terça-feira, novembro 22

Pedra de afiar livros


Numa manhã bem cedo do ano de 1985.

– Mandaram-me vir ter com o senhor Braga.
– Ah! És tu o novato? Ainda bem. Estava mesmo a necessitar de alguém que me fosse buscar uma encomenda de livros de Direito à Livraria Petrony.
– Livraria Petrony?
- Sim, uma livraria e editora de livros de Direito que fica ali em baixo, na Rua da Assunção. Vais ter com senhor Augusto Petrony e dizes que vais levantar, da minha parte, uma encomenda de livros.
- Com certeza.
- Rapaz! É verdade, já agora, traz-me uma pedra de afiar livros.
- Uma pedra de afiar livros?
- Sim, homem… Vai lá e despacha-te!
- Com certeza.
Lá fui eu a pé, descendo a Rua Garrett, virei à esquerda pela Rua do Carmo, cortei à direita pelo elevador de Santa Justa, desci as escadarias, cheguei à Rua do Ouro, andei mais cinquenta metros e, junto à esquina da Rua dos Sapateiros, lá estava a Livraria Petrony.
- Por favor, o senhor Petrony?

O senhor Petrony (editor e livreiro emblemático de publicações de Direito, fundador em 1955 da livraria/editora com o mesmo nome) era uma personalidade impressionante. Mas o que mais me marcou na primeira vez que o vi foi o seu aspecto físico. Tanto que até hoje, muitos anos depois de o senhor ter falecido, ainda me recordo do seu tamanho, da sua voz rouca que parecia saída de um instrumento de sopro. Provavelmente, de excesso de tabaco. Era um homem grande, não em altura, mas em volume. Tudo nele era grande, os braços largos, as pernas gordas, os olhos enormes, muito saídos das órbitas oculares, que davam a sensação de que a qualquer momento explodiriam.
- É o próprio. O que deseja?
- Venho levantar uma encomenda de livros que está em nome do senhor Braga.

Passados trinta minutos que me pareceram horas, entregam-me dois enormes embrulhos de livros, atados com corda de sisal. Cada um devia pesar no mínimo quinze quilos. Só de imaginar que teria de carregar aqueles dois pesadíssimos pacotes de livros pela Rua do Carmo e Garrett acima, doeram-me as mãos.
- Deseja mais alguma coisa?
Envergonhado, acrescentei:
- Queria também uma pedra de afiar livros.
- Embrulhem-me aí uma pedra de afiar. - Gritou para dentro da loja o senhor Petrony.

Vejam o meu azar: para além dos dois pacotes de livros, teria também de carregar um objecto embrulhado, imensamente pesado, em forma de paralelepípedo (facto que não dava jeito nenhum, pois temos apenas duas mãos). Imaginem o peso dos livros, mais aquele objecto estranho que se deslocava de um lado para o outro, batendo constantemente contra os meus joelhos, as cordas de sisal que me cortavam literalmente as mãos, ao ponto de ficar com elas em sangue, fizeram com que um trajecto que se faz normalmente em dez minutos, demorasse 45 minutos, tantas vezes fui obrigado a parar por causa das dores. A suar em bica com as mãos e joelhos feitos num oito, lá cheguei.
- Demoraste...
- Sabe, isto é muito pesado.
- Trouxeste a pedra de afiar livros?
- Sim.
- Então deita-a no lixo.
Ouve-se uma gargalhada geral na livraria Bertrand do Chiado.

A pedra de afiar livros não passava de uma pedra enorme, daquelas com que se construíam as estradas antigamente. Era a praxe de iniciação de um livreiro. 
Assim começou o meu primeiro dia de trabalho.


Jaime Bulhosa

15 comentários:

Claudia Oliveira disse...

Que engraçado. :)

Leonardo B. disse...

Meu Caro Amigo

Haja mundo e olhos para o verem... que delicia de prosa!

Obrigado pela partilha... e sem mais delongas, nem palavras,por desnecessárias, queira aceitar

um imenso abraço

Leonardo B.
Bizarril

Leonardo B. disse...

Uma vez mais... por esta "caixinha" passo, para lhe informar que não resisti a fazer o link para este post, lá na minha esplanada das letras...

Com sinceridade,
um enorme abraço

Leonardo B.

www.impressoesdigitais2.blogspot.com

[link directo: http://impressoesdigitais2.blogspot.com/2009/09/ca-me-fascine.html]

Pó dos Livros disse...

Leonardo B.

Disponha.

abraço
Jaime

Sara disse...

ups! grande praxe! eu percorro muitas vezes as ruas da abixa e agora vou ter de tentar não me rir quando passar pelas ruas mencionadas, tentando não me lembrar da história.

mas foi o primeiro de muitos que se seguiram, certo?

fallorca disse...

Amolador... ehehe

Pó dos Livros disse...

Não Sara. Depois desse dia fiz-me esperto. ;)

Jaime

Menina Limão disse...

No ano que em que eu nasci ahaha, que lindo.

Yo disse...

Lindo, um dia a não esquecer :D

jorge vicente disse...

e essa tradiçom ainda subsiste? :)

antónio disse...

Se eu tivesse começado pela pedra de afiar e não por uma folha em branfo se calhar tudo teria corrido melhor. ;-) Sim, e um mestre também.

josé luís borges de almeida disse...

... mas é com essas praxes que se começa a amar as profissões...

conheço um caso similar, em que se pediu a alguém que fosse buscar tinta para o selo branco...

SEVE disse...

A mim calhou-me a pedra de afiar carimbos (pelo velho Bernardo, já falecido)

Anônimo disse...

Também eu, numa distante manhã de 1962 recebi a incumbência de transportar a "pedra de afiar as agulhas" (não, não era alfaiate), numa vila do interior beirão;
...e que saudades, ai ai!

AC disse...

Um texto quase de outros tempos, quando a preocupação com a iniciação fazia sentido. Algo se perdeu pelo caminho.