro de um bom editor.Sentimos a sua falta.