terça-feira, agosto 11

Editores ignoram livro famoso

Na revista Sábado desta semana saiu um artigo intitulado O livro que nunca teria sido editado, com chamada à capa e assinado pela jornalista Susana Torrão. Em síntese, o artigo consiste numa pergunta: como é possível que um livro premiado, de um escritor reconhecido, passe completamente despercebido aos editores?
A jornalista Susana Torrão teve a ideia, já de si pouco original, de plagiar um livro (como todos nós sabemos, o que mais se vê por aí são livros quase totalmente plagiados e editados com sucesso comercial), de forma a criar um logro e enganar os editores mais incautos. A experiência consistiu no seguinte: Susana Torrão criou uma nova autora imaginária, de nome Isabel Sousa, supostamente nascida em 1959. Agarrou no livro Até ao Fim, de Vergílio Ferreira, alterou-lhe o título para um pouco sugestivo “Vigília”, deu outros nomes às principais personagens, fez contactos com algumas editoras, enviou umas cópias do “original” e ficou à espera das respostas. Surpresa! (só se foi para a autora do artigo), porque passados seis meses ninguém se mostrou interessado em editar o livro nem deu pelo plágio. Quem conhece minimamente o mercado editorial sabe que as coisas não funcionam assim. Não basta enviar um original para uma editora e de imediato ter a garantia que o lêem. Possivelmente, só no tempo de Vergílio Ferreira, e mesmo assim duvido. É certo que aumentou muito o número de editoras desde 1943 data de edição do primeiro livro de Vergílio Ferreira O Caminho Fica Longe, mas aumentou ainda mais o número de pessoas que deseja ser publicado.
O artigo deixa transparecer, negligentemente, a ideia de que os editores portugueses são incompetentes, uma vez que deixam fugir por entre as suas mãos autênticas maravilhas da literatura, textos que nem sequer, na maior parte dos casos, se dão ao trabalho de ler.
Antes de publicar este artigo, a jornalista da revista Sábado deveria ter pesquisado um pouco mais sobre como Vergílio Ferreira terá conseguido editar o seu primeiro livro; deveria ter procurado responder a perguntas como: Terá Vergílio Ferreira enviado simplesmente o manuscrito para as editoras? Será que não conhecia ninguém no meio editorial? O seu primeiro livro não teria tido já referências? (Só foi publicado quatro anos depois de ter sido escrito.) Faz hoje sentido editar o livro Até ao Fim como primeiro livro de um autor?
Mais, não deveria Isabel Sousa - a ficcionada autora já com cinquenta anos de idade, com pretensões a escritora - ter publicado, nem que fosse num blogue ou numa qualquer publicação local, artigos, poemas, contos, ou outros textos que de alguma forma deixassem rasto e permitissem aos editores fazer uma avaliação prévia? Enfim, perguntas para as quais seria necessário haver respostas, se se quisesse dar credibilidade à pseudo-autora e tornar a experiência efectivamente engraçada. O resultado da experiência de Susana Torrão, que nada acrescenta, não poderia ter sido outro se não a total ausência de interesse por um manuscrito entre dezenas e dezenas de outros que os editores recebem por ano. O artigo apenas vem demonstrar, que os escritores não nascem do nada (nem apenas do talento). E os editores sabem-no bem.


Jaime Bulhosa

5 comentários:

Silvestre ma non tropo disse...

O objectivo do artigo publicado pela revista Sábado não era ser original, o texto deixa claro quais foram as fontes de inspiração (referindo nomeadamente a experiência de Doris Lessing com a sua editora). Apenas se pretendeu aplicar o conceito ao mercado nacional e a um autor português consagrado. O artigo teve precisamente um fim pedagógico para todos os "escritores que estão no armário" sobre o modo de funcionamento das editoras face a novos nomes e a manuscritos inéditos. Mas o artigo também deveria constituir um motivo de reflexão para as editoras - apesar de todas as explicações (absolutamente válidas) de Jaime Bulhosa, que tem a experiência e um passado notável nesta matéria - a verdade é que um livro de referência de Vergílio Ferreira foi totalmente ignorado... apenas mais um "manuscrito entre dezenas de outros que os editores recebem por ano". E no entanto... era um Vergílio Ferreira.

Ass: Luís Silvestre (editor, revista Sábado)

fallorca disse...

Cum camando....

Anônimo disse...

Eu li o artigo e editores houve que justificaram a falta de interesse, portanto, nem todos se limitaram a recusar, só porque sim. As editoras são empresas, e mesmo o texto de um autor conceituado pode não ser comercialmente interessante, ainda para mais escrito sob um nome desconhecido.

Samuel disse...

A revista Sábado não pretende fazer jornalismo, mas coisas giras, engraçadas. Claro que deviam entregar as carteiras profissionais primeiro e fazer isso depois. A revista Sábado, entre muitas outras coisas duvidosas, não publica fotografias de negros, de pessoas feias ou gordas. É uma opção, mas não é jornalismo. O que escapou à autora, ao Luís Silvestre e ao Jaime foi que, algum editor tendo-se apercebido do plágio limitou-se a ir depositar o texto ao ecoponto sem gastar mais um segundo a pensar no assunto. E a jornalista não telelefonou aos editores a perguntar o que achavam do texto? Limitou-se a esperar? Bom, se ela for assim no trabalho vai ter negativa no item "pro-actividade" da sua avaliação...
Cumprimentos.

Livros de Areia Editores Lda. disse...

Essa história é já antiga. Fizeram a mesma coisa, por exemplo, com o STEPS do Jerzy Kosinski em 1979 (http://www.museumofhoaxes.com/hoax/archive/permalink/the_steps_experiment/). A Sábado quer escancarar portas abertas.

Pedro Marques
Livros de Areia