sexta-feira, agosto 7

O fim dos livreiros


A proliferação dos novos aparelhos para leitura de livros digitais (e-books) é tal que não passa um dia em que os Blogtailors (coitados, já devem estar desorientados...) não tenham de anunciar um aparelho novo, maravilhoso, extraordinário, mais leve e com maior capacidade que os anteriores. O sucesso parece garantido. A partir de agora são muitos os que vaticinam o fim do livro tradicional e, consequentemente, o fim dos livreiros e das livrarias. O raciocínio é simples: basta transferir para o mercado dos livros o que aconteceu no mercado dos discos. Se a linha de pensamento for assim tão linear, eu iria ainda mais longe e acrescentaria o fim de muitas gráficas, distribuidoras, editoras e, por fim, de muitos autores. A pirataria vai ser tal e os direitos de autor tão completamente vandalizados, que os escritores (aqueles que vivem apenas da escrita), à semelhança dos músicos, terão de passar a fazer espectáculos ao vivo. Só assim poderão garantir a sua sobrevivência. É claro que, consequentemente, os editores passarão a ser os seus agentes culturais (se é que já não o são frequentemente). Com este cenário tão dramático, não me resta outra alternativa senão começar a pensar num novo emprego. Como já trabalho nos livros há muitos anos, não é fácil imaginar-me a fazer outra coisa. Não posso desesperar: afinal de contas, muitos outros antes de mim, por uma razão ou outra, tiveram que mudar de profissão, acabando por ser bem-sucedidos. Só tenho de escolher entre vir a ser, por exemplo, ditador ou economista (duas profissões muito bem vistas nos dias que correm).
É por isso que deixo aos meus colegas, para que também eles se possam orientar, uma lista de nomes de pessoas que, em tempos, foram nossos colegas de profissão:

George Orwell – de livreiro a guerrilheiro.

Mao Tsé Tung – de bibliotecário a ditador.

Casanova – de bibliotecário a Don Juan.

Achille Ratti – de livreiro a Papa Pio XI.

David Hume – de livreiro a filósofo empírico iluminado.

William Blake – de livreiro a artista pobre mas sem dívidas.

Marcel Duchamp – de bibliotecário boémio francês a artista americano ainda mais boémio.

Archibald Macleish - de bibliotecário a três vezes prémio Pulitzer.

-
Jaime Bulhosa

8 comentários:

Serras disse...

os ditadores estão (merecidamente) com uma cotação bem mais alta que os economistas

Sara disse...

e os livreiros da Pó dos Livros increvem-se em que categoria? no do Casanova?

Mariane disse...

Esse blog é ótimo, parabéns!

Nicolina Cabrita disse...

Os e-books dão jeito para certos efeitos e em determinadas ocasiões, mas não são livros «a sério». Por conseguinte, se está mesmo à procura de um pretexto para mudar de vida, desconfio que não tem sorte nenhuma... :-)

Aproveito para dizer que se o blog é óptimo, a livraria é ainda melhor. Sou cliente. Recomendo.

E que Deus conserve as livrarias, porque, juntamente com as bibliotecas, são dos melhores sítios do mundo!

Saudações cordiais

Muitas palavras disse...

A liberdade e a facilidade para se descobrir livros hoje é maior que há séculos.

A cultura e os livros são para sempre. Impressos já não sei. Melhor no meio eletrônico, evita-se o corte de arvores:)

Rui Pedro Lérias disse...

Bom, se for preciso a intervenção de Deus então os livreiros estão em apuros...

Bruno disse...

Creio que existirão sempre coleccionadores e aficcionados pelos "velhos" métodos de leitura, assim como há pessoas que ainda compram o velho vinil, assim haverá quem prefira sempre os livros em Papel, e não vejo a entrada da tecnologia como sendo má neste meio, creio que na música até permitiu que muitas bandas e músicos conseguissem ultrapassar as limitações que as editoras discográficas lhes impunham e conseguiram lançar as músicas da maneira que mais gostavam, e não como as editoras achavam melhor, como achavam que vendia mais. Creio que a tecnologia veio até dar uma certa
"liberdade" aos artistas em geral, que através do conceito de "aldeia global" conseguem que a sua arte chegue a todo o mundo, sem "filtragens" de editoras que são uns autênticos abutres. Em breve, na escrita, creio que isso também poderá acontecer, um escritor pode publicar o seu trabalho como quiser, e depois o público decidirá directamente se este foi bom ou mau, e não será uma editora que decidirá se o trabalho irá vender ou não, se é "bom" ou não. Quanto ás receitas há muitas maneiras de publicidade que garantirão meios de subsistência aos escritores, ideias não faltarão.
Cumprimentos.

Anônimo disse...

Nada tema, meu caro, os poucos livros que a sua livraria deve vender são daqueles que sempre serão comprados em papel. Ainda assim acautele-se. Sugiro também mudar o nome da sua livraria, talvez para "Pó do E-Book".