quarta-feira, setembro 30

O sentido de todas as coisas


Para os jovens que procuram entender o mundo que os rodeia e buscam sabedoria, conhecimento ou, em resumo, o sentido de todas as coisas, uma das melhores maneiras de o poderem fazer é através da leitura. Ora, aqui começa a dúvida: ler o quê? Há quem afirme, como Italo Calvino ou Harold Bloom, entre outros, que devemos ler «os livros de onde vêm todos os outros livros» (pelo menos os da cultura ocidental). Isto é, os livros de sempre. Alguns dos nomes citados são os seguintes: Homero, Virgílio, Ovídio, Platão, Santo Agostinho, Dante, Chaucer, Camões, Shakespeare, Milton, Voltaire, Pascal, Racine, Dickens, Flaubert, Twain, Goethe, Tolstoi, Kafka, Borges, etc.
Esta ideia só tem um problema: rapidamente vamos constatar que, para entendermos na totalidade alguns dos livros que estes senhores escreveram, vamos ter de ler coisas que se escreveram sobre eles e, depois disso, relê-los. Meu Deus, mas isso leva uma vida inteira!, exclamamos nós. Ninguém disse que era fácil a demanda do sentido de todas as coisas. Como disse Calvino: «Não se lêem os clássicos por dever ou por respeito, mas só por amor. Salvo na escola.» Acrescento que não devemos tentar lê-los a todos, porque como, disse um dia um filósofo, «toda a experiência humana é um imenso livro do qual apenas temos tempo de ler alguns capítulos».
Perante isto, pensamos nós, bom mesmo, para nos facilitar a vida, era alguém ter sido capaz de escrever um livro possível de ler e onde estivesse escrito o sentido de todas a coisas. Houve até em tempos alguém que o fez - não, não é a Bíblia. Esta história está descrita num texto de Voltaire chamado Micromegas (vale a pena ler, até porque a dimensão da obra não é grande e, no entanto, o seu conteúdo é imenso). Este livro relata-nos a história de «um jovem de espírito de oito léguas de altura: entenda-se, por oito léguas, vinte mil passos geométricos de cinco pés cada um, que vivia num desses planetas que giram em volta da estrela de Sírio» e que, por mero acaso, veio parar ao minúsculo planeta Terra. Depois de algumas reflexões e muitas peripécias, que poderão apreciar quando lerem o livro, o jovem de espírito e de sabedoria gigante propôs-se escrever um livro em letra muito miúda, de maneira que os seres microscópicos chamados homens pudessem lê-lo, e onde estaria contido o sentido de todas as coisas. Este texto seria escrito para oferecer àqueles homens da Terra que achavam que sabiam o segredo de tudo e que tudo era feito unicamente para o homem. Feito isto, o livro O Sentido de Todas as Coisas foi levado como um tesouro para ser aberto apenas pelo secretário da Academia das Ciências de Paris. Qual não foi a surpresa quando este o abriu e viu apenas um livro em branco. «Ah! Bem que eu desconfiava…», disse ele.


Jaime Bulhosa

2 comentários:

No vazio da onda disse...

Belo texto.
Eu, cá por mim, fico-me pela hipótese: tentar ler vários clássicos, mas ao sabor da onda, isto é, quando sentir que é a altura de o fazer. Se não for a altura certa, bem, sempre se pode perguntar: Porque não ler um clássico?

Miri disse...

Gostei do post... Ler todas as grandes obras é tarefa hercúlea e como diz leva uma vida inteira, senão mais. Desconhecia o texto Micromegas de Voltaire, mas despertou-me a curiosidade já o fui buscar à estante da biblioteca para que seja a minha próxima leitura!