segunda-feira, agosto 13

Venho para comprar tudo



Encontro-me a ler junto ao balcão, é Agosto, a horas em que a livraria já não espera nem acolhe outro leitor a não ser o seu próprio livreiro. Um movimento inesperado na porta da loja distrai-me da leitura. Entra um senhor de aspecto distinto, muito bem vestido mas de forma antiquada. Sugestionado ou não pelo livro que lia, pareceu-me de repente uma personagem saída de um livro de Edgar Allan Poe ou de Bram Stoker. O homem formula uma pergunta:

- Vende-se bem?

Dadas as circunstâncias, não lhe respondo imediatamente, mas ele insiste:

- Você estaria disposto, se fosse o caso, a vender tudo?

Desconfio. No entanto, dou brilho aos sapatos, arreganho a dentadura, penteio-me.

- Venho para comprar tudo.

Agora sim, presto atenção. Engraxo-lhe os sapatos, etc. Ele continua:

- Tudo depende, evidentemente, do preço. Mas faço-lhe uma oferta generosa.

- Diga, então.

- Dois milhões.

Mentalmente dou pulos, em silêncio dou gritos de alegria. Comprometi-me a vender tudo. Tiro os livros, entrego-lhos, embrulho também os da montra, a caixa, os lápis, as canetas, o cabide. O senhor insiste.

- Eu disse tudo.

- Tudo? O que é tudo?

- Tudo, tal como eu disse.

- As paredes?

- Sim, creio que nos entendemos bem, você fixou o preço e eu não desisti. Eu disse tudo. As paredes, o tecto, o rés-do-chão, o 1.º piso, as outras paredes, os outros tectos, enfim: tudo.

Encolhi os ombros.

- Bom, digo-lhe, sendo assim vou andando. Disponha. É tudo seu.

- Mas onde pensa que vai? Você também faz parte do «tudo», o dinheiro que eu lhe dei, o chão que pisa, o ar que respira, o mundo que o rodeia. Eu comprei TUDO.

Relato de um sonho de livreiro transformado em pesadelo

3 comentários:

stiletto disse...

E por acaso não tinha chifres, um tridente e vestia de vermelho? Isso era quase vender a alma ao diabo lolol!

Sala de Leitura Paulo Freire disse...

Esse tudo já foi vendido, já tem dono. Cuidado. Boa crônica!

Domingos Barroso disse...

tudo é tudo,
sobretudo a alma
...

abraços.