terça-feira, setembro 22

Como é que passaste dos quarenta sem ter lido?...

Sou capaz de nomear, sem qualquer tipo de ajuda, centenas de nomes de livros importantes do século vinte. Do século dezanove, provavelmente, algumas dezenas. Do século dezoito, a coisa começa a ficar mais difícil e, assim de repente, lembro-me do Cândido, de Voltaire, de Jacques o Fatalista, de Diderot, A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e de mais uns tantos, se me esforçar um pouco. A partir daqui, começo a abrir buracos temporais e lembro-me da Fedra de Racine, do Paraíso Perdido, de Milton, Dom Quixote, de Cervantes, Os Lusíadas, de Camões e Hamlet, de Shakespeare. Depois começo a saltar séculos: A Divina Comédia, de Dante, Confissões, de Santo Agostinho, a Eneida, de Virgílio, a Odisseia e a Ilíada, atribuídas a Homero. Dos milhões de livros que se escreveram desde a antiguidade clássica, apenas alguns ficaram na memória da história. O tempo é um filtro inexorável no que toca a seleccionar as obras de referência. Se pudesse viajar na máquina do tempo e saltar de repente para o século vinte e três, gostaria de poder perguntar a um homem comum títulos de livros importantes do século vinte. Aposto que ele não enumeraria mais do que dois ou três. Desafio a que me digam quais os livros importantes do século vinte, aqueles que ficarão na memória das sociedades futuras. Com um bocado de sorte até já os li e não necessitarei mais de ouvir: «Como é que passaste dos quarenta sem ter lido?…»
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Jaime Bulhosa


12 comentários:

josé luís borges de almeida disse...

Curiosa, a sua incerteza de leitura. Trouxe-me a lembrança a frase de Montaigne (no seu ensaio sobre os livros):
(…)
Se sou homem de alguma leitura, também o sou de nenhuma memória.
(…)

fallorca disse...

Pois olha, consegui fazer 60 sem ler a maior parte deles, e não sinto nada estranho
(juro pela minha saúde: a VP é/era «distri»)

Isabel I disse...

Creio que li muitos, sim. Jorge Luis Borges, Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez, Vargas Llosa, Pablo Neruda, Erico Verissimo, Isabel Allende, Laura Esquivel, Vinicius de Morais, Chico Buarque, e estes são só alguns dos sul americanos.... Isabel I

Alexandre disse...

"os dias de missirá", do manuel lamas. pelo menos para mim. :)

Anônimo disse...

Dos livros que já li estes dois destacam-se claramente como obras criativas sem paralelo:
1-Em Busca do tempo perdido - Marcel Proust.
2- O homem sem qualidades- Robert Musil

E.L.

Paulo Rui disse...

e' o tipo de pergunta que tera' respostas consoante o gosto de cada um.. o que para uns e' obra-prima, para outros e' lixo (Ulisses de James Joyce, para mim, esta' na segunda categoria, por ex.). As listas que costumam vir nos jornais ou na net dos "Livros do Seculo" reciclam-se umas 'as outras. Cria-se a ideia que um livro e' um "livro do seculo", aparece numa lista, mais pessoas lem, mais pessoas pensam que e' obra-prima, e mais eles aparecem nas listas e por ai' adiante.
Na minha opiniao pessoal, os livros do Sec. XX que mais gostei foram "Naked Lunch" (W.Burroughs), tudo de Kafka e "Nossa Senhora das Flores" (Jean Genet). Em lingua portuguesa, "Grande Sertao-Veredas" de J.G.Rosa. Livros anteriores ao Sec.XX deixam-me sem reaccao, nao aprecio. Farto-me logo em ouvir falar ate' 'a nausea de seroes em saloes parisienses, duquesas e condes Russos e problemas dos ricos (os livros so Sec.XIX sao como as novelas mexicanas, so ha ricos. Ate' os pobrezinhos sao ricos. E de sangue azul) Alem disso esses livros chatos parece que se recusam a falar no obvio (i.e. sexo) e fazem de tudo para evitar mencionar essa "coisa nefasta", mesmo quando e' necessario falar nela. Olhem o exemplo de Andre Gide em "O Imoralista".. Todas as personagens sao homossexuais ou mulheres adulteras, todos tem relacoes sexuais com todos, mas ele poe um manto de moralidade tao grande sobre o caso, tanto eufemismo, tantos "digo sem dizer" que ate' enerva, principalmente para um livro com esse nome. Esse pessoal do Sec.XIX tinha a mania de nao saber chamar as coisas pelos nomes, que tedio!......Eheh Para mim, a literatura a serio comecou na 2a metade do Sec.XX com 'Naked Lunch'. Antes deste livro ninguem tinha mostrado 'ao leitor o mundo nu e cru, com as coisas chamadas pelo seu devido nome. Na minha opinoao, claro

Pó dos Livros disse...

Paulo Rui,

Não concordo consigo, mas os argumentos que usa para dizer que não aprecia os livros anteriores ao século vinte, têm imensa graça. ;)

Jaime

No vazio da onda disse...

Aqui vão 3 hipóteses:

1. Robert Musil, 'O homem sem qualidades'
Porque vão querer saber quem era aquela gente que vivia no século XX.

2. Salman Rushdie, 'Os filhos da meia-noite' e 'Versículos satânicos' + Edward Saïd, 'Orientalismo'
Porque vão querer saber porque ainda andam à porrada no século 23.

3. Aldous Huxley, 'Admirável Mundo Novo' + George Orwell, '1984' + Evgueni Zamiatin, 'Nós'
Porque vão querer saber como é que chegamos a isto, mesmo depois de tantos avisos. Quer dizer, neste caso, desconfio que saibam sequer que estes livros alguma vez existiram.

ou então haverá uma grande catástrofe e apenas restarão frases gravadas na pedra, tipo:
'Amo-te Teresa'
'O Manuel esteve aqui' ou
'Glorioso SLB' (então esta é que não vão perceber mesmo nadinha).

Sara disse...

hum... vários... Gabriel Garcia Marquez, Borges, Neruda, Paul Auster, Frnak McCourt, entre vários.

Se tivesse de escolher um livro, seria "Journalistas - 100 years of the best writing and reporting by women jornalists". Recomendo vivamente. Já para não falar na capa, lindíssima.

Anônimo disse...

"Um mundo infestado de demónios" de Carl Sagan.

ADS disse...

Se só pudesse escolher 2, seriam
- A Montanha Mágica, de Thomas Mann
- 1984, de George Orwell.
:)

mi disse...

Duas sugestões.
Dois italianos.
Cidades Invisíveis de Italo Calvino e Oceano Mar de Alessandro Baricco