terça-feira, abril 7

Vender gato por lebre

Uma vez, num determinado evento, alguém me apresentou a um seu conhecido e fê-lo desta forma: «Apresento-lhe Jaime Bulhosa, o livreiro da livraria elitista anti-bestsellers
Foi uma apresentação de que não gostei e, para ser sincero, o termo que me deixou mais incomodado foi elitista. Sei que foi com boas intenções, no entanto, não tive alternativa e tive de explicar de imediato que a ideia de fundar a Pó dos Livros não tinha sido exactamente essa e que eu bem gostaria que até fosse o contrário.

Por definição, um bestseller não tem de ser necessariamente sinónimo de falta de qualidade literária ou do nulo interesse de um livro. Aliás, a definição afasta-se de qualquer juízo de valor e a expressão já diz tudo: «bestseller» refere-se à quantidade de livros vendidos e não faz qualquer alusão à qualidade. O fenómeno do bestseller está cheio de exemplos de livros que estiveram no top de vendas e que, apesar disso, são quase unanimemente considerados grandes obras literárias saídas da pena de grandes autores. Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes, Memorial do Convento, de José Saramago ilustram isto mesmo. Contudo, também é verdade que a grande maioria dos livros que vendem muito são escritos por autores cuja qualidade literária e criativa é duvidosa, sendo esta a razão pela qual habitualmente se identifica um bestseller com um livro de interesse sofrível ou diminuto. Na minha opinião, isto fica a dever-se à fraca exigência intelectual do mercado e às necessidades financeiras do sector editorial e livreiro, que forçam a criação de livros cada vez mais efémeros, produzidos através de fórmulas já testadas e muitas vezes copiadas, frequentemente recorrendo até a estudos de mercado para identificar fenómenos de moda que possam ser transformados no móbil da criação desses livros, dos quais o marketing se encarregará depois, construindo-lhes uma mitologia própria. O Código Da Vinci e quantidade imensa de livros idênticos que se seguiram são disso um bom exemplo. Mas isto nada tem que ver com o genuíno processo intelectual, criativo e cultural que é escrever um livro. A Pó dos Livros não tem nada contra os bestsellers, e seria uma hipocrisia se eu afirmasse o contrário. O que não podemos é tentar vender gato por lebre, a não ser que seja essa a vontade expressa do cliente.
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Jaime Bulhosa

Nota: Como diria a outra, a dos bestsellers - Não há Coincidências.
Tinha acabado de escrever este post quando reparei que Eduardo Pitta já tinha escrito "quase" sobre o mesmo tema.

6 comentários:

Yo disse...

Coerência é uma qualidade essencial na definição de cada um enquanto indivíduos, este post só mostra que continuas em defesa dos teus princípios em relação à literatura ... e por isso admiro-te.

Mendez disse...

Mais uma acha para a fogueira:
http://www.joaomendez.com/?p=1067

Anônimo disse...

Hipocrisia é ser reconhecidamente elitista (e gostar de assim ser visto, talvez dê algum charme), e escrever um artigo a dizer que não, não sou nada mas, já agora, os best sellers existem devido à pouca intelectualidade dos leitores... Assuma-se Jaime, só lhe ficava bem.

Pó dos Livros disse...

Não sei se me conhece?
Só uma correcção eu não disse: « devido à pouca intelectualidade dos leitores...» mas sim: «dever-se à fraca exigência intelectual do mercado» Há uma diferença.

Jaime Bulhosa

Anônimo disse...

É quase a mesma coisa, o mercado são os leitores, quem mais, os editores? Não, não o conheço pessoalmente, mas até tenho bastante apreço pela sua livraria e pelo anti-top que divulga, que faz falta nos tempos que correm, e por isso mesmo não gostei do artigo. Um abraço.

Pó dos Livros disse...

Caro anónimo,

Não é quase a mesma coisa, o mercado somos todos nós, isto é, editores, livreiros, autores, leitores etc. E quando digo fraca exigência, não estou a dizer falta de capacidade. Deixe-me acrescentar que uma coisa é gostar de bons livros, outra é ser elitista. Quanto ao anti-top é o top da Pó dos livros e por ser sistematicamente tão diferente dos das grandes cadeias, por brincadeira demos-lhe esse nome.

Um abraço