segunda-feira, julho 27

20 (-2)

20 (-2) - e não 18, porque as antologias se fazem com números redondos (?) - são os poetas que nos traz Manuel de Freitas, numa antologia sem pretensões a consensos nem representatividade. "Esta antologia, portanto, está-se nas tintas para a posteridade. Trata-se, isso sim, de uma viagem estritamente pessoal por uma parte talvez muito significativa do nosso século XX, onde se acolhem (ou se preferirem, me visitam) poetas portugueses nascidos entre 1900 e 1950. Apenas isso. (...)
De uma maneira ou de outra, é sobretudo a morte o que se dá a ler, a suspeita de que, daqui a vinte ou trinta anos, esta antologia mais não será do que um brando esquecimento, para enfado de alfarrabistas." (do prefácio)
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O POEMA ENSINA A CAIR

O poema ensina a cair
sobre vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge
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ECONOMIA TRÁGICA

Assim me dou. Como trapo à lama
da rua onde cansei meus passos
Onde os anos passaram como abraços
cercados pelo mundo.

Onde está:
«Assim me dou. Como trapo à lama»
Substituir:
«Assim me dou. Como trapo à alma»
E fica:

Assim me dou. Como trapo à alma
da rua onde cansei meus passos.
Onde os anos passaram como abraços
cercados pelo mundo.
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Ruy Cinatti

Título: A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX
Selecção e Prefácio: Manuel de Freitas
Edição: Assírio & Alvim, 2009
ISBN: 9789723713015
PVP: 30.00€

Isabel Nogueira

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