sexta-feira, outubro 9

Dirigismo cultural


No outro dia reparei que o meu filho do meio lia um livro que me pareceu estranho - era qualquer coisa asiática ou ligada à manga. Perguntei-lhe se estava a ler manga, ao que ele me respondeu:
– Mais ou menos, mas é bastante mais à frente.
Imediatamente e com um ar reprovador, disse-lhe:
- Com tanta coisa boa cá em casa para leres…
Sem me deixar acabar, respondeu:
- Não fazes ideia do que é isto, pois não, pai?
A resposta fez-me pensar se eu não estaria a ser ignorante na forma de dirigir as leituras do meu filho. Lembrei-me desta história:

Entra uma senhora que vem com uma missão específica.
- A minha filha está fora do país e pediu-me que lhe levasse esta lista de livros. Diz ela que fazem parte de uma colecção de clássicos gregos.
- Com certeza, minha senhora, só um momento... Aqui tem: Ilíada e a Odisseia, de Homero, a Apologia de Sócrates, de Platão, e a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Todos os títulos que a sua filha pediu.
Após uns minutos de espera:
- Sabe, estive a dar-lhes uma vista de olhos e verifiquei que estes livros são todos mais velhos do que Cristo. Estou a pensar em fazer-lhe uma surpresa, coitadinha... Olhe, em vez destes vou levar-lhe dos de agora, que são tão bonitos.


Jaime Bulhosa

3 comentários:

Anônimo disse...

Aconselho-o a ler "O Japão é um lugar estranho". Talvez o ajude a entender o seu filho.

Sara Figueiredo Costa disse...

Não sei o que estaria ele a ler, mas podes confiar: há verdadeiras obras primas por entre os milhares de títulos de mangá que chegam todos os anos ao mercado nipónico. Com sorte, era uma dessas.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Sábia Senhora. Na lucidez da sua simplicidade, rejeitou os cânones e avançou:).