quarta-feira, outubro 7

Morriñas


Peguei num livro com mais de trinta anos, desses que temos nas estantes de casa e nunca lhes tocamos, nem sequer sabemos que os temos ou então, se sabemos, não lhes prestamos atenção. O livro tem como título La Guerra Civil Española 1936/1939. Abri-o e reparei que tinha uma dedicatória. Era uma dedicatória do meu pai, escrita para mim no ano de 1979. Tinha eu apenas quinze anos. O meu pai tinha por hábito escrever dedicatórias sem que necessariamente depois as desse a ler ou oferecesse o livro de imediato. Dizia que era uma forma de ir fazendo partilhas sem querelas daquilo que tinha para deixar com maior valor. Eu desconfio de que era uma forma de relatar a sua vida, espalhada por muitos livros, devidamente contextualizados, e que como um puzzle espera ser reconstruída. A dedicatória dizia mais ou menos isto, digo mais ou menos, porque a letra do meu pai é difícil de decifrar:

«Para o meu filho Jaime Manuel, na esperança de que um dia leias a história de uma das guerras mais sangrentas, sem sentido e perpetradas entre irmãos: a Guerra Civil de Espanha. Para ti esta guerra é longínqua e faz parte do passado, mas para mim ela foi determinante no rumo da minha vida. Conto-te um pequeno episódio que me liga a ela, muitas outras histórias na família haveria para contar. Como sabes, fui criado sozinho pela minha avó materna, entre os anos de 1923 e 1936, numa aldeia que dá pelo nome de Pousa. Enquanto criança, gosto de dizer: fui pastor de vacas nas montanhas onde havia lobos e cavalos selvagens, lá onde nasce a cordilheira Cantábrica, numa província de Espanha chamada Galiza. A minha terra era uma terra muito pobre e mais ficou depois da guerra civil. Muito por culpa de um homem que se esqueceu da sua terra. - Já deves ter ouvido falar, chamado Francisco Franco. - Sou de um lugar de onde os homens partem e as mulheres sentem morriñas*.
Em 1936, com o início da guerra civil, contrariado e a mando dos meus pais, imigrados em Portugal, com apenas treze anos de idade, fugi da guerra e viajei sozinho para Lisboa. Viagem que nunca mais esqueci e que naquele tempo levava uma eternidade a fazer-se. Cheguei a esta cidade de Lisboa, que passou a ser a minha cidade, quando se deu um dos momentos mais marcantes que alguém pode viver. Conhecer seu pai e sua mãe em carne e osso. Não penses que os meus pais não queriam saber de mim, como eu também cheguei a pensar. Naquele tempo era assim, e a muitos outros como eu, devido à extrema pobreza, aconteceu-lhes o mesmo. Só depois de dois longos anos consegui voltar à minha terra, apesar dos avisos dos meus pais para não o fazer, pois estávamos em plena guerra civil e seria perigoso. Mas eu não aguentava de saudades da minha avó e, sem ouvir ninguém, parti. Acto que me valeu um dos maiores sustos da minha vida. Com apenas quinze anos de idade, fui compulsivamente alistado nas fileiras nacionalistas do Generalíssimo Franco. Felizmente para mim e para ti, consegui fugir antes de ser integrado, numa madrugada nos finais de Agosto de 1938, com a ajuda de alguns portugueses, amigos do teu avô, que se dedicavam ao contrabando. Passei a fronteira de noite, pelo Rio Minho, num pequeno bote, perto de uma terra chamada Troporiz. Depois de alguns quilómetros a pé, montámos a cavalo e dirigimo-nos para Valença do Minho. De lá apanhei o comboio e só parei quando cheguei são e salvo a Lisboa. Não voltei a viver na minha terra, como é sonho de tantos imigrantes.

Do teu pai com todo o carinho,

Gonzalo Bulhosa»

De pastor de uma aldeia galega a editor em Lisboa, o meu pai, nacionalista galego, morreu num estúpido acidente em 1990, com apenas sessenta e sete anos de idade. Encontra-se sepultado, como era de sua vontade, na sua terra, a Galiza.

*Morriñas: Palavra galega que significa «saudades ou melancolia» e que, ao contrário do que é hábito dizer-se, não existe apenas na língua portuguesa.

10 comentários:

Ana disse...

obrigada por partilhar connosco esta dedicatória.

Anônimo disse...

O seu pai era uma pessoa muito bonita. Obrigada por este post:)
Sílvia.

{anita} disse...

as coisas que os livros guardam...
obrigada por partilhar.

Guilherme disse...

Repito as palavras da Ana: obrigado por partilhar connosco esta dedicatória.

Catarina disse...

que bonita história, Jaime, grande exemplo. beijinho

josé luís borges de almeida disse...

ainda bem que nos deu a conhecer esta enorme "pequena estória".

Anônimo disse...

A emoção tomou conta de mim ao ler essas palavras sentidas, profundas e bonitas escritas por um pai para o seu filho.
Fazem falta pais assim.
Um abraço.

Anônimo disse...

isto é o que menos interessa mas a palavra morriña tb se usa em asturiano

Anônimo disse...

Maravilhoso. Obrigada.
Deixo a referência a um conto que aborda de alguma maneira o tema (de forma "leve" pois dirige-se essencialmente a jovens):"A Língua das Borboletas" de Manuel Rivas, editado pela Ambar. Serviu para debater o assunto com os meus filhos e despertar-lhes a vontade de conhecer melhor esse período negro de Espanha.
Alexandra

Anônimo disse...

Palavras bonitas e emocionantes.
Foi um prazer ler esta dedicatória, palavras únicas que nos transportam para um sentimento único de partilha entre a Galiza e Portugal.