quinta-feira, julho 6

Prateleira de livreiros


Não sei que idade teria quando entrei pela primeira vez numa livraria, mas sei que foi pela mão do meu pai. Era o seu passatempo favorito: ir por Lisboa errando, de livraria em livraria. E eu, tentando acompanhar os seus passos gigantes, corria ao lado dele, enquanto ele me explicava que existiam livrarias que eram «cemitérios de palavras cheias de teias de aranha que se eternizam nos cantos dos móveis». Outras havia em que «as palavras se envergonhavam e onde poderíamos encontrar de costas voltadas, para que não fossem reconhecidos, Shakespeare e Goethe». Nalgumas livrarias seríamos bem-vindos, noutras o meu pai sabia que não iria encontrar nada que lhe interessasse e que seríamos observados com ar aborrecido. Havia ainda outras onde alguns livros gritariam: «Socorro, tirem-me daqui!» Mas todas elas tinham um nome para além do seu nome: o nome do livreiro que lá estava. A livraria do senhor Vicente, a do senhor Barata, a do senhor Braga, a do senhor Armando, a do senhor Nuno de Cascais. Hoje ainda temos livrarias com nome, ainda que sejam quase todas do "monsieur" Fnac ou Bertrand...

Jaime Bulhosa

2 comentários:

Anônimo disse...

Há uns anos vi um programa de TV, moderado pelo Francisco José Viegas, onde o Jaime Bulhosa era um dos três convidados. (Salvo erro uma livreira de Cascais e uma editora)

Nele, ouvi-o vaticinar o desaparecimento lento e gradual das pequenas livrarias, fruto da mudança de hábitos e costumes, e de concentrações empresariais.

Gosto imenso da vossa livraria, do atendimento, do espaço, da oferta de livros etc. Mas, cada vez menos, passo por aí. Cada vez menos compro, E quando compro muitas vezes tenho consciência que não foi uma decisão racional (compraria mais barato online ou na FNAC).

Custa-me ver a minha escolha reduzida. Custa-me saber que só os Golias escapam.

Já ouvi alguém falar numa cooperativa de livrarias independentes e noutras ideias.

Não haverá forma de escapar a esta morte lenta?

Cordialmente
Um admirador de livrarias independentes

Pó dos Livros disse...

Infelizmente parece que tinha razão. :)