segunda-feira, março 2

Tens cá uma lata!

No domingo fui ao cinema. Enquanto esperava pela hora do filme, entrei numa livraria e reparei numa pilha de latas mesmo na entrada da loja (tipo latas para guardar bolachas) que à primeira vista me pareceram conter garrafas de whisky, e pensei: isto está mesmo mal, agora até whisky as livrarias vendem. Não fazia sentido, pelo que resolvi ver de perto. Verifiquei que as latas tinham como identificação dois autocolantes: um dizia «Edições ASA»; outro, «Edição Especial Dia dos Namorados» e, gravado na própria lata, o nome do whisky, perdão, da autora. Evidentemente, não se tratava de garrafas de whisky, mas sim de dois livros da escritora Joanne Harris, envelhecidos em pipas de carvalho durante 8 e 9 anos: Vinho Mágico, 2000, e Cinco Quartos de Laranja, 2001.

Nem vou questionar o gosto duvidoso deste brinde de dia dos namorados, até porque sempre ouvi dizer que gostos não se discutem; o que é bom para mim pode não ser necessariamente bom para outro, e vice-versa. Também entendo como estas coisas surgem. Alguém das edições Asa diz: «Eh pá, dia 14 de Fevereiro é dia dos namorados, não podemos deixar passar a oportunidade de tentar vender os milhares de livros que temos parados em armazém, portanto, pessoal do marketing, toca a pensar numa forma de o fazer. O pessoal do marketing reúne, faz um brainstorming e começam a surgir as ideias: «Pessoal, e se fizéssemos uma T-shirt?»; «Não, isso já foi feito.»; «E se fizéssemos um saco de renda?»; Não, isso também já foi feito.»; «E uma viagem?»; «Por amor de deus, isso está mais que visto.»; «Já sei! Isto de certeza nunca foi feito - vendemos os livros dentro de uma lata de bolachas!»

Já estou a ver um extremoso namorado a oferecer este brinde à sua amada:
- Toma, querida, isto é para ti.
Ao que ela responde:
– Tens uma cá uma lata! Ontem foste para a borga até às tantas e hoje ofereces-me uma garrafa de whisky.
– Não é uma garrafa de whisky, amor, são dois romances daqueles que tu adoras. A lata é para depois tu guardares as bolachas.
– Ah! Que querido. Sendo assim, estás perdoado. Dá cá uma beijoca.

Como é óbvio, o que acabo de escrever é apenas uma sátira. O que verdadeiramente está em causa é achar-se que se pode enganar tão facilmente o público. Sei que esta campanha do dia dos namorados foi um fracasso.
--
Jaime Bulhosa

2 comentários:

Teresa Coutinho disse...

O problema era a quantidade. Na lata cabiam muitos mais livros. Não havia lata que chegasse.
Acho uma ideia excelente quando se pensa na colecção toda de um autor.

fallorca disse...

Já não se namora todos os dias, só um dia por ano