Segunda-feira, Agosto 31

Prateleira de livreiros


Não sei que idade teria quando entrei pela primeira vez numa livraria, mas sei que foi pela mão do meu pai. Era o seu passatempo favorito: ir por Lisboa errando, de livraria em livraria. E eu, tentando acompanhar os seus passos, corria ao lado dele, enquanto ele me explicava que existiam livrarias que eram «cemitérios de palavras cheias de teias de aranha que se eternizam nos cantos dos móveis». Outras havia em que «as palavras se envergonhavam e onde poderíamos encontrar de costas voltadas, para que não fossem reconhecidos, Shakespeare e Goethe». Nalgumas livrarias seríamos bem-vindos, noutras o meu pai sabia que não iria encontrar nada que lhe interessasse e que seríamos observados com ar aborrecido. Havia ainda outras onde alguns livros gritariam: «Socorro, tirem-me daqui!» Mas todas elas tinham um nome para além do seu nome: o nome do livreiro que lá estava. A livraria do senhor Vicente, a do senhor Barata, a do senhor Braga, a do senhor Armando. Hoje ainda temos livrarias com nome, ainda que sejam quase todas do monsieur Fnac e do herr Bertrand...

Jaime Bulhosa

7 comentários:

Anônimo disse...

A minha primeira livraria, onde em criança a minha mãe me comprou religiosamente todos os livros de BD "Quim & Filipe" era (e felizmente ainda é) dos Srs Assirío e Alvim...

dora disse...

... e esta, a Pó dos Livros, como se chama?

Pó dos Livros disse...

dora,

Senhor carlos Loureiro.

fallorca disse...

Deixa-te disso, sabes que HÁ a livraria do Jaime, da Catarina e do Ricardo, do Changuito e do Eduardo, que me ocorrem porque são as minhas livrarias... levado pela minha mão.

Miri disse...

Um blog que vale sempre a pena ler!
De facto ao longo dos anos as livrarias perderam algumas das suas características especiais... nomeadamente a de ser atendidos e aconselhados por alguém que conhecemos e tratamos pelo nome!

Anônimo disse...

Para mim a maravilhosa Galileu, em Cascais, é da Caroline. E não há monsieur Fnac que me valha...

Manuel Pereira Medeiros disse...

Cartoon para o título ou título para o cartoon? O interesse é o do assunto, para este blogue: livreiros e livrarias. Mais uma vez em companhia do mestre, que lhe foi seu pai, na paixão pelos livros. Bonito! De chapéu e bengala (www.chapeuebengala.blospot.com), só agora me arrisco por aqui e Pó dos Livros nos meus favoritos. Nem por mim lá tinha antes chegado. Várias postagens sobre este assunto. E que não se canse. LI sem livreiros são possíveis? Sem LI que livreiros haverá? Mas parece que se acredita no livro sem livreiros. Continue, p.f.,no prémio de "melhor blogue de..."
M. Medeiros