terça-feira, maio 19

O melhor incentivo à leitura

(fotografia de Franck Juery)
Desceu a escada que dá acesso aos livros infantis a correr, não tinha mais de 9 anos, daquelas miúdas cujos olhos brilham só pela aproximação dos livros. A vontade de levar todos era imensa, mas a mãe trouxe-a à terra e lembrou-lhe que a vontade que ela tinha de ler era proporcionalmente inversa à quantidade de dinheiro disponível para comprar livros. E que só chegava para um. O ânimo não diminuiu, só não sabia qual escolher, já tinha lido aquele, o outro e também toda a colecção respectiva, tinha gostado de todos. Estava muito indecisa. A mãe nitidamente não tinha tido tanta sorte como a sua filha no que se refere ao acesso aos livros, e talvez por isso não se sentisse à vontade para escolher um.
Pede-me para lhe indicar um livro, um que dure mais do que os anteriores – «é que ela lê com uma velocidade impressionante e eu não tenho dinheiro para tantos livros». Escolhi um, um livro mais a sério, grosso, só com letras, um de que a minha sobrinha de 13 anos tinha gostado imenso. A miúda tinha nitidamente capacidade para este e para mais, se fosse preciso. Ao dar-lho para as mãos, a menina diz:
- Vou lê-lo num instante… se não, gostar posso vir trocá-lo?
Sabia que era um estratagema para poder ler mais com o mesmo dinheiro, mas respondi:
– Sim, podes.

Eu sei que é politicamente incorrecto e que na maior parte das vezes não é verdade, mas, para uma criança, o facto de os livros não estarem imediatamente à mão pode funcionar como o melhor incentivo à leitura.
*
Jaime Bulhosa

10 comentários:

fallorca disse...

Delicioso :)

alice disse...

Obrigado!

Anônimo disse...

Uma das melhores prendas que já recebi, era eu um menino a frequentar a 3ª classe, foi terem-me inscrito na biblioteca municipal de Macedo de Cavaleiros (apoiada pela Calouste Gulbenkian). Foi um mundo que se abriu e...até hoje!

Foi o que me "safou", uma vez que os meus pais não tinham grandes possibilidades e as livrarias no interior pouco mais vendiam do que os livros escolares...

Sem prejuízo da menina poder ir à Pó dos Livros :-), era bom que ela tivesse a possibilidade que eu tive.

Mário

{anita} disse...

Quando nessa idade me tornei devoradora de leitura, o meu pai fazia um esforço enorme para me oferecer um livro todas as 6as feiras. lia o livro no fim-de-semana e passava a semana à espera do próximo... quando descobri a biblioteca Calouste Gulbenkian (em Portalegre) fiquei maravilhada! podia levar para casa três livros de cada vez! Três! que barrigada :)

marta morais disse...

Jaime e o Lobo.
A sensação é de que as pequenas histórias que aqui aparecem, passadas na Pó, saem directamente da veia romanesca do Jaime Bulhosa. Mas depois há umas... que soam a 'realidade'... e nunca sabemos. O que também sabe bem!

Iceman disse...

Uma linda história, sem duvida.

eMe-a-eMe disse...

que delicia de história : )
fico viciada num pulinho diário a esta pó dos livros.

dharam inder kaur disse...

Essa menina ou a mãe devia tornar-se membro do Bookcrossing, ela ia ter muito que ler!!!Entretanto se ela voltar para o trocar fala-lhe nisso :D

stiletto disse...

História adorável. Eu já fui essa menina :). A "prenda" melhor" que o meu pai me deu foi inscrever-me na Biblioteca Fixa Calouste Gulbenkian (a da minha terra era a nº2, bem antiga) devia ter mais ou menos essa idade. Podia-se levar 5 livros para um mês. Quando já era mais velha e estava de férias esses 5 livros mal davam para uma semana. Agora compro livros compulsivamente, estou quase a deixar de ter espaço para os arrumar.

Pedro Lopes disse...

delícia

há momentos para sempre

obs: estive na Pó dos Livros no passado Sábado, não conhecia o espaço, soube pelo blog do evento dedicado à "micro-ficção"; foi muito interessante; obrigado e parabéns