segunda-feira, julho 6

Que língua estranha é esta?


Uma pessoa adulta e com uma formação média ou elevada reconhece entre dez mil e 15 mil palavras. Tendo em conta que a língua portuguesa terá cerca de um milhão de palavras, isto quer dizer que utilizamos apenas 1% a 1,5% dos seus recursos vocabulares.
Este facto deixa-me perplexo perante a forma como por vezes olhamos para os jovens e lhes condenamos a utilização de novas palavras ou perante as polémicas à volta do acordo ortográfico. O aparecimento de umas poucas novas palavras ou a alteração da grafia de outras tantas não tem qualquer expressão na imensidão de palavras que podemos usar. Por exemplo, um livro com cerca de 200 páginas (escrito por um bom escritor) não terá mais de 50 mil palavras; não contando com as palavras repetidas e os artigos, sem rigor, um livro deve conter 12 mil palavras diferentes (por isso é que recorremos tantas vezes ao dicionário).
Quer isto dizer, também, que poderíamos escrever várias versões do mesmo livro recorrendo apenas a sinónimos (entre outras coisas, por isso é que uma tradução pode transformar um livro noutro completamente diferente). O resultado, contudo, poderia soar mais a um dialecto africano ou a um dialecto de uma tribo nativa da América do Sul do que propriamente a português. Deixo-vos um exemplo de uma frase escrita com palavras portuguesas que muito raramente ou nunca são usadas:

«Acuí-cuí, minha darona usa acudó.»

Nota: De acordo com o dicionário de sinónimos da Porto Editora, esta frase quer dizer: «Sim, minha mãe usa peruca.»
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Jaime Bulhosa

3 comentários:

Anônimo disse...

Há um pequeno engano nos cálculos da percentagem de palavras conhecidas. 1% a 1,5%, para 1 milhão de palavras existentes.

valedovale disse...

daí a pertinência e a importância da tradução cultural.

Pó dos Livros disse...

Obrigado pela correcção.