segunda-feira, março 30

Ter como critério de leitura a sorte ou o destino

Costumo passar os fins-de-semana numa antiga casa de campo que, como quase todas as casas antigas, está cheia de coisas antigas que se vão juntando ao longo dos anos. Nesta casa existe uma biblioteca com cerca de três mil livros. Velhas edições que se foram acumulando, herdadas das gerações anteriores, e cuja maioria não sei quais são. É nesta biblioteca que eu gosto de passar o dedo indicador pelas prateleiras e tirar um livro ao acaso, sem grande preocupação sobre o título ou o autor que me vai sair. Normalmente fecho os olhos e escolho um pelo tacto, tendo apenas como critério o número de páginas que é possível ler num fim-de-semana. Às vezes, quando a sorte me é madrasta, faço batota e repito a operação. Desta vez foi à primeira, saiu-me um pequeno livro editado pela Portugália editora cujo título é Zadig ou o Destino. Como livreiro, evidentemente, já tinha ouvido falar dele, ainda para mais tendo sido escrito por Voltaire.
Zadig ou o Destino foi escrito em 1747, doze anos antes de Cândido ou o Optimismo, a mais famosa novela de Voltaire: O livro conta-nos a história de Zadig, um filósofo da antiga Babilónia; Voltaire não se preocupa com o rigor histórico, apenas se preocupa com os problemas sociais e políticos do seu tempo, disfarçados sob a história de Zadig. O livro é de natureza filosófica, e apresenta a vida como se esta estivesse nas mãos de um destino fora do controlo humano. É uma história de ortodoxia religiosa e metafísica, as quais Voltaire desafiou apresentando a revolução moral vivida pelo próprio Zadig e recorrendo a hábeis dispositivos de contradição e justaposição.

Zadig ou o Destino foi para mim um verdadeiro achado, uma verdadeira pérola da literatura que provavelmente nunca se teria cruzado comigo, não fosse a “sorte” ter-mo “destinado”.
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Jaime Bulhosa

3 comentários:

{anita} disse...

benditas as casas que permitem fazer jogos desses...

Pó dos Livros disse...

anita eu tenho consciência de que sou um privilegiado.

Jaime

annie hall disse...

A minha casa não é assim antiga :) nem temesse pó dos livros ,mas vieram para ela muitos livros de casa dos meus avós.Não tão filosófico como o seu achado , de que fiquei cheia de vontade e ler , encontrei no sábado um livro de Almeida Garrett , da livraria Lello, colecção Lusitânia:-Camões. Tem um prefácio de Camilo Castelo Branco.
colecções antigas que eram bem acessíveis a todos.