segunda-feira, maio 11

O fim do livro tradicional



Diz-se que a escrita foi inventada há aproximadamente cinco mil e trezentos anos, pela necessidade prática da substituição do mensageiro. O mensageiro, utilizado frequentemente para fins militares, na maior parte das vezes morria antes mesmo de conseguir transmitir a mensagem. E, se a transmitia, normalmente era deturpada. Com a invenção da escrita, não terminaram as más interpretações. No entanto, é por causa dela que se inventa o livro.
Na Suméria (sítio onde é hoje o Iraque), o livro tinha como suporte as tábuas de cerâmica ou de pedra.
Só no antigo Egipto, dois mil anos depois, mais coisa menos coisa, é que o suporte do livro mudou para folhas de papiro feitas a partir da planta cyperus papyrus. Uma tecnologia tão complexa que, para terem uma ideia, a produção de uma folha de papiro custaria o equivalente a 50 euros. Como podem verificar, comparativamente, os livros são hoje bastante mais baratos.
O cilindro de papiro foi um avanço tecnológico enorme em relação às tábuas, quebradiças e pesadas, de cerâmica. Manteve-se durante muitos e longos anos, da Grécia antiga ao Império Romano. E é exactamente nesta altura que o livro mais se desenvolveu e se expandiu a todas as áreas do conhecimento humano. Como curiosidade, foi Júlio César que mandou construir a primeira biblioteca pública e, paradoxalmente, foi também apontado como um dos responsáveis pelo incêndio que destruiu a lendária biblioteca de Alexandria.
Na antiguidade ocidental o livro mantém o suporte, o cilindro de papiro. Na Idade Média surge o pergaminho. É assim até ao invento do papel pelos chineses. O codex, isto é, o livro tal como o conhecemos, mantém-se praticamente inalterado desde há mais de meio milénio, graças à invenção de Gutenberg.
O livro em papel foi, em toda a história do Homem, o objecto de tecnologia cultural mais venerado. Agora constantemente se ouve falar do seu fim. Não há dia em que não surjam notícias sobre os novos suportes para o livro, os famosos livros electrónicos ou e-books. Por enquanto sou um céptico em relação ao suporte do livro digital, sinceramente não acredito muito no seu sucesso. Desde já, porque são demasiado caros e pouco atraentes esteticamente. Julgo que, por uns tempos, o livro “tradicional” vai continuar a passar a perna ao livro tecnológico. Fala-se de que um tipo de papel orgânico será o futuro dos ecrãs. Imaginem, se assim for, as potencialidades de um livro.



A transmissão do conhecimento no futuro deixará forçosamente de se fazer através do livro tradicional. Contudo, penso que passará muito mais por qualquer coisa parecida com a hipnopédia do extraordinário livro de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, do que por um qualquer e-book.




-Jaime Bulhosa

5 comentários:

Anônimo disse...

Nada igualará o folhear de um livro ou o seu cheiro. Nenhum outro suporte conseguirá arrancar-me semelhante prazer na leitura. (Digo eu.) andreia

fallorca disse...

Pessoalmente, a Net e o livro complementam-se, não se antagonizam. Quem diz isso são os eternos velhos do Restelo. Se não fosse a Net, dificilmente teria acesso a tanto conhecimento, transformado na procura do Livro(s)

Samuel disse...

Como chegou aos cinquenta euros?

Pó dos Livros disse...

Samuel,

Boa pergunta, não faço ideia. Tenho de perguntar ao autor do livro "Uma História Internacional da Destruição do Livro" de Fernando Báez. ;-)

Marco disse...

A pergunta que não quer calar: Como ler um livro virtual, bem aconchegado na cama, embrulhado nos cobertores e edredons e sim plesmente fechá-lo ou deixá-lo cair quando der sono?
Tecnologia é ótimo, mas há coisas que não se pode mudar.