quarta-feira, dezembro 7

Escritor



Apesar de sermos uma livraria, há muita gente que nos confunde com uma editora. Isso faz com que nos enviem manuscritos originais, na esperança de que sejam lidos e editados. Eu, obviamente, não quero desencorajar ninguém. No entanto, e pelo que me tem sido dado a observar, a grande dificuldade não está em ser editado, embora seja um passo importante, mas sim no que se segue:

Desde há uns anos que frequentava o meio, conhecia e falava com muitos escritores. Alguns consagrados, outros não tanto; contudo, todos já tinham livros editados. Sempre que podia, trocava impressões sobre aquilo que eles escreviam e aproveitava para mostrar o que eu escrevia. Eram sempre simpáticos, demasiado simpáticos, falavam comigo como alguém que pertencesse a uma classe social superior; sempre obsequiosos, condescendentes, com medo de descer ao nível do interlocutor. Agora sim, iriam ouvir falar de mim e eu alcançarei, merecidamente, o mesmo patamar.
Estava sentado em frente ao meu editor. A persistência foi recompensada: o desejo de me tornar num escritor editado seria realizado.

- Não imagina... Cheguei a passar, não poucas vezes, por depressões, conflitos internos que levaram a minha auto-estima a cair para zonas que a psicanálise quase não conseguia recuperar. Pudera, depois de tantos anos de manuscritos recusados... Cheguei a pensar em desistir e achei que nunca iria editar um livro. Evidentemente, ainda sou jovem para escritor e há inclusive quem diga que não se deve escrever um romance antes dos quarenta anos, ou pelo menos só depois de ler os clássicos, porque pouco mais será do que citar fragmentos de outros livros. Mas o impulso, a vontade, o prazer da escrita foram mais fortes do que eu. Não podemos desejar, logo à primeira, uma obra-prima. Estas demoram uma vida inteira a serem escritas. Por isso, desta vez, não fiz nada ao acaso. Enviei o manuscrito só para a sua editora, que tem um catálogo de qualidade e onde o meu livro encaixa perfeitamente.
- Fez bem, de facto gostamos muito do seu livro. É um texto muito original, com uma trama intensa e escrita escorreita, com personagens bem construídas. Enfim, a prosa excelente de um verdadeiro escritor de fundo, com uma qualidade que, nos dias que correm, raramente encontramos. Foi por isso que decidimos publicá-lo.

Desde que recebi a notícia de que o meu livro iria ser publicado não parei de sonhar com o meu nome nos jornais, nas revistas, na televisão, até com a adaptação para o cinema.
- Sabe, há muito tempo que desejo dedicar-me inteiramente à escrita - confessei.
- Como?
- Sim, estou a pensar viver só disto, quero dizer, da escrita. Disse-me que os direitos de autor são dez por cento sobre o preço de capa?
- Exactamente.
- Então, é fácil fazer as contas. Se pegarmos num livro semelhante verificamos que o seu preço ronda os dezasseis euros. Multiplicado por milhares, é muito dinheiro.
- Peço desculpa, mas ao dizer-me uma coisa dessas não me parece que faça ideia de qual a tiragem média de um livro neste país. Estamos a falar de mais ou menos 3000 exemplares.
- O quê?!... É essa a quantidade que está a pensar imprimir do meu livro? Não disse que ele era bom? Pareceu-me mesmo ouvir que o adjectivou de excelente...
- Ouviu bem, mas é exactamente por isso.
- Não entendi…
- É melhor ficar sentado, pois não vai gostar do que lhe tenho para dizer. Quando falei em 3000 exemplares, estava a falar de uma tiragem média. A primeira edição do seu livro será de apenas 1000 exemplares e vamos lá ver se não é demais. Se conseguir vender todos no primeiro ano já não era nada mau. Mas é pouco provável. Colocar-se-á pouco mais de metade nas livrarias e devolver-se-á, nos primeiros três meses, trinta por cento da edição.
- Mas esses números são ridículos! Você é um, é um… Com cenário desses, para poder viver da escrita, teria de escrever dez livros por ano. Não lhe parece?!… Eu chegarei ao estrelato! SEU IDIOTA CHAPADO!
- Vou-lhe dizer uma coisa, a maioria dos grandes escritores só chega a ver estrelas depois de levar um par de estalos.
E um som seco ecoa pela sala. Pás! Tás!


-Jaime Bulhosa

7 comentários:

Solteira de Salto Alto disse...

Este texto está muito bom!

fallorca disse...

Aperta cá as teclas, Jaime ;)

Anônimo disse...

É bom termos livreiros assim!

Fusível Ativo disse...

É a verdade verdadinha.

Anônimo disse...

É desta...! é mesmo desta que vou ser famosa! E se for, prometo que apareço aí na Pó em grande estilo...!

SEVE disse...

Brilhante.

Malu disse...

Diz a sabedoria popular que uma pessoa só tem uma vida completa quando planta uma árvore, escreve um livro e tem um filho.
Quando eu escrever um livro (já plantei uma árvore e já tive um filho)lhe enviarei com este poema :)) :

NÃO ME FECHEM AS PORTAS
Walt Witman

Não me fechem as portas, orgulhosas
Bibliotecas,
Pois justamente o que estava faltando
Em tuas prateleiras apinhadas,
É o que venho trazer
-mal acabando de sair da guerra,
um livro escrevi:
pelas palavras do meu livro, nada;
pelas intenções, tudo !
Um livro à margem,
Sem nada a ver com os restantes,
E que não pode ser sentido só
Com o intelecto.
Vocês, porém, com seus silêncios latentes,
A cada página hão de estremecer
Maravilhadas...