quarta-feira, abril 8

Outros tempos

Há alguns anos (para não dizer há muitos), dava os primeiros passos na aprendizagem da profissão de livreiro, tarefa que julguei, na altura, nunca vir a executar como deve ser, porque me diziam ser necessário decorar todos os milhares de títulos dos livros existentes na livraria e seus respectivos autores. Pareceu-me uma tarefa hercúlea, mas eu levei-a a sério e, em poucos meses, já tinha decorado umas boas dezenas deles. Felizmente, anos depois, fui salvo pela chegada do computador.
A verdade é que quem assim me enganava era um livreiro antigo, muito castiço, de bigode, camisa aberta quase até ao umbigo, pulseira de ouro, unha cumprida no dedo mindinho e sempre de palito na boca, do qual se livrava imediatamente assim que se aproximava um cliente (juro que é verdade). Para além disso, era daqueles funcionários que tinha orgulho em ser sindicalizado e comunista ortodoxo. Era um homem bem-disposto, que gostava de pegar partidas tanto aos jovens aprendizes como aos clientes incautos. Não esqueci uma brincadeira com que costumava surpreender os clientes sempre que lhe pediam a Bíblia Sagrada:

- Por favor, tem a Bíblia Sagrada?
- Não temos. Nesta livraria não trabalhamos com obras de ficção.

Jaime Bulhosa

2 comentários:

de.puta.madre disse...

É pena. É um Grande Livro. Lamento mas só distraído é que não se toca ...
“Mãos de mulheres, cheias de ternura,/

cozinharam seus filhos,/

que lhes servirão de alimento,/

quando da ruína da filha do meu Povo.” /Bíblia. Livro das Lamentações, Jod,

ehehe A medonha poesia que dedicam a aventar Editando como de impar qualidade deve ser melhor???
!!! Pois. Lastimo...

P.: O recado fica dado. Esse Mito do Pavor à Bíblia é uma palermice ...

Hugo Sousa disse...

Na verdade, tem toda a razão, tal como esse senhor, eu considero a Bíblia, como um romance histórico, embora verdade seja dita, sem muito rigor histórico.